Lá Vem a Nau Catrineta (75)

Julho 14, 2006

O Regresso dos heróis

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
esta Nau, diz o poeta
El-Rei a mandou armar
e de Rosa a fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
a barquinha em alto-mar
da odisseia sem par
dos loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra história de pasmar

Nove de Julho, meio-dia
deste Ano Santo da Graça
a marujada vadia
que se péla p’la festaça
depois do feijão com massa
debaixo da entremeada
-a ração dada à cambada
p’rá’companhar a copaça
daquela zurrapa baça
a que alguns chamavam vinho-
pôs-se de pé a caminho
de estibordo da barcaça

“Já se topa o escaler
ó camarada vigia?”
“Ainda não o estou ver
acaso já é meio-dia?”
“Há que tempos ó Faria
o escaler está atrasado…”
“Tem lá calminha ó Calado
e também tu ó Maria
já o meu avô dizia
que as cachorras apressadas
ao parir suas ninhadas
dão cães cegos à porfia”

Ora a seguir à tirada
do vigia de serviço
a Maria, alvoraçada
arranjou tal reboliço
que se não fosse o castiço
do Tinoca da mesena
ficava na história a cena
podem estar cientes disso
o seu berro evitou isso
“Já os vejo no horizonte!…”
atina aí tu na ponte
com o arco em fumo, ó chouriço!”

Foi assim que a barcarola
com os heróis da nossa gente
nossos jogadores de bola
lá atracou finalmente
com sorriso resplandecente
entravam na Catrineta
o Ricardo e o Pauleta
com o Felipão à frente
que coisa mais comovente
a populaça cantava
“Heróis do Mar…” – e chorava-
nobre povo, nação Valente…”

D. José que estoicamente
a tudo isto assistia
duvidava francamente
se entender conseguiria
o que uma bola fazia
transformar, de que maneira!
a alma da Nau inteira
que em chama brutal ardia
“Nem mesmo a virgem Maria
faria frente à selecção
em fé, alma e coração
podem crer, nem à razão
de dez milagres por dia!”

Com o Capitão cogitando
no que acima foi narrado
vai daí, eis senão quando
um episódio danado
deixou tudo tão espantado
que até o gato Tobias
que não comia há dois dias
parou e ficou especado
de um baú embarcado
com roupas da selecção
saiu de dentro um anão
mui patusco e engraçado

“Marques Mendes?!!!! que diabo?!!!…
vós aí?!!!…mas que raio?!…
essa agora, estou banzado!!!…
explicai-vos seu….catraio!!!”
“Ia-me dando um desmaio
g’anda nóia Capitão
eu cá pela selecção
nem que dê o badagaio
sou como as burras em Maio
fico doido e não resisto
choro mais que o próprio Cristo
choro até mais que o Sampaio”!

“E chorei meu Capitão
e vibrei com a alegria
aqueles penaltys então
poderei esquecer algum dia?…
só sei que todo eu tremia
no meio daqueles malteses
aqueles gigantes ingleses
com um metro e oitenta e tal
eu gritava:”Portugal”
e o Ricardo por três vezes
desfeitiou os fregueses…
de forma monumental

“Ah! então era você
o tal tipo… estou a ver
que o Ricardo na TV…
já estou a perceber…!”
“Era eu, todo a tremer
com a bandeirinha na mão
mas com fé no coração
não sei se está a entender
mas há mais, se quer saber
ele olhava para mim
e adivinhava assim
p’ra que lado defender

“Mas vós?!…” Ora bem, meu Capitão
eu queria ir ao Mundial
apoiar a selecção
do meu querido Portugal
como sabeis, por sinal
que sou muito poupadinho
não gastei nem um eurinho
e vi tudo na central
só me bastou afinal
esconder-me bem no baú
encolher barriga e cú
e estar calado, que tal?

