Bate o Pau e Sobe o Pano (5)

Abril 19, 2006


D. Fuas: Diz-me esposa amada, onde está a minha espada?
Dª Leanor: Ainda no alfageme esperando ser afiada.
D. Fuas: Mas foi p’ra lá enviada há já mais de mês e meio!
Dª Leanor: Perder-se-ia de permeio tal como o meu biquíni?
D. Fuas: O teu biquíni?
Dª Leanor: Mais Oui! aquele azul às bolinhas comprado no El Corte Inglés.
D. Fuas: ?! Explica lá outra vez… mas que reino mais maluco… que estória é essa do biquíni às bolinhas?
Dª Leanor: Ai marido, p’las alminhas, então vós não vos lembrais?!… foi conversa de salão!… que galhofa que issso foi!…
D. Fuas: Juro que “não vejo um boi” nem me lembro de nadinha.
Dª Leanor: Ai marido essa tólinha, esse teu real miolo que tão afanado está, olálá! Cabecinha como a tua há anos havia poucas.
D. Fuas: Lá vens tu com as vacas loucas… é isso que queres dizer?
Dª Leanor: Se assim o quereis entender…
D. Fuas: Eu queria era perceber o que aconteceu à espada, o resto é conversa fiada como essa do biquíni. Chamai D. Raimundo aqui, quero saber o que se passa.

(Sai Leanor e entra Raimundo, primeiro ministro do Reino de D. Fuas)

D. Raimundo: Dais licença Vossa Graça?
D. Fuas: Entra fiel servidor, senta-te nessa poltrona.
D. Raimundo: Cheguei aqui numa fona Majestade El-Rei Senhor. Alguma emergência?
D. Fuas: Estou a perder a paciência, começo a ficar em brasa…
D. Raimundo: Mas senhor, o que se passa?!… tão fulo nunca vos vi.
D. Fuas:A culpa é do biquíni e da porra da espada.
D. Raimundo: Não estou a perceber nada; qual espada e qual biquíni?!
D. Fuas: Será que também a ti abordou a pestilência?
D. Raimundo: Senhor, tende paciência, não estou a entender nadinha.
D. Fuas: Podes crer que uma vaquinha já te pegou a doença, tal como o mim teu senhor; tem razão a Leanor.
D. Raimundo: Majestade, por favor, mas estais a falar de quê?! nada disto faz sentido…
D. Fuas: Do meu espadalhão perdido e também do biquíni!… agora já faz sentido?
D. Raimundo: Estou completamente perdido, façamos ponto final, vou chamar a serviçal p’ra nos servir um chazinho, estando tudo mais calminho certo nos entenderemos.
D. Fuas: Pois chamemos.

…./…. continue a ler


Bate o Pau e Sobe o Pano (4)

Março 27, 2006

No Castelo de D. Fuas

D. Fuas: Leanor amada esposa, estás tu já pronta p’rá missa?
Dª. Leanor: Ai D. Fuas, arre chiça, deslizais como a raposa!
D. Fuas: Não entendi minha rosa…
Dª. Leanor: Esgueirai-vos mui sorrateiro, sois mais leve que uma pena!
D. Fuas: Desculpa flôr de açucena se acaso te assustei!
Dª. Leanor: Ó esposo amado e meu rei, chamaste-me de açucena?
D. Fuas: Sim chamei, não gostaste?
Dª. Leanor: Ai meu senhor, ADOREI! Mas o que é que perguntaste?
D. Fuas: Se estavas pronta p’rá missa; Já lá está o nosso frade.
Dª. Leanor: Para vos falar verdade é só compor a camisa.
D. Fuas: E onde andam Xerazade, Inês, Teresa e Blimunda?
Dª. Leanor: Mocitas daquela idade devem andar na desbunda, eh,eh,eh! Faço ideia onde andarão!
D. Fuas: Mas decerto à missa irão?!
Dª. Leanor: Podeis ficar à vontade porque à hora lá estarão.

