História da Canção de Resistência (9)

Dezembro 27, 2005

-P.R.E.C. ( Isso mesmo: Processo Revolucionário em curso )

Ó “Cotas” desta comunidade: QUEM É QUE SE LEMBRA?

A cantiga é uma arma
eu não sabia
tudo depende da bala
e da pontaria
Tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
e eu não sabia

Há quem cante por interesse
há quem cante por cantar
e há quem faça profissão
de combater a cantar
e há quem cante de pantufas
p’ra não perder o lugar
a cantiga só é arma
quando a luta acompanhar

O faduncho choradinho
de tavernas e salões
semeia só desalento
misticismo e ilusões
canto mole em letra dura
nunca fez revoluções


História da Canção de Resistência (8)

Dezembro 27, 2005

História da Canção de Resistência

…Surge então um jovem que com apenas 17 anos de idade ingressa na Universidade de Direito ( Curso que nunca chegou a concluir ). Era ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

Tornou-se membro do Orfeão Académico e colaborou em múltiplas demonstrações culturais e, activamente, nos movimentos estudantis dos anos sessenta.
Colaborou em inúmeras serenatas, em manifestações musicais e cultivou,
por gosto e com muita qualidade, a balada (um género de música que José Afonso traz para o campo artístico, de que é, porventura, o melhor intérprete). Ao mesmo tempo, embrenha-se na recolha, na selecção e gravação de canções populares,
desde as ilhas a todos os cantos do continente, onde sobressaem trechos do riquíssimo folclore minhoto, beirão e açoreano.
Gravou variadíssimos álbuns, cantando poemas dos mais variados autores portugueses e melodias que encantaram e prevaleceram como baluartes da canção de intervenção.
No seu repertório aparecem diversas trovas, (esse tipo de música que
na Idade Média os aventureiros da cultura, percorrendo a Europa levavam, de terra em terra, as melodias de origem, vindas, muitas vezes, não se sabia de
onde, mas que era uma forma de dar a outras pessoas as tradições, a cultura,
as lendas, os costumes, os romances, o estilo de vida, que, desta forma, eram apresentados nas localidades a que chegavam e, posteriormente, também daqui transportados para outras terras).
Gravações feitas no antigo regime são um testemunho do seu profundo
amor à causa da Liberdade, para a qual sempre deu o seu melhor, no sentido de levar mensagens e um pouco de conforto aos companheiros exilados, presos ou que tinham de sufocar as ideias democráticas. Ao lado de José Afonso, Manuel Freire, Luísa Bastos, José Jorge Letria, padre Fanhais, José Mário Branco – e outros tan-
tos -, foi, repito, um baluarte na defesa da Liberdade e na implementação da chamada “canção de intervenção, com a tal finalidade de reconfortar e animar os companheiros da vanguarda e da retaguarda e manter bem viva a chama da Esperança e da tão ambicionada Liberdade.
Muito cedo nos deixou, quando estava no auge da sua carreira. Viveu
um pouco da música e do seu posto de trabalho na Embaixada de Angola no Porto. Estava ainda a terminar o curso de Direito. A morte, porém, a 16 de Maio de 1982, com apenas 40 anos, devido a uma doença súbita.
De Adriano-Biografia
Por Mário Correia

Um sério problema escolher uma canção deste companheiro.
A “Trova do Vento Que Passa” é o seu “ex-libris” e por demais conhecida de toda a gente, por isso quase a escolhi automáticamente, no entanto… pensando melhor, decidi escolher uma outra, se calhar não tão conhecida de todos, que dará à gente mais jovem uma melhor ideia do homem/cantor/.