Fale aí em baixo ou cale-se para sempre

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Lá Vem a Nau Catrineta (74)

Julho 3, 2006


Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
esta Nau, diz o poeta
El-Rei a mandou armar
De Rosa a fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
a barquinha em alto-mar
Dessa odisseia sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra história de pasmar

Estava doida a Catrineta
ouvia-se em todo o lado:
Figo, Ronaldo e Pauleta
são o trio abençoado
Mágigo Deco ladeado
p’lo Costinha e o Maniche
é o meio-campo mais fixe
que pode ser encontrado
quanto ao quarteto atrasado
Carvalho, Miguel e Meira
o Nuno, e na capoeira
o Ricardo mal-amado

Do Capitão aos grumetes
a histeria era geral
nos beliches, nas retretes
nos baús ou no estendal
a bandeira nacional
galhardetes e cachecóis
incitavam os heróis
da nobre barca real
p’rá peleja triunfal
nas frias águas arianas
iam ser quatro semanas
de uma loucura total

Assim que chegou a’ltura
foram mar fora voando
os eleitos p’rá’ventura
com o coração palpitando
e a barca inteira berrando
vermelho e verde vestida
numa linda despedida
com lencinhos acenado
e muita gente rezando
à virgem do Caravagio
Senhora de bom presságio
que nos fazia ir ganhando

Assim que ao longe sumiu
o escaler da nossa fé
logo de pronto se ouviu
o Capitão D. José:
“Vamos embora ó ralé
agora toca a mexer
porque há muito p’ra fazer
desde a popa até à ré
já chega de pontapé
no cautchú insuflado
vira o disco e muda o fado
toca a andar e a dar ao pé”

“Eu gostava de entender
o que é que lhes vai na tola
não consigo perceber
cérebros de tal bitola”
e se há coisa que me amola
são miolos de galinha!…
Olhai uma e outra alminha…
cada qual a mais estarola!
Um jogo de mata-esfola
estúpido, estão a ver?…
vinte tipos a correr
louquinhos atrás da bola!?…”

“Mas…ó Pacheco Pereira
você que é inteligente
não tente cair na asneira
de fazer ver a essa gente
que está senil ou demente
por gostar de futebol
e de bandeira e cachecol
vibrar efusivamente
é saudável, este aparente
manifesto tresloucado
mantém um tipo equilibrado
um escape, evidentemente”

“Qual escape, qual carapuça
está tudo doido varrido
pintam cabelo e a fuça
verde e vermelho garrido
choram, riem sem sentido
guincham que nem chimpanzés
dão estalos e pontapés
num qualquer outro indivíduo
se este vier colorido
com as cores do adversário
um porte mais ordinário
nem na selva, entendido?”

D. Pacheco e D. Coelho
lá seguiram conversando
p’rá reunião de conselho
de oficiais de comando
com o grosso se encaminhando
p’ró amplo salão citado
D. José de braço dado
com D. Diogo explicando
porque é que queria ir andando
reforma de vez meter
tinha as costas a doer
e não estava aguentando

E os dias foram passando
até que a hora chegou
a chincha estava rolando
toda a ralé exultou
e a tal febre se apossou
da gente da Catrineta
quando a passe do Pauleta
a primeira bola entrou
desde o netinho ao avô
toda a malta extasiada
Angola estava passada
venha o Irão, se gritou

“Os talibãs do Sadam
também vão levar p’rá’ssar
nem o Mulla ou o Imã
de nós os podem livrar”
Com a ralé a gritar
“Chuta Deco, chuta agora…
Goooolloooo!!!… já lá mora
O irão já foi a andar
com o México a papar
mais duas no galinheiro
a malta estava em primeiro
isto era sempre a aviar

Nos oitavos de final
quem nos iria ir tocar?
a Holanda?… não faz mal
essa também vai marchar
Pauleta de calcanhar
com toque soberbo e fixe
rapa do pé o Maniche
está lá dentro, vai buscar
ó gigante Van Der Sar…
Gooolllooo!!! de Portugal!!!
esta laranja afinal
foi fácil de descascar

E agora os ingleses
para os quartos de final
olhavam os portugueses
com a’rrogância habitual
aquele puto foi fatal
já pródigo em disparates
ousou pisar os tomates
do nosso tuga central
coitado, saiu-se mal
o depravado fedelho
levou com o cartão vermelho
onze a dez p’ra Portugal

Mesmo apesar do talento
ninguém conseguiu marcar
seguiu-se o prolongamento
só mesmo p’rós irritar
e aí é que foi gozar
com os bifes, minha mãe
eles lembravam-se bem
do Ricardo a descalçar
as luvas e a segurar
o penalty inglês
e viram mais uma vez
mas desta a triplicar