( O rei, a raínha, as princesas e a restante corte entram na capela do castelo. Tem início a missa solene e mais à frente o sermão pelo frade Paio )

Frade Paio: Caríssimos irmãos: Hoje vamos debruçar-nos sobre Mateus 9.22, onde se afirma:
«É mais fácil um camelo salvar-se…???!!!…» Perdão, eh,eh,eh! o que eu queria dizer não era isto, era: « É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico conseguir a salvação», assim é que está correto.
Afastai-vos pois da riqueza e rejeitai-a convictamente, porque o dinheiro e o poder enlouquecem o homem, tornam-no ruim e maldoso levando-o à perdição total e à condenação eterna.
Quinas, Melos, Champalimoud’s, Pereiras Coutinhos, Amorins, Belmiros e afins, têm como destino garantido o tormento eterno nas brasas do inferno.
E também vai chupar chispas todo aquele que se deixar tentar pelo jogo. Totobolas, totolotos, toto-milhões, raspadinhas e lotarias, vai ser um “vê se te havias” de almas virando tições.
Ficais por isso avisados: Se não quereis ser chamuscados mandai à vida os cifrões!
Palavra da salvação; Demos graças a Deus!

( Termina a missa. D. Fuas retira-se para os seus aposentos e chama a esposa )

D. Leanor: Chamaste-me meu senhor?
D. Fuas: É verdade Leanor, chamei sim.
D. Leanor: E que pretendes de mim?
D. Fuas: Estou muito preocupado depois de escutar frei Paio. Sinto-me em mísero estado, quase a dar-me o badagaio!
D. Leanor: Credo, cruzes canhoto, te arrenego diabrura!
D. Fuas: O fradeco de tonsura… é vivaço e mui maroto!
D. Leanor: Também me ficou no goto e ia falar-te nisso.
D. Fuas: O clérigo é castiço, é danado esse frei Paio!
D. Leanor: Que problema de um raio veio ele levantar…
D. Fuas: Que não se podem salvar os que vivem na abastança…
D. Leanor: E aquela semelhança entre a agulha e o camelo…
D. Fuas: Ora se até um cabelo mal pode entrar na ranhura…
D. Leanor: Imagine-se um camelo que tem dois metros de altura…
D. Fuas: P’ra não falar da largura!
D. Leanor: Vamos ter que ir à procura de remédio e solução…
D. Fuas: Porque senão…
D. Leanor: As brasinhas de carvão porão um fim à’ventura!
D. Fuas: Penso que é chegada a altura de consultar D. Raimundo, homem de grande cultura, senhor de um saber profundo.

( O rei pede a comparência do Conselheiro Raimundo )

D. Fuas:Entra e põe-te à vontade. Senta-te no canapé.
D. Raimundo: Estava ensinado oboé à princesa Xerazade…
D. Fuas: Deus abençoe essa mona que até solfejo ensina.
D. Raimundo: Xerazade é uma menina muito alegre e brincalhona, mas também mui espertalhona… adorada princesinha vossa filha graciosa…
D. Fuas: Um botãozinho de rosa, dará formosa raínha!
D. Raimundo: Ai isso de certezinha! Senhor D. Fuas, meu rei, porque mandaste chamar-me?
D. Fuas: Tenho algo a inquietar-me, algo que eu ouvi dizer.
D. Raimundo: E o que é, posso saber?
D. Fuas: Tem a ver com a salvação, e também com a perdição da minha alma, estás a ver?
D. Raimundo: Bem…a ver, a ver… não estou; explicai-vos meu senhor!
D. Fuas: Tendes razão, é melhor, ficais já a perceber. É que estou preocupado com o tema do sermão feito pelo capelão na missinha de há bocado.
D. Raimundo: Sobre agulhas e camelos?
D. Fuas: Arrepiam-se-me os cabelos só de pensar, entendeste? Sendo eu rei sou um ricaço… apanhei um tal cagaço…
D. Raimundo: Percebi o que disseste.
D. Fuas: Ainda bem que entendeste. Agora pergunto eu: Há solução p’ró dilema?
D. Raimundo: Confesso senhor que o tema é deveras interessante, mas se esperares um instante eu talvez arranje um esquema…
D. Fuas: Não me digas que és capaz?!
D. Raimundo: Sabei, conheço um rapaz… que penso ter resolvido há uns tempinhos atrás o assunto discutido.
D. Fuas: Ah, D. Raimundo, meu querido e amado conselheiro, confesso que estou rendido!
D. Raimundo: Vou já chamar o banqueiro.
D. Fuas: Que disseste?! Um banqueiro?!
D. Raimundo: Sim senhor, a tempo inteiro!
D. Fuas: E quem é essa figura?
D. Raimundo: Logo sabereis na altura em que vo-lo apresentar.
D. Fuas: Também gostas de brincar,eh,eh,eh! Posso ficar descansado?
D. Raimundo: Deixai-vos ficar sentado que volto antes do jantar.