MARGEM SUL ( Canção Patuleia )

Letra: Urbano Tavares Rodrigues
Música: Adriano Correia de Oliveira

Ó Alentejo dos pobres
Reino da desolação
Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão

Ó margem esquerda de verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Tanto de fome e de sal

A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada


História da Canção de Resistência (7)

Dezembro 27, 2005

História da Canção de Resistência

É o símbolo mais vivo da canção contestatária, O ZECA, ou ainda JOSÉ AFONSO.
Eis o retrato de um dos maiores ( senão o maior ) humanista português do século XX.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de Agosto de 1929, em Aveiro, “na parte da cidade voltada para o realismo e para o mar”.
Quando o pai, José Nepomuceno Afonso, foi colocado em Angola, em 1930, como delegado do Procurador da República, Zeca Afonso permaneceu em Aveiro por razões de saúde, confiado aos cuidados da tia Gigé e do tio Xico, um “republicano anticlerigal, anti-sidonista. Um homem impoluto”. Tinha então um ano e meio e cresceu numa casa situada na Fonte das sete Bicas, rodeado da ternura fraterna das primas e dos tios.
De 1932 a 1937 José Afonso viveu com os pais e irmãos em Angola, deslumbrando-se com a imensidão africana. A relação física com a natureza causou-lhe uma profunda ligação ao continente africano que se refletirá pela sua vida fora. As trovoadas, os grandes rios atravessados em jangadas, a floresta esconderam-lhe a realidade colonial. Só anos mais tarde, ao exercer a docência em Moçambique, conhecerá a fotografia amarga da sociedade colonial moldada ao estilo do “apartheid” de Pretória.
Em 1937 volta para Aveiro, onde é recebido por tias do lado materno, e no mesmo ano parte para Moçambique. Em Lourenço Marques reencontra-se com os pais e irmãos, com quem viverá pela última vez em conjunto até 1938.
Quando voltou para o continente, em 1938, José Afonso foi para casa do tio Filomeno, então presidente da Câmara, em Belmonte. No ano seguinte os pais já estavam em Timor, onde seriam cativos dos ocupantes japoneses durante três anos, até 1945. Foram três anos sem notícias dos pais.
Em Belmonte, Zeca Afonso completou a instrução primária e viveu o ambiente mais profundo do salazarismo, de que seu tio era fervoroso admirador. “Foi o ano mais desgraçdo da minha vida”, confidenciou. Pró-franquista e pró-hitleriano, o tio de José Afonso levou-o a envergar a farda da Mocidade Portuguesa. Mas com a chegada a Coimbra em 1940, instalado em casa de uma tia devota, as suas pulsões mais íntimas sobrepuseram-se às influências familiares.
José Afonso começa a cantar por volta do quinto ano do Liceu D. João III e a sua voz ecoa pela cidade velha. Os tradicionalistas reconheciam-no como um bicho que canta bem.
Em Coimbra passa pelas Repúblicas, onde conheceu a amizade e a farra académica. Seduzido pela cidade, tem os primeiros cantactos com clubes recreativos, joga futebol na Académica (“Entreguei-me completamente à mística da chamada Briosa”) e acompanha a equipa um pouco por toda a parte.
Nas colectividades conhece “gajos populares”, entre os quais Flávio Rodrigues, que admira como exímio tocador de guitarra, para si superior a Artur Paredes. Inicia-se em serenatas e canta em “festarolas de aldeia. Um sujeito qualquer queria convidar uns tantos estudantes de Coimbra, enchia-lhes a barriga e a malta cantava…”.