Foi a loucura total
a bordo da Nau, senhores
a gritaria era tal
que eu garanto sem favores
se ouvia até nos Açores
e na ilha da Madeira
mas que desfeita à maneira
tinham feito estes amores
estes putos, estas flores
aos arrogantes ingleses
aí bravos portugueses
que vivam as nossas cores

D. José, o Capitão
com o estado maior ao lado
desligava a televisão
com um ar preocupado
“Ó Coelho, estás informado
se o treinador Filipão
já tem, ou ainda não
novo contrato assinado?…”
“…?!!!…………”
“… Telefona lá ao danado
do Madail, esse pavão
quero saber se já estão
com o negócio fechado”

“Fazeis vós bem D. José
em saber já disso agora
não ouvis vós a ralé
como dá vivas aí fora
ao treinador nesta hora?”
“Corremos um grande perigo
bom Coelho, meu amigo
se ele ainda se demora”
“Se não quiser ir embora…”
por sorte fôr campeão
fazem dele Capitão
e quanto a mim… borda-fora!!!”

Fale aí em baixo ou cale-se para sempre


Lá Vem a Nau Catrineta (73)

Maio 20, 2006


Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
esta nau, diz o poeta
El-Rei a mandou armar
e de Rosa a fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
a barquinha em alto mar
Dessa odisseia sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra história de pasmar

«A UNIÃO IBÉRICA COM UMA GRÁVIDA PELO MEIO»

Já o calor se sentia
no ar um cheirinho a Verão
no mastaréu o vigia
com a luneta na mão
procurava o galeão
do Capitão Zapatero
nosso hermano e compañero
homem de bom coração
que por ser um bacanão
concordara permitir
que as tugas fossem parir
à sua barca-nação

Na pobre da Catrineta
D. José o Capitão
houvera posto na alheta
com os tarecos na mão
o obstetra João
e a Joana enfermeira
e ainda a Dora parteira
sendo a tesúria a razão
“Paridelas aqui não
ide parir na espanhola
eu estou quase a pedir esmola
e mais teso que um cabrão!”

Em gravidez avançada
a pobre da Conceição
uma maruja arraçada
que bulia no porão
companheira do Fernão
mestre ferreiro de bordo
homem forte, feio e gordo
via-se em grande aflição
orava a S. Sebastião
que abrisse o olho ao vigia
ou o puto ‘inda nascia
ali no meio do chão

“Barco à vista, galeão!”
berrou a plenos pulmões
cheio de satisfação
o vigia Zé Simões
parecia que as orações
da maruja Conceição
haviam dado razão
à sua fé no santinho
“Aguenta rapazinho
que já saltas cá para fora
é só mais um quarto de hora
e viras bébé chorão!”

Quando passado um bocado
mais a Nau se aproximou
o Simões ficou pasmado
com o que o seu olho topou
o galeão enxergou
-Hospital/Maternidade-
mas o que é certo e verdade
este o pavilhão baixou
e um outro levantou
sobre as velas desfraldadas
caveira e tíbias cruzadas
o q’uinda mais o espantou

D. José, o Capitão
assim que ouviu o vigia
apontou p’ró galeão
que a estibordo surgia
e superou a gritaria
do nosso amigo Simões:
“Às armas, tudo aos canhões
tragam toda a artilharia!!!
Zapatero, quem diria!?…
Corsário!!!… amigo da treta
queres guerra com a Catrineta?…
reza é à Virgem Maria

Vou-me à tua focinheira
que em oito dias seguidos
vais andar de caganeira
até perderes os sentidos!…
Ó meus bravos destemidos
mostrem-lhes quem a gente é
que nem um fique de pé
malhem forte nos bandidos!…
julgam que são atrevidos?…
já vão ver o que é um tuga
comem tantas na peúga
que ficam todos partidos!”

Com os tugas prontos p’ró salto
de armas na mão gritando
ouviu-se um berro mais alto:
“Coño hombre, estás brincando?!…
me aces venir volando
como um loco sobre el mar
e ora mi quieres atacar?!!!…
pero…que está passando?!!!…
bueno és que bas hablando!”
“Ai tu queres que eu vá falando
meu castelhano marado?
eu é que fui atacado
e é bom que vás explicando!”