( D. Raimundo retira-se. D. Fuas fica só com a raínha sua esposa )

D. Fuas: Ai minha esposa adorada, este fiel D. Raimundo…
Dª Leanor: Bem podias correr mundo de lamparina atiçada…
D. Fuas: Nem com varinha de fada outro igual eu acharia!
Dª Leanor: Que seja bendito o dia em que a mãe o pôs no mundo!
D. Fuas: Deus te guarde bom Raimundo!

( Passadas duas horas regressa D. Raimundo e entra na sala do trono )

D. Raimundo: D. Fuas, rei e senhor, cá estou como prometido sem o jantar ser servido.
D. Fuas: Não fico surpreendido, sempre foste pontual, mas também estou curioso. Juro serei generoso se vir isto resolvido. Manda entrar o tal banqueiro.

( Entra o misterioso banqueiro )

D. Raimundo: D. Fuas, real senhor e nosso rei muito amado, tal como disse há bocado volto a dizer outra vez, este distinto freguês, banqueiro mui afamado, Jardim Gonçalves chamado, tem a chave do mistério…
D. Fuas: A sério?
D. Raimundo: A sério!
D. Fuas: Mas como soubeste tu do caso deste banqueiro?
D. Raimundo: Quando uma tarde o ferreiro, que conheceis, um tal Paco, entrou aqui ao palácio p’ra pedir o meu parecer. O pobre não entendia por mais que desse ao miolo, para o que serviria instrumento mais parolo…
D. Fuas: Instrumento?!…
D. Raimundo: Deixai-me continuar. Ora efectivamente, ao ver o dito instrumento, percebi nesse momento o que estava a magicar o nosso amigo banqueiro. Lá descansei o ferreiro, pedi que continuasse e que não se apoquentasse pois estava são o banqueiro.
D. Fuas: Mas que disseste ao ferreiro? ‘Inda não percebi nada!…
D. Raimundo: Entendereis tarda nada, tal como eu entendi. Indo também o banqueiro à missa regularmente, ouviu como toda a gente a tal história do camelo. Parece que estou a vê-lo, foi p’ra casa a magicar como se iria salvar sem perder um só cabelo.
E conseguiu-o senhor, de uma forma assaz brilhante, e foi aí nesse instante que procurou o ferreiro.
Ora como disse atrás, percebi logo depois, foi só somar dois mais dois e…zás! a conta batia certa!…
D. Fuas: A conta?!!! Qual conta?!!! Cada vez percebo menos!
D. Raimundo: Mas meu senhor, é claro, mais até que água do Luso!…
D. Fuas: Pois cá p’ra mim é confuso…
D. Raimundo: Mas senhor, não estais a ver? Então adorado rei, será louco este banqueiro que pertence à Opus Dei sabendo ir p’rá braseiro? Posso garantir-vos eu: Aqui o nosso Jardim ‘inda não ensandeceu, está bem lúcido, isso sim!
D. Fuas: Ora vira-te para mim, que ainda nada entendi; Dizes chamar-te Jardim?
Jardim: É exactamente assim.
D. Fuas: Vamos direito ao assunto, vou meter aqui a estaca, estamos a serrar presunto e não a cortá-lo à faca. Diz-me lá concretamente: Se no buraco da agulha não cabe nem um cabelo, como é que conseguiste fazer passar um camelo?
Jardim: Majestade excelentíssima, saiba que me sinto honrado, por estar ao vosso lado e da raínha digníssima.
Quanto ao caso em questão, como disse D. Raimundo, empreguei-me bem a fundo para achar a solução. Sendo eu um bom cristão, amigo dos pobrezinhos, era injusto até mais não ir de encontro aos diabinhos. Vai daí pus-me a pensar e disse assim cá p’ra mim: « Tenho que achar, isso sim, a forma de me salvar». Matutei…matutei…e…ACHEI!
Ora bem, se o camelo não passa pelo buraco, nem que eu lhe corte o pêlo ou o transforme em guanaco, só estou a ver um caminho de o fazer passar então: No lugar do buraquinho eu fazer um buracão!
Vai daí fui-me ao bichinho e com o metro na mão, medi do rabo ao focinho e da bossa até ao chão. E fui ao Paco ferreiro mandar fazer uma argola onde o bicho direitinho, desde o rabito à carola coubesse todo inteirinho.
E essa argola meu rei, mandei-a soldar à agulha!
D. Fuas: E ora toma e embrulha, eh,eh,eh! resolvido de verdade!
Mas diz-me lá p’ra’cabar, como surgiu a ideia?
Jardim: Foi quanto estava a escutar em directo da Assembleia o Orçamento de Estado!
D. Fuas: Com essa fico banzado!?
Jardim: Mas porquê real senhor?
Todos os anos assisto
ali naquele Parlamento
a discussões que só visto
por buracos no orçamento