Como estudante integrou várias comitivas do Orfeão Académico de Coimbra e da Tuna Académica da Universidade de Coimbra, nomeadamente em digressões pelo Continente e por Angola e Moçambique. O fado de Coimbra lírico e tradicional era superiormente interpretado por si. A praxe académica e a boémia encheu-lhe tardes e noites gloriosamente Coimbrãs.
É o tempo das boleias e da capa e batina (“Porque um tipo de capa e batina é rei das estradas”), que lhe permite os primeiros contactos com os meios sociais miseráveis do Porto, no Bairro do Barredo, fonte de inspiração para a sua balada “Menino do Bairro Negro”.
José Afonso foi envolvido pela lenda coimbrã, com o encantamento das suas tradições, que simultaneamente o atraiam e causam repulsa.
Em 1958 José Afonso grava o seu primeiro disco “Baladas de Coimbra” enquanto acompanha o movimento em torno da candidatura presidencial de Humberto Delgado. Mais tarde grava “Os Vampiros” que, juntamente com “Trova do Vento que Passa”, escrita por Manuel Alegre e cantada por Adriano Correia de Oliveira, constituem um marco fundamental da canção de intervenção e de resistência antifascista.
Em 1964 parte para Moçambique. Professor de liceu, desenvolve uma intensa actividade política contra o colonialismo, o que lhe traz problemas com a PIDE e com a administração colonial. Mais tarde regressa a Portugal onde é colocado como professor em Setúbal, mas posteriormente é expulso do ensino. Para sobreviver dá explicações e grava o seu primeiro LP, “Baladas e Canções”.
Em 1967-70, Zeca protagoniza uma intervenção política e musical ímpar, convertendo-se num símbolo da resistência. Várias vezes detido pla PIDE, mantém contactos com a Luar, PCP e esquerda radical. Em 69 participa no 1o Encontro da “Chanson Portugaise de Combat” em Paris e empenha-se fortemente na eleição de deputados à Assembleia Nacional da CDE de Setúbal, gravando tambem o LP “Cantares do Andarilho”, recebendo o prémio da Casa da Imprensa pelo melhor disco do ano, e o prémio da melhor interpretação. Alvo de sensura José Afonso passa a ser tratado nos jornais por Esoj Osnofa!
Com os arranjos de José Mário Branco, em 1971, edita “Cantigas do Maio”, Neste álbum surge “Grândola Vila Morena” que se tornará um símbolo da revolução de Abril. Desde então Zeca participa em vários festivais. É publicado o livro “José Afonso”, coordenado por Viale Moutinho. É lançado o LP “Eu vou ser como a toupeira”. Em 1973 canta no III Congresso da Oposição Democrática e grava “Venham mais cinco”.
Após a Revolução de Abril, participa em numerosos “cantos livres” e grava o LP “Coro dos Tribunais”, onde conta com a colaboração de Fausto, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino e José Niza, entre outros. Em 1975 canta em inúmeros espectáculos de dança e lança “Com as minhas tamanquinhas”.
Em 1976 apoia Otelo Saraiva de Carvalho na candidatura à presidência da república. Em 1981 Actua no Theatre De La Ville de Paris, compõe a música de “Fernão Mendes” para a “Barraca”( Peça a qual tive um prazer imenso de fazer ) e grava “Enquanto há força” e “Fura fura”.
Em 1985 José Afonso já se encontra doente. O Coliseu de Lisboa é o palco do seu último espectáculo. As homenagens multiplicam-se e é condecorado com a Ordem da Liberdade. Já muito enfermo, em 1985, apoia a candidaduta de Lourdes Pintassilgo à presidência da república. É editado o seu último disco, Galinhas do Mato.
A 23 de Fevereiro de 1987 morre no Hospital de Setúbal