“Há aqui um mal-entendido
que eu posso explicar…”
“D. Lino?!… eu estou perdido
já não sei o que pensar
faça o favor de falar
quero pôr ponto final
nesta cena surreal
que já me está a irritar!”
“Então eu vou começar:
Isto teve início em Vigo
quando aqui o nosso amigo
ali me ouviu discursar

Sabe como é Capitão
o almoço era apurado
mamei meio garrafão
e fiquei bem aviado
não consegui estar calado
e…ó má sorte macaca
vá de dar corda à matraca
ficou o caldo entornado
como já estava embalado
com a pomada castelhana
-e que bem trepa a sacana-
desatei a cantar fado


Se a nossa língua e cultura
têm tanto em comum
achamos chegada a altura
de ambos sermos só um
andamos ao estaladum
vai p’ra novecentos anos
nós que até somos hermanos
paremos com o trinta e um
timterlim terlum tum tum
esta coisa é muito séria
viva o país da Ibéria
como ele não há nenhum!

“Ó seu cabeça de burro
seu piela desbocado
que rico tacho de esturro
fez você deste guizado…”
“Atirem o marafado
do alto do mastaréu
lé bem pertinho do céu
caia no chão espatifado
e seja pontapeado
qual Vasconcelos no Paço
agarrem já o palhaço…”
ouvia-se em todo o lado

“Alto e pára o bailarico
nem pensar em linchamento
aqui a este jerico
vou já dar-lhe o tratamento
p’ra já e neste momento
Zapatero, meu irmão
quero pedir-te perdão
desculpas p’lo contratempo
aproveita este bom vento
e regressa à tua Espanha
e aproveita, leva a prenha
qu’inda aqui tem o rebento!”

“Capitão, espere um bocado
o espanhol pode zarpar
está parido e despachado
vê-de, já está a mamar
não se podendo aguentar
a pobre da Conceição
no meio da discussão
que estava ali p’ra durar
viu as águas rebentar
pôs-se de cócoras e… zás!…
pariu sózinha o rapaz
sem ter ninguém a ajudar!”

“Ah, valente Conceição
rica ideia tenho em mente
vou poupar um dinheirão
assim que a levar em frente:
Fique a saber toda a gente
p’lo campo e p’la cidade
que blocos/maternidade
são coisas de antigamente
não acho a mulher diferente
da gata, rata ou cadela
quer parir?… problema dela
isso não é nada com a gente!”

Fale aí em baixo ou cale-se para sempre


Lá Vem a Nau Catrineta (72)

Maio 6, 2006


Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
esta nau, diz o poeta
El-Rei a mandou armar
e de Rosa a fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
a barquinha em alto mar
Dessa odisseia sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra estória de pasmar

“O ESTOIRO”

Estava D. José deitado
após lauta almoçarada
manjar divino regado
com um tintol da bairrada
de pança tão aviada
que nem precisou contar
carneirinhos p’ra embalar
numa sesta descansada
Mas quando a sorte malvada
não quer nada com a gente
escafede-se e de repente
lixa a gente bem lixada

Nem dez minutos passados
estava o nosso Capitão
em sonhos de mel barrados
quando estala a confusão
algo embatera no chão
que toda a Nau estremeceu
coisa caída do céu
e fizera um buracão
desde o convés ao porão
só se detendo à beirinha
de um contentor que continha
mil balas de canhão

Das gentes a gritaria
que logo se levantou
urros, berros, a histeria
a D. José acordou
“Será que a guerra estalou?!…”
-pergunta assarapantado-
“…estou a ser bombardeado
ou o Armagedão chegou?!”
“Senhor, já que aqui estou…”
-soltou um seu acessor
que entrara sem favor-
conto-lhe o que se passou”

“Então bufa lá ó meu…”
“Meu senhor, foi o Morgado
que do alto do mastaréu
malhou em vôo picado
o cota andava estoirado
já não tinha pedalada
p’ra tarefa tão pesada
o pobre do desgraçado”
“Espera aí só um bocado
mas qual era a sua idade?”
“Sessenta e cinco, à vontade
devia esta reformado!”