Os buracos são diferentes
conforme a cavalgadura
e a corja de incompetentes
que tem o poder na altura

Como tal pensei: Jardim
afinal não custa nada
então se isso é assim
vá de imitar a cambada

Mãos à obra amigo Paco
nem é preciso modelo
calculamos o buraco
p’lo calibre do camelo!


Bate o Pau e Sobe o Pano (3)

Novembro 23, 2005

novembro 23, 2005

“Penhoras do Inferno”

A acção passa-se no Inferno, mais propriamente no local onde estão situados os escritórios de Lúcifer e dos seus acessores, Beleal, Asmodeu e Belzebú.
Temos uma sala de espera completamente nua, ou seja, sem qualquer peça de mobiliário. Os “clientes” esperam de pé. As paredes estão pintadas de preto e o tecto de vermelho vivo. Na parede de cada uma destas salas está uma tabuleta que diz: «PENHORES SOB FAVORES».
No gabinete de Lúcifer trava-se o seguinte diálogo:

Lúcifer: Pois muito bem pessoal, quem temos nós afinal hoje aqui na nossa loja?
Belzebú: A raça que mais me enoja, para ser franco e leal!
Beleal: Abre-te com Beleal…
Belzebú: Políticos, que rica corja!
Asmodeu: Vou já acender a forja porque há chicha p’ra queimar! Não está mal p’ra começar, ah! hoje o dia promete!
Lúcifer: Bem…sendo assim vou à retrete porque a coisa vai durar!
Beleal: Portanto há que despejar? Eh,eh,eh! chamo a isso prevenção!
Belzebú: Ora sendo assim então…
Asmodeu: Quatro na mão a mijar!
Todos os quatro: Ah,ah,ah,ah,ah!

Vão direitos à retrete infernal. Bexigas aliviadas e voltam ao escritório de Lúcifer.

Lúcifer: Meus irmãos infernais, devido ao que está lá fora, a estratégia nesta hora vai ser diferente das mais!
Beleal: O que é que planeais?
Lúcifer: Que os quatro junto fiquemos e com atenção escutemos este duo de pardais!

Sentam-se os quatro e chamam o Diabrete magarefe.

Lúcifer:(para o Diabrete) Ora manda lá entrar um a um os passarões!
Diabrete: P’lo número dos talões ou por ordem alfabética?
Lúcifer: Para acertar rima e métrica, qualquer um dos dois coirões!
Diabrete: Muito bem queridos patrões, vamos lá dar-lhes avio!

(abre a porta e anuncia)

Diabrete:: O primeiro é o algarvio que se diz barra em cifrões!
Lúcifer: Entra lá gasolineiro, diz o que tens a propor!
Algarvio: Eu vos saúdo senhor, igualmente a vós senhores. Ó digníssimo gestor desta casa de penhores, da qual preciso favores, dizei qual o vosso preço. Ficai certos que o mereço pois sou homem de valores!
Lúcifer: E trazes a ladaínha bué de bem ensaiada!
Algarvio: Qual ladaínha?! Que nada! Foi espontânea a confissão!
Beleal (em surdina para Asmodeu): Canta bem este cabrão!
Asmodeu(em surdina para Beleal): Que cantilena melada!
Lúcifer: Isso não releva nada, vamos embora ao que interessa!
Belzebú: Essa é que é essa!
Lúcifer: Diz lá tu pantomineiro, que pretendes de verdade?
Algarvio: A vossa boa vontade…Eu quero ser Presidente!
Beleal: E como pagas à gente, saciada essa vontade?
Algarvio: Digo-vos sinceramente: Darvos-ei tudo o que tenho, até mesmo o meu casaco!
Belzebú (em surdina para Asmodeu): Este Algarvio é macaco!
Asmodeu (em surdina para Belzebú): Comparado com a gente, decerto é mais velhaco!
Lúcifer: Pois bem, não cobro pataco a essa tua pretensão!
Algarvio: Como?!…Mas como não?!… não entendo o teu dizer!
Lúcifer: Ai não estás a entender?
Algarvio: Não senhor, posso jurar!
Lúcifer: Então passo a explicar, mas peço que tenhas calma!… Muito bem, quero tu alma, estarás disposto a pagar?
Algarvio: A alma?!…Estás a brincar?!
Lúcifer: Nunca falei tão a sério!
Algarvio: Mas que raio de critério…
Lúcifer: Por aí não quero entrar!… Então?
Algarvio: Esperai!…Deixai-me pensar!
Lúcifer: Tens todo o tempo do mundo, podes pensar bem a fundo, avisa quando acabares!