in- José Afonso 8 Biografia do Humanista, Poeta e Cantor )

Que felicidade a minha quando tive a honra de cantar em palco temas feitos por ele prepositadamente para a peça ” Fernão, Mentes?”!
Que tristeza profunda aquando do seu desaparecimento.
Fica para sempre a memória do grande companheiro que foi o Zeca. A exemplo do Adriano, escolhi uma composição das menos divulgadas da obra antológica do amigo; Quem conhece recorda, quem não conhece… fica a conhecer.

“TERESA TORGA”

No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua

A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela

Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala

Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que a diga António Capela

Teresa Torga Teresa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha


História da Canção de Resistência (6)

Dezembro 27, 2005

História da Canção de Resistência

É outra das figuras de proa da música da Resistência;

JOSÉ MÁRIO BRANCO

Músico, compositor e cantor, nasceu no Porto em 1942. Estudou História na Faculdade de Letras de Coimbra, e aos 21 anos vai para o exílio em França, onde permanecerá até ao 25 de Abril de 1974.
Em Paris, desenvolve intensa actividade em grupos culturais, participando em vários espectáculos para emigrantes portugueses. Em 1967, lança o seu primeiro com um E.P. intitulado ” Seis Cantigas de Amigo “.
É também em Paris que o cantor trabalha com José Afonso, fazendo os arranjos e a direcção musical do disco ” Cantigas do Maio “, em 1971. ” Foi a experiência mais conseguida que tive com o Zeca. Tenho uma grande admiração pelo seu génio e foi com ele que realmente formei o melhor de mim como arranjador e director musical “.
O ano de 1971 seria decisivo para a carreira do próprio José Mário Branco, pois é o ano de ” Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades “, o disco com que se tornou conhecido e que representa uma viragem no panorama da música portuguesa.
José Mário Branco viria a trabalhar mais vezes com José Afonso, nomeadamente em ” Venham mais cinco ” ( 1973 ).
Depois da revolução, o cantor volta a Portugal. É fundador dos GAC ( Grupo de Acção Cultural ) e percorre o país fazendo espectáculos e participando em dinamizações culturais. Faz música para teatro e para cinema e colabora em diversas iniciativas.
Os anos 80 são os da catarse, a descida aos infernos da desilusão, o ajuste de contas com uma geração e os seus fantasmas. ” Ser Solidário ” e “F.M.I.” são os testemunhos gravados disso mesmo.
É difícil também com o Zé, escolher uma letra que possa pôr em destaque. Mais uma vez escolhi uma das menos trauteadas mas muito, muito bela; Chama-se Fado da Tristeza, com letra e música da sua autoria, que podem apreciar no Álbum ” Ser Solidário “. Porque a escolhi? Vocês compreenderão.

FADO DA TRISTEZA

Letra e Música de José Mário Branco
In: ” Ser Solidário ” 1982

Não cantes alegrias a fingir
se alguma dor existir
a roer dentro da toca
deixa a tristeza sair
pois só se aprende a sorrir
com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem
não conta nada a ninguém
fala verdade a mentir
cada alegria que inventas
mata a verdade que tentas
pois é tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda
que a vida não se remenda
com morte que não morreu
canta da cabeça aos pés
canta com aquilo que és
só podes dar o que é teu


História da Canção de Resistência (5)

Dezembro 13, 2005

dezembro 13, 2005
História da Canção de Resistência

Hoje venho aqui falar de uma figura “de peso” na Canção Livre; Hoje vou falar de LUÍS CÍLIA