“Mas estás parvo ou ensandeceste?!
que é lá essa fantochada?!…
estamos tesos, ou esqueceste?!…
queres que vá roubar p’rá estrada ?!
esperança de vida aumentada
não tarda a chegar aos cem
e sendo assim, ora bem
toca a bulir ó cambada!
ninguém quer é fazer nada
sua súcia de calões
dão o cú e oito tostões
p’rá bunda ter regalada!

Um balde de água bem frio
nas ventas desse camelo
que a cura p’lo arrepio
é bom remédio p’ró pêlo
ainda hoje quero vê-lo
a trepar p’lo mastaréu
e acaba-me com o escarcéu
que já estou p’lo cabelo
eu volto p’rá meu coucelo
p’rá’cabar a minha sesta
vamos lá a ver se é desta
que o je consegue fazê-lo!”

“Dais licença D. José?”
“D. Diogo, que se passa
então agora o que é?
confesso não acho graça…”
“Sei que isto tudo vos maça
mas o homem que malhou
bateu as botas, marou
que fazemos à carcaça?”
“Chiça, maldita desgraça
foi azar!… que faço agora?
funeral e borda-fora
que mais quer você que faça?”

“Pobre diabo…fogo!!!
tendes razão, é o fado…”
“E agora, D. Diogo
posso dormir descansado?
“Não quero ser mal-criado
mas tenho que o confessar
eu quero-me reformar
Senhor, estou bué de cansado
já tenho tudo assinado
peço a aposentação
pode ser meu Capitão?
confesso, estou saturado

O trabalho cerebral
não se pode comparar
com o da ralé em geral
nem lhe chega ao calcanhar
eles podem trabalhar
aí até aos oitenta
mas nenhum de nós aguenta
mais que quatro sem parar
assim… vou-me reformar
tenho direito ao dinheiro
da reforma por inteiro
dez mil euros vão chegar!”

Fale aí em baixo ou cale-se para sempre.


Lá Vem a Nau Catrineta (71)

Abril 21, 2006

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
esta nau, diz o poeta
El-Rei a mandou armar
e de Rosa a fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
a barquinha em alto-mar
dessa odisseia sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra estória de pasmar

“A SEMANA SANTA E O CASINO”

Estava a Páscoa já na pista
e a Quaresma a estacionar
feriado de Sexta à vista
ralé de cornos no ar
D. José ainda quis dar
a manhã de quinta-feira
“Um Capitão à maneira
-comentava o Baltazar-
vê a malta trabalhar
qual galegos do Ferrol
aqui com o ripado ao sol
e manda-nos descansar”

Na ponte da Catrineta
surgia então D. José
deitou a mão à sineta
e ali juntou a ralé
tão formadinha que até
os tenentes murmuraram
“Os cabrões nunca formaram
tão direitinhos, ó Zé!”
“Ora meu, pois já se vê
cheira-lhes a vadiagem
três dias de beberagem
ainda perguntas porquê?”

“Qual três dias qual caneco
são é três dias e meio
o Capitão patareco
enlouqueceu de permeio
então não sabes que veio
dar ainda mais meio-dia
a esta corja vadia
p’rálargar o devaneio
ouvi cá um galanteio
vindo ali do Baltazar
qu’inda fazem um altar
e o levam de passeio”

“Então e nós ó Morais?”
“Nós é que estamos tramados
os planos semanais
irão ter que ser votados
fardadinhos e armados
vamos à reunião”
“Sacana do Capitão
q’uinda lhe parto os costados
ai dá folga aos desalmados
e a nós dá-nos trabalho?
pois mando-o já pró ca…”
“cala-te ou somos topados”

E lá foi a trupe inteira
de vacanças prolongadas
meio-dia de quinta feira
com as trouxas aviadas
nos escaleres as bacoradas
eram à dúzia ao segundo
foi-se embora todo o mundo
ficou o pobre Barradas
as costas já mui curvadas
na mão a roda do leme
o Tó na gávea e o alfageme
já velhote p’ra cegadas

No camarote ordenado
à hora da votação
estava D. José sentado
com a papelada na mão
“Ó Almeida, que horas são?”
“Já passa um quarto de hora”
“Mas então… esta agora
onde é que eles andarão?!
sabem que faço questão
em que nós os portugueses
aprendamos com os ingleses
ou será que não saberão?