(O Algarvio pensa um bocado)

Algarvio: Muito bem, eu estou disposto, mas a dar-te só metade!
Lúcifer: Por esse preço beldade…
Algarvio: Não é um preço a teu gosto?
Lúcifer: Digamos que não desgosto, quiçá cheguemos a acordo, depois de atender o gordo que está no salão oposto!
Algarvio: O gordo?!… Será Dom Mário?…
Lúcifer: Que não será tão otário como estás a ser, aposto!
Algarvio: Já partes do presuposto que ele a vende por inteiro…
Algarvio: Mais certo que o cozinheiro trazer favas e entrcosto!

(entra o cozinheiro infernal com uma travessa de comida fumegante)

Cozinheiro Infernal: Ora aqui está o almoço: Favinhas com entrecosto!
Os quatro diabos: Bem na hora a nosso gosto! Eh,eh,eh,eh,eh! És servido ó mal-disposto?
Algarvio: Olhai senhores p’ró meu rosto!… Confesso que estou espantado! Já decidi, está pensado!…
Lúcifer: E?…
Algarvio: Vendo a alma de bom gosto!
Beleal: Ora bem! Agora esperas na saleta aí ao lado!…
Belzebú: Já te faremos a folha em papel negro timbrado!
Asmodeu: E com teu sangue assinado!

(O magarefe infernal leva o Algarvio para o gabinete contíguo)

Lúcifer:Ah,ah,ah!… Este já está, gostaram do estratagema?
Beleal: Foi melhor que ir ao cinema, o pobre ficou borrado!
Belzebú: És mesmo muito malvado, bem esgalhada a artimanha!
Asmodeu: Disse a garça p’ra piranha: Mexe-te e estás papada!
Lúcifer: O Algarvio é um tolo, é burro e de que maneira, certo é que se abre a boca, entra mosca ou sai asneira!
Todos: Ah,ah,ah,ah,ah!
Lúcifer: Sendo que este já cá canta, mandai lá entrar o gordo!
Beleal: Pelo que vi não me espanta que venha aí novo acordo!
Asmodeu: Concordo!
Belzebú: Concordo!
Lúcifer: Discordo!…Este é mui mais refinado, mais difícil de parar!…É uma rês bem mais dura!…
Beleal: Mas aposto a cornadura em como o vais baralhar!
Lúcifer: (Para o magarefe) Manda-o entrar!
Diabrete: Anda lá gordo de um raio!
Dom Mário: Sê educado ó catraio, respeito pela velhice!
Asmodeu: Que foi que o balofo disse?
Beleal: Mandou calar o chavalo!
Belzebú: Sacrista, vou dar-lhe um estalo!
Lúcifer: Calminha aí, baixa a mão, companheiro Belzebú!
Belzebú: E um pontapé no cú?
Lúcifer: Ainda menos, també não! Vamos embora a’tinar!
Dom Mário: Vinha cá negociar!…
Lúcifer: Já sabemos rezingão; Que mais poderia ser? Sendo assim vamos saber: Que propões velho leão?
Dom Mário: Verdade que o que me trouxe, aqui por estas paragens, é que a merda das sondagens me deixam preocupado!…
Lúcifer: Quer dizer… estás entalado!
Beleal: Direi mais… desesperado!
Asmodeu: Estás à rasca é bom de ver!
Belzebú: E crês que te vamos valer?
Dom Mário: Assim espero meus senhores, preciso os vossos favores…
Lúcifer: P’ra poderes ser Presidente?
Dom Mário: É isso efectivamente!…Mas como é que adivinhaste?!
Lúcifer: Já cá este um outro traste pedir o mesmo à gente!
Dom Mário: Um Algarvio repelente que semeia gafanhotos?
Lúcifer: Outros chamam perdigotos, mas é esse realmente!
Dom Mário: Ai o maldito demente!… E que acordo fez contigo?
Lúcifer: Isso é que eu não te digo, não sou um chibo indecente!
Dom Mário: Mas diz-me concretamente: Só me resta desistir?
Lúcifer: Eu não te quero mentir… tens poucas possibilidades!
Dom Mário: Tenho muitas amizades, gente mui bem colocada…
Lúcifer: Mas não te serve de nada…
Dom Mário: Pois é!… isso é verdade… e se tu já garantiste a vitória ao Algarvio…já perdi o desafio…
Lúcifer: Nunca se sabe, amizade!
Dom Mário: Nunca se sabe?!… Mas então…
Lúcifer: Eu não disse sim nem não, há uma possibilidade!
Dom Mário: Jura que falas verdade!
Lúcifer:Juro verdade, verdadinha!
Dom Mário: E essa possibilidade, pode saber-se qual é?
Lúcifer: Ai pode pode, Olaré!… Diz-me lá velho xéxé, que podes tu oferecer?
Belzebú:(em surdina) Ardiloso Lúcifer!
Beleal: (em surdina) Jogando ao gato e ao rato!
Asmodeu: (em surdina) Tá no papo! Tá no papo!
Dom Mário: Tudo aquilo que quiseres!
Lúcifer: Até mesmo a tua alma?
Dom Mário: Até mesmo a minha alma, quero tramar o Algarvio!
Asmodeu:(em surdina)Obsessivo e doentio!
Belzebú:(em surdina)Quer mesmo levar a palma!
Lúcifer: Muito bem, posso pedir a pena, o sangue e o contrato?
Dom Mário: Se o entenderes de facto, pode vir o material!