Luis Cília nasceu no Huambo ( Angola ), em 1943.
Veio para Portugal em 1959,para prosseguir os seus estudos.
Em 1962 conheceu o poeta Daniel Filipe que o incentivou a musicar poesia. Datam desse ano as suas primeiras experiências nesse campo ( “Meu país”, ” O menino negro não entrou na roda” ,etc.),mais tarde incluidos no seu primeiro
disco,gravado em França, para a editora Chant du Monde. Em abril de 1964 partiu para Paris,onde viveu até 1974.
Em França estudou guitarra clássica com António Membrado e composição com
Michel Puig.
Entre 1964 e 1974 realizou recitais em quase todos os países da Europa.
Depois do seu regresso a Portugal continuou a gravar discos, como compositor e intérprete e a realizar recitais.Como intérprete, gravou dezoito discos, alguns dos quais dedicados a poetas ,tais como, Eugénio de Andrade (“O peso da sombra”) Jorge de Sena (“Sinais de Sena”), ou David Mourão Ferreira (“Penumbra”).
Nos últimos anos tem-se dedicado apenas à composição, nomeadamente para Teatro, Bailado e Cinema.
Cronologicamente ….
1943
Luís Fernando Castelo Branco Cília, nasce em Huambo, Angola. Vive parte da sua vida de estudante em colégios internos, por ser filho de pais separados.
Trava conhecimento no internato com o poeta Daniel Filipe que lhe mostra discos de Leo Ferré e George Brassens o que o leva a inflectir de tipo de opção musical. Participa nas lutas académicas de Coimbra, ou como ele refere com modéstia “era mais um que estava na cantina… sem que tivesse participação de realce”, mas o que é certo é que foi nesta data aberto o seu processo na PIDE.
Frequenta económicas mas sem ligar muito às aulas. Integra as equipas de futebol e de basquetebol. Decide abandonar o país. Sai de Portugal no ano seguinte, acompanhado por um militar desertor e a esposa deste a “bordo” de um Fiat 500.
Vai para Paris onde chega a 1 de Abril. Aí trava conhecimento de imediato com políticos, poetas e músicos, com realce para a cantora Collete Magny a qual o irá apresentar à editora do seu primeiro disco: a “Chant du Monde”. Grava o LP “Portugal-Angola: Chants de Lutte.”
Neste mesmo ano conhece Adriano Correia de Oliveira e Manuel Alegre (quando este vai para Paris).
As suas primeiras músicas são feitas com total desconhecimento da obra de José Afonso ou de Adriano. Trabalha na União dos Estudantes Franceses, “(…) era o tipo que tirava lá cópias (…)”.
Trava conhecimento com grandes expoentes da música francesa como George Brassens, o qual é o seu “padrinho” quando se inscreve na Sociedade dos Autores, em França. Posteriormente conhece o músico espanhol Paço Ibañez, de quem se tornou muito amigo e companheiro nos espectáculos profissionais e nos de pura militância, para sindicatos, associações e partidos. Edita o EP “Portugal Resiste” e faz a música do filme “O Salto”.
Vai a Cuba. Actua no festival ( tocando em frente de Fidel Castro). Conhece Carlos Puebla e traz clandestinamente de Cuba as bobines da canção de Carlos Puebla “Hasta Siempre”, as quais possibilitarão a divulgação desta canção na Europa.
Edita a trilogia de discos para editora EMEN, “La poesie portugaise de nos jours e de toujours 1, 2, e 3”.
São discos posteriormente reeditados em CD em 1996, em França.
Participa activamente no Maio de 68, realizando espectáculos de apoio ao lado de Paco Ibañez e de Collete Magny. Durante finais dos anos sessenta e início da década de setenta, realiza espectáculos por toda a Europa: Inglaterra, Itália, Suíça, Espanha, etc. Neste país quase que é “apanhado” pois realizou um espectáculo em Santiago de Compostela e o Cônsul Português solicitou a sua detenção. Paga uma multa e são suspensos os espectáculos seguintes.
Em 1969 é expulso do PCP clandestino em França, pois recebia em casa amigos de outras convicções políticas. O que ele nunca deixará de fazer porque eram seus amigos.
Em 1971 o núcleo do PCP de Paris, verificando o erro cometido, pede-lhe desculpas pelo incidente de dois anos antes.
Em 1972 actua no primeiro comício do PS em França ao lado de José Mário Branco, não sem antes colocar certas condições tendo em conta que era militante de um outro partido.
Em 1973 o “Avante”, canção de Luís Cília, é hino oficial do PCP, em Aveiro.
Em entrevista à rádio Portugal Livre, Luís Cília explica ” … o Avante não começou por ser hino coisa nenhuma” – diz-nos – “foi de resto o Carlos Antunes que me pediu para fazer uma música para passar na rádio. E eu fiz, escrevi essa música, dei a partitura e a letra e nunca mais pensei nisso, não gravei e nem sequer era cantada por mim…”
Actua neste ano no Festival Mundial da Juventude na ex-RDA.
Edita “Contra a Ideia da Violência a Violência da Ideia” em clara homenagem a Amílcar Cabral, então assassinado. Reedita o seu primeiro disco mas agora acompanhado por contrabaixo, com o novo título de ” Meu País”.
No 25 de Abril de 1974 regressa a Portugal, no mesmo avião em que também regressam Álvaro Cunhal e José Mário Branco. Luís Cília ainda irá assegurar por algum tempo compromissos profissionais em França, não se estabelecendo completamente em Portugal.

Luís Cília compôs e cantou belos trexos. Já sabem da minha dificuldade de escolher um entre tantos tão maravilhosos, mas como tenho que escolher um, escolho um que vai pôr alguns de nós a cantar recordando. Este tem letra e música de António Macedo mas o Luís também o cantou e bem:

Erguer a voz e cantar
é força de quem é novo
viver sempre a esperar
fraqueza de quem é povo

Não vás ao sabor do vento
aprende a canção da esperança
vem semear tempestades
se queres colher a bonança

Canta, canta amigo, canta
vem cantar a nossa canção        (Refrão)
tu sozinho não és nada
juntos temos o mundo na mão

Vives em casa de tábuas

à espera de um novo dia

enquanto a terra engole

a tua antiga alegria

O teu corpo é um barco

que não tem leme nem velas

a tua vida é uma casa

sem portas e sem janelas

Canta, canta… ( Refrão)