“Terão percebido mal
a tal ordem recebida
que dispensava a geral
e foram também à vida?”
“Essa agora ó Boavida
isso era p’ra ralé
não p’rós tenentes, não é?…
…Anda cá ao dono ó Brida
tás com o cio e andas saída
mas vê se cheiras, ou sentes
por onde andam os tenentes
minha cadelinha querida”

Passada mais uma horinha
com o rabito a abanar
chega a pobre cachorrinha
cansadinha e a bufar
assim que pôde ladrar
soltou três longos latidos
p’lo Capitão traduzidos
aos presentes devagar
“Diz que os foi encontar
a jogar Black Jak
e a emborcar conhaque
na saleta do radar!!!?

Dá aí o livro de ponto
que eu já os ponho aos pulos
vou-lhes ao bolsinho e pronto
vais ver como ficam fulos
Mas… ó corja de farandulos
assinaram esta treta
e puseram-se na alheta

muito bem, vamos lá ver
o que é que tem a dizer
esta cambada de chulos”

Em passo firme e a marchar
lá seguiu o Capitão
p’ró buraco no porão
onde ficava o radar
a cem metros do lugar
já se ouvia o chavascal
era o cagarim total
tudo aos berros a gritar
fulo de raiva, a espumar
deu um biqueiro na portada
perguntando p’rá cambada
“Senhores, podem explicar?

Que merda vem a ser esta
ó seus filhos d’um cabrão?!
qual o motivo da festa
nesta canto do porão?!”
“D. José, peço perdão
nós estamos a trabalhar
ou melhor, a afinar
o braço, os dedos e a mão!”
“Estás a gozar manganão?!”
“A gozar?!… mas por favôr
não vos lembrais meu senhor
que está breve a inauguração?”

“Mau, mau, mau, mau, mau, Maria
ouve cá ó manjerico
sobrinho da tua tia
açoriano do Pico
depois deste bailarico
que me queres aindar dar
mando-te chicotear
trinta vezes, mafarrico
com o chicote de bico
que nem vais poder cagar
incapaz de te sentar
na sanita ou no penico

“Mas senhor meu Capitão
não estareis vós recordados
que na última reunião
dissesteis sem mais recados
p’ra estarmos bem preparados
para esse evento tão fino
a abertura do Casino?!
Pois bem, estamos empenhados
a estudar compenetrados
machine slots, e poker
o bingo a linha e o joker
roleta apostas e dados


Lá Vem a Nau Catrineta (70)

Abril 9, 2006

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
esta nau, diz o poeta
El-Rei a mandou armar
e de Rosa a fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
a barquinha em alto-mar
dessa odisseia sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra estória de pasmar

“PARA ANGOLA JÁ E EM FORÇA!”

No Ano Santo da Graça
de dois mil e meia-dúzia
outra estória macambúzia
agitou a populaça
ao Capitão da barcaça
deu-lhe outra vez a pancada
na cachola iluminada
p’ra mal da nossa desgraça
e por mais que alguém lhe faça
seja a bem ou seja a murro
fazer ver que está a ser burro
é certo q’uinda se passa

Sabem o que naquele dia
se lembrou o iluminado?
valha-nos Santa Maria
que ficou tudo banzado:
“Chamem o Almirantado
e a flôr empresarial
deste nosso Portugal
p’rá reunião de Estado
o encontro está marcado
para daqui a uma hora
sem atrasos, sem demora
quero isto despachado!”

Lá foi o pobre estafeta
a correr qual desalmado
os cantos à Catrineta
muito aflito, coitado
o tempo era sesgado
tendo uma hora somente
para encontrar toda agente
tal como fôra ordenado
no fim estava tão cansado
que rolando sobre si
caiu todo junto ali
um membro p’ra cada lado

Sabendo o que aconteceu
ao estafeta desgraçado
sabem o que remoeu
este Capitão safado?
“Pôrra que estou bem lixado
com a merda do Alfredo
quer é copos e putedo
e depois fica cansado
vá bugiar p’r’outro lado
despeçam o gabirú
contrata o Obikwelu
está o assunto arrumado!”