(Dom Mário assina a venda da alma ao Diabo. Depois de assinado, Lúcifer manda-o sair. Ficam os quatro seres do Inferno em cena.)

Asmodeu: Mas…mestre, compras-te a alma…
Lúcifer: Calma!…eh,eh,eh! aos dois? Claro que sim!
Beleal: Mas…
Lúcifer: Como assim?
Belzebú: Só um poderá vencer…mesmo correndo à batota, confesso não estar a ver, como descalças a bota!
Lúcifer: Não sabeis?…Pois tomai nota que rápido entendereis!

(Vira-se para o Diabrete magarefe)

Lúcifer: Manda entrar esses pasteis!

(Entram Dom Mário e o Algarvio)

Lúcifer: Como eu sou um bonzão que não diz não a ninguém, já repararam e bem que arranjei confusão. Aceitei comprar a alma a ambos os contendores…
Algarvio: Belo serviço, sim senhores!…
Dom Mário: E agora, e agora?
Lúcifer: Deitamos os contratos fora!
Algarvio: Como assim?!
Lúcifer: E só compro a alma a um, que será o vencedor!
Dom Mário: E quem é que escolheis, senhor?
Algarvio: A mim que cheguei primeiro!
Dom Mário: Olha este batoteiro!…
Lúcifer: Calminha aí por favor!
O que eu quero dizer é isto: Vamos fazer um sorteio, que ninguém tenha receio, porque não farei batota. Quem ganhar faz o contrato, vai ganhar a presidência, e aquele que perder…paciência, mete a viola no saco!
Dom Mário: Não sei, não sei!…
Algarvio: Eu também não!…
Lúcifer: Ou recorremos então a uma terceira via!
Dom Mário: Mas existe?! Quem diria!
Algarvio: E de que consta essa via?
Lúcifer: Que um e outro contrato sejam válidos de facto, sendo que garantirei…
Dom Mário e o Algarvio: Que?…
Lúcifer: Que com mais ninguém negociarei e que um de vós vai ganhar!
Dom Mário e o Algarvio: Está bem, vamos aceitar!
Lúcifer: Então fica combinado, que agora daqui para a frente, no que toca ao Presidente, não me meto nesse fado. Sendo assim fica acordado, vou guardar os documentos, que não há mais argumentos e está o caso encerrado!