Já que me chamas amigo
prova-me lá que o és
vem para a ceifa comigo
na terra sujar teus pés

Eu vou contigo para o campo
eu vou colher o teu pão
tu dás-me a força da vida
e eu dou-te a minha canção

(Refrão)


História da Canção de Resistência (3)

Maio 1, 2004

Maio 01, 2004

História da Canção de Resistência

“…Dez álbuns de originais num total de 12 discos publicados em 30 anos são a face palpável da carreira daquele que é hoje, possivelmente, o compositor e intérprete mais carismático da Música Popular Portuguesa.”…

Assim dizia um dia o crítico Viriato Teles sobre o genial músico/poeta/cantor, e que melhor forma de começar a dizer alguma coisa sobre Fausto?

Biografia
Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias, nascido em Novembro de 1948 em pleno Oceano Atlântico, a bordo do navio Pátria que navegava entre Portugal e Angola.
Fausto, por muitos considerado o mais importante compositor vivo da música popular portuguesa, teve um início de carreira recheado de indecisões. Estudante do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU), é em plena vida académica que grava o primeiro 45 rotações, a que se segue o álbum homónimo, Fausto.
O primeiro grupo de que fez parte chamava-se Os Rebeldes e cultivava, naturalmente, a música pop da altura. Em 1968, com 20 anos, fixou-se em Lisboa para iniciar os estudos universitários (é licenciado em Ciências Sócio-Políticas e frequentou um mestrado de Relações Internacionais) e foi no âmbito do movimento associativo que se revelou como cantor, aproximando-se rapidamente do movimento que já integrava então nomes como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Vieira da Silva – juntamente com José Mário Branco ou Luís Cília, que viviam no exílio – e que teve um importante papel político e cultural na resistência aos últimos anos do fascismo e no processo revolucionário iniciado com o 25 de Abril de 1974.

Continue a ler…

Em declarações proferidas à revista Flama em 1970, Fausto hesita ainda na continuidade do trabalho musical: “nunca acreditei muito na minha voz, nem ainda hoje acredito. Já pensei várias vezes na data em que vou largar “isto”. (…) Dizem-me que devo continuar, mas não sei bem se será até no próximo mês de Junho que porei o ponto final. Depois, cantarei apenas para os amigos e para mim próprio”.
A realidade dos factos (e dos anos entretanto passados) encarregou-se de desfazer as dúvidas do então jovem estudante. Eleito presidente da direcção da Associação dos Estudantes do ISCSPU, Fausto viu o seu nome não ser homologado no cargo pelo Ministério da Educação, em consequência de um certo comprometimento político da sua actividade musical. E, como castigo, é chamado a cumprir o serviço militar, embora possuísse todas as condições para ter um adiamento. Em resultado, Fausto recusa-se a comparecer no quartel e é considerado refractário.
Vivendo quase clandestino, Fausto faz grande parte das gravações do seu segundo LP, P’ró Que Der e Vier, em Madrid. Nele, inclui letras de Eugênio de Andrade e Mário Henrique Leiria, num todo de características políticas muito acentuadas.(…)

Para finalizar, lá está o “martírio” de sempre: Que poesia do autor vou escolher?… Elas são todas tão…Mas como tenho que escolher uma… escolho a poesia que deu nome a um dos seus albuns mais conhecidos;

Atrás dos Tempos
(letra e música de Fausto Bordalo Dias)

Eu pego na minha viola
E canto assim
Esta vida
A correr
Eu sei que é pouco e não consola
Nem cozido à portuguesa há sequer
Quem canta sempre se levanta
Calados é que podemos cair
Com o vinho molha-se a garganta
Se a lua nova está para subir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir
Eu sei de histórias verdadeiras
Umas belas
Outras tristes de assombrar
Do marinheiro morto em terra
Em luta por melhor vida no mar
Da velha criada despedida
Que enlouqueceu e se pôs a cantar
E do trapeiro da avenida
Mal dormido se pôs a ouvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir
Sei de vitórias e derrotas
Nesta luta que se há-de vencer
Se quem trabalha não esgosta
No seu salário sempre a descer
Olha a polícia
Olha o talher
Olha o