No convés se reuniram
-eram bué, aos montões-
por isso todos ouviram
as palavras dos chefões
“Podemos ganhar milhões
e já lá estão os chineses
os espanhóis e ingleses
e gente de outras nações
mas temos duas razões
para ganhar a qualquer um
uma a história comum
outra a língua de Camões

De entre todos vou levar
alguns do almirantado
p’rá coisa protocolar
já que é visita de estado
o meu calção amarelado
os meus ténis de corrida
e uma t-shirt curtida
que tenha à frente estampado
a preto e a encarnado
Angola e Portugal
porque é para lá afinal
que o rumo vai ser traçado

Empresários e banqueiros
às malas suas molezas!…
…levamos dois cozinheiros
porque eu tenho umas surpresas
receitas das realezas
que eram da minha avó
bolo mel e pão de ló
bolo de nóz e framboezas
suculentas sobremesas
e levamos chá Licungo
que eu não suporto gindungo
nem rezando a Santa Teresa…

D. Freitas, verdade ou não?!
…mas que raio!…estais espantado?!”
“Ó meu querido Capitão
estais-me a deixar assustado
e também bué enervado…!”
“Mas porquê homem de Deus?!”
“Mas vós não vêdes?!… Ó céus
estaria tudo estragado!…
era um incidente de estado
se recusasse, Capitão
a papa do anfitrião
qual puto mal educado!”

“Ai gindungo… vou mesmo ter que engolir?”
“Olhe, ponha-se à defesa!…
o primeiro prato a sair
é muamba, de certeza!
Vingue-se na sobremesa
você não gosta de côco?”
“Detesto! Nem um pouco!”
“Vão pôr isso sobre a mesa
reze pois à Santa Teresa
terá que se aguentar
também vai ter que o mamar
que vai ser uma beleza!”

A ralé ouvia tudo
com ar estupidificado
quando houve um abelhudo
um tal Zé da Nau chamado
que arriscando ser linchado
perguntou ao Capitão:
“Meu senhor, peço perdão
confesso-me baralhado
disse o senhor há bocado
se não me falha a memória
que ia ‘Angola fazer história
numa visita de estado?”

“É como dizes marujo
mas porquê? estás admirado?
posso saber meu sabujo
porque estás tu tão espantado?”
“Estou confuso, atarantado
tenho mui pouca instrução
e não entendo a razão…”
“Fala lá meu desgraçado!”
“…Se tal me é ordenado…
…Senhor, não leveis a mal:
O que lucra Portugal?!…
devo estar mui baralhado

“Alguns desses empresários
senhores mui bem conhecidos
fazendo de nós otários
andam ao fisco fugidos
só se formos ressarcidos
com o que lá vão roubar
pois não vão para ajudar
nisso estamos entendidos
os meus pêsames sentidos
ó pobre povo angolano
chupam-vos osso e tutano
tal a corja de bandidos

Se me mandar embarcar
para remar o escaler
já estou a magicar
como é que vou proceder
sabe o que é que eu vou fazer?
irei fazer tal e qual
como o Marquês de Pombal
já me está a perceber?
quando ao largo já estiver
afogo-os quais jesuítas
cambada de parasitas
acreditem, podem crer!”


Lá Vem a Nau Catrineta (69)

Abril 1, 2006

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
esta nau, diz o poeta
El-Rei a mandou armar
e de Rosa a fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
a barquinha em alto-mar
dessa odisseia sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra estória de pasmar

“A GUERRA À BUROCRACIA”

A toda a tropa em geral
ordenou o Capitão
através de um edital
escrito pela própria mão:
“Convoco a tripulação
ordeno e faço saber
que hoje irá decorrer
a bordo uma reunião
a ela não faltarão
marinheiros e tenentes
estejam sãos, estejam doentes
ou debaixo de prisão

O tema da dita é:
“pôr fim à burocracia”
que acho ser por minha fé
o pior mal de hoje em dia
sofri tamanha arrelia
no dia que ontem findou
que ainda possesso estou
de tão sinistra agonia
por isso essa porcaria
vai já levar “sopa e molho”
fique eu ceguinho ou zarolho
juro-o p’la Virgem Maria”