(Saem Dom Mário e o Algarvio, muito pensativos,. Após a saída destes… )

Asmodeu-Beleal-Belzebú: Ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah! Nunca na vida topamos golpada tão genial!
Lúcifer: Que esperavam afinal? Que desse algo aos dois tótós?
Beleal:Mas confesso aqui para nós, eu vi a coisa tremida!
Asmodeu: Também vi a nossa vida que parecia andar para trás!
Belzebú: Mas patrão, tu és um ás!… P’r’alguma coisa és o chefe!
Lúcifer: Chama lá o magarefe! Que guarde bem os contratos!
Diabrete: Chamou senhor meu patrão?
Lúcifer: Toma lá isto na mão e guarda tudo no cofre, e muito bem guardadinho!
Diabrete: Descanse meu patrãozinho, que lá nem entra o Diabo!
Todos: Este chavalo é danado, eh,eh,eh,eh!
Lúcifer: Bem… vamos lá a atacar as favas com entrecosto, um almoço que é um gosto, só é pena já estar frio!
Lúcifer: Chamemos lá o vadio do magarefe outra vez!
Diabrete: Que ordenais vós agora?
Lúcifer: Que mandais sem mais demora avivar lume à fornalha, e trazei uma toalha, copos, pão e os talheres, despachai-vos se puderes, sê velôz e dá ao rabo, temos fome de diabo pois passa bué da hora!


Bate o Pau e Sobe o Pano (2)

Novembro 1, 2005

novembro 01, 2005

É o Armagedão, compadre!

Zé Quinteiro: Pois sabei compadre Zé, estou muito preocupado!

Zé Hortelão: Estais bué mal encarado, podeis dizer a razão?

Zé Quinteiro: Já chegou o Armagedão, castigo da humanidade…

Zé Hortelão: Para falar a verdade, não entendo o que dizeis!

Zé Quinteiro: Como não entendeis? Já se ouvem as trombetas! Já escutamos o seu som!

Zé Hortelão: (O compadre não está bom!)De que falais afinal?

Zé Quinteiro: Falo do Juízo Final, pois que sou homem de fé!

Zé Hortelão: Confesso compadre Zé, não entendo patavina!

Zé Quinteiro: Vai cumprir-se a nossa sina, tal e qual a professia!

Zé Hortelão: Não tarda nada é meio-dia e ainda nada entendi!

Zé Quinteiro: Vou explicar-lhe o que ouvi
ao prior da freguesia:
Disse ele alto e bom som
que esse tal Armagedon
ou também Armagedão
na terra se cumpriria
quando se instalasse o dia
da plena confusão!

Zé Hortelão: Ora entendi, e então?!…
o bom compadre acredita…
(já se passou da marmita)
que chegou o Armagedão?

Zé Quinteiro:Então não?!…
só pode mesmo compadre
perante o que estou a ver
ou estou a ensandecer
ou tinha razão o padre!

Zé Hortelão: ( Está doidinho de verdade
passou-se mesmo, é real)
Mas o que o leva afinal
a ter assim a certeza?

Zé Quinteiro: Atentai na subtileza da Divina professia:
as galinhas engripadas
os porcos com triquinose
os coelhos com a matose
e as vacas amalucadas!…

Zé Hortelão: (Talvez sejam infundadas as dúvidas da sanidade…)
Para vos falar verdade
também tenho mal na porta
pois já produzo na horta
mais veneno que hortaliça

Zé Quinteiro: Você também?!… Chiça!!! Isso não é brincadeira?

Zé Hortelão: Pois sabei que na minha leira já nada cresce sem químico…

Zé Quinteiro: E o vosso poder anímico…

Zé Hortelão: Vai-se pela ribanceira!…

Zé Quinteiro: Por isso meteis sulfato…

Zé Hortelão: …É um facto, é um facto…
Dos grelos aos agriões
dos tomates às nabiças
couves, batatas, feijões
todo o tipo de hortaliças!

Zé Quinteiro: Aposto as minhas suíças…
Só pode ser, Hortelão
penso que o tempo é chegado
o tal tempo anunciado
de seu nome Armagedão!

Zé Hortelão: Sim, talvez tenha razão
Zé Quinteiro, meu compadre
e pelo sim pelo não
vamos lá falar com o padre

( Enquanto os compadres se dirigem ao encontro do prior, dois inimigos figadais de antanho que haviam escutado tudo, retrucavam:)

Diabito Maldito::
Estás a topar velho alado
no que as vossas tretas dão?
ai tu e o teu patrão
mas que duo mais chalado!

Anjo Marmanjo: :
Vê lá se ficas calado
ó da cornadura esbelta… (ih,ih,ih!)

Diabito Maldito::
Olhem-me este asa delta
castigador do pagode!…

Anjo Marmanjo: :
Fecha a boca pés de bode
caixa córnea da desgraça!…(ih,ih,ih!)

Diabito Maldito::
E as tuas asas sem graça?
-tomaram ser meus chifrões-
mais feiosas que as da taça
da liga dos campeões!…(eh,eh,eh)

( Os compadres acabam de ser recebidos pelo padre )

Padre: Ora vivam meus irmãos, a que devo este prazer?

Zé Quinteiro:Padre, está a acontecer o tal de Armagedão!…

Zé Hortelão:E a sua opinião nós queríamos escutar.

Padre: Comecem lá a falar!… (estes estão doidos varridos)

(contam ao padre as suas razões)

Zé Quinteiro:… Estamos assim convencidos e em sintonia total…

Zé Hortelão:… De que o Juízo Final já começou a ocorrer!

Padre: (sorrindo) ( na verdade, é bom de ver, perderam mesmo o juízo)
Meus irmãos vou ser conciso
e explicar direitinho
muito bem explicadinho
o que será o Juízo

Vacas loucas sempre houve
e galinhas engripadas
e há muito comemos couve
e batatas sulfatadas

Podem vocês sossegar
podeis ir em paz embora
quanto o tal dia chegar
eu mando avisar na hora

Para já comam galinhas
coelho, vaca, leitão
batatas e umas couvinhas
que vem longe o Armagedão

Ele só virá no dia
que suceder fatalmente
estar a panela vazia
e a malta não dar ao dente!


Bate o Pau e Sobe o Pano (1)

Julho 25, 2005

julho 25, 2005
*Na barca com mestre Gil

* Na Barca do Inferno de Mestre Gil
Auto de moralidade composto por Zecatelhado por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Dª Maria Rita, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei D. Cenourinha, primeiro de Portugal deste nome. Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos subitamente a um rio, o qual per força havemos de passar pera o inferno: o batél tem um seu arrais na proa: o Berzebú infernal e um companheiro.

DIABO
À barca, à barca, houlá! que temos gentil maré! – Ora venha o carro a ré!

COMPANHEIRO
Feito, feito! Bem está! Vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco, pera a gente que virá.
À barca, à barca, hu-u! Asinha, que se quer ir! Oh, que tempo de partir, louvores a Berzebu! –

DIABO
Ora, sus! que fazes tu? Despeja todo esse leito!

COMPANHEIRO
Em boa hora! Feito, feito!

DIABO
Abaixa aramá esse cu!
Faze aquela poja lesta e alija aquela driça.

COMPANHEIRO
Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!

DIABO
Quem és tu?

FIDALGO
Sou da ilha, mê senhor!…

DIABO
De que ilha meu estupôr?

FIDALGO
Da Madeira, pois então?

DIABO
Eis que aqui tenho um cabrão!…

FIDALGO
Um quê, barqueiro maldito?

DIABO
Um cabrão! Ouvisto o dito…

FIDALGO
Espera aí que vais levar!…

DIABO
Acaso estás a brincar?

FIDALGO
Isso é o que digo eu!

DIABO
Olha este endoideceu!

FIDALGO
Sabei vós que sou um Rei!

DIABO
Eh,eh,eh,! Já me mijei!…

FIDALGO
E a seguir vais-te cagar!

DIABO
Põe-te lá no teu lugar, não sabes que estás morto?

FIDALGO
Olha lá, o méu aborto!…

DIABO
Cala-te já e embarca!

FIDALGO
Mas p’ra onde vai a barca?

DIABO
Pró Inferno, meu banana!

FIDALGO
Pró inferno, meu sacana?

DIABO
Direitinha sem desvios!

FIDALGO
Mas eu fui um homem santo!…

DIABO
Ao pé de ti sou um anjo!…

FIDALGO
Olha p’ra este marmanjo!…

DIABO
Coze a boca a esse pulha!

COMPANHEIRO
Não sei onde puz a agulha…

DIABO
Mija na agulha e caga na linha!

COMPANHEIRO
É p’ra já bem depressinha!

DIABO
Vamo-nos pôr a caminho
Calou-se a boca do chibo
ao Inferno já arribo
que se faz tarde na hora
levar mais alguém agora
com este monte de merda
só se fosse um tal Lacerda
p’ra lhe estalar o focinho