A assinatura bonita
e o sinete em lacrado
atestavam “in-veritas”
o documento citado
o papel era timbrado
com a Real Ordem da Rosa
essa flor tão formosa
segura em punho fechado
no topo esquerdo, em quadrado
lá estava o brazão Real
das armas de Portugal
vermelho, azul e dourado

E a Catrineta ancorava
no dia e hora aprazados
como o édito ordenava
homens todos perfilados
oficiais e soldados
estava ali a Nau em peso
do mais magro ao mais obeso
compridos e atarracados
os doentes acamados
tudo “pariu” no convés
cheiinho de lés a lés
gente por todos os lados

Na ponte da Nau, por fim
eis que surge o comandante
carinha de Serafim
e penteado elegante
de olhar duro e penetrante
fita a seus pés a ralé
imponente D. José
o momento é fascinante
dá mais um passo adiante
pigarreia e sonoroso
com aquele ar majestoso
diz à turba nesse instante:

“Marujos da Catrineta
que é pertença de El-Rei
desde Monção à Fuseta
a partir de hoje sabei
que a fundo me empenharei
na guerra anti-burocrática
ia apanhando ciática
por pouco não a apanhei
mais um minuto e não sei
se eu não teria ficado
p’ra todo o sempre entrevado
vejam do que eu me livrei!…”

“Mas senhor, que aconteceu
para estardes tão danado?!
ainda ninguém percebeu
“népias” do que foi narrado”
“Podes ficar descansado
que já ficas a entender
não te excites, estás a ver?
já faço a nota em trocado
Pois estava eu descansado
esta manhã na sanita
despejando a tripa aflita
quando passado um bocado…

…Reparo com desagrado
que não havia papel
vai daí chamo o Miguel
contínuo do Almirantado:
“Ó Miguel, estou entalado
que sarilho, vê lá tu
preciso limpar o cú
e o papel é acabado”
O Miguel ancavacado
responde-me muito aflito:
“Ai que sarilho maldito
temos o caldo entornado…

…No final do mês passado
pedi eu ao Armazém
trinta rolos, mas porém
nem um só foi aviado
o sistema é atrasado
demora uma eternidade
para falar a verdade
julgo que está bem lixado
vai esperar um bocado
vou procurar o rapaz
vamos ver se sou capaz
de dar conta do recado”

“Lá foi correndo o Miguel
qual gazela, qual pantera
à procura do papel
e eu ali sentado à espera
mas quem espera desespera
hora e meia era passada
e Miguel ou papel…nada
fiquei pior que uma fera
já a caca que eu fizera
houvera há muito secado
e até o rabo borrado
já tinha crosta, pudera!

E a coluna dolorida?
e as perninhas dormentes?
rangia eu entre dentes:
“Ó puta da minha vida!…
mas que cena mais sofrida
me havia de acontecer
por este andar estou a ver
que a coisa não tem saída
ai minha santinha querida
juro nunca mais cagar
sem primeiro constatar
se há papel à medida!”

“Nisto ouço alguém a correr
e a voz doce do Miguel
pensei: “aí está o papel
eis o fim do meu sofrer!”
“Mas estava era a acontecer
outra cena surreal
o Miguel deu-me um jornal
dizendo sem se deter:
“Você nem queira saber
o caldinho que arranjei
quase porrada levei
quando tentei perceber…

…Porque estava ali plantada
a merda da requisição
há um mês sobre o balcão
prontinha a ser aviada
ouvi uma rabecada
que me virou ao contrário
do cabrão do funcionário
puto de língua afiada:
“Julga que não há mais nada
que fazer, senhor Miguel
do que aviar-lhe o papel
todo assim de uma assentada?

Ando aqui sem Sul nem Norte
esfalfado como um sacana
venha cá só p’rá semana
acalme-se e não se importe
pode-me custar a morte
mas vá ter com o Capitão
e diga-lhe que o João
sem medo que a burra entorte
manda dizer feio e forte
ao Comandante Geral
que limpe o cú ao jornal
e já vai com muita sorte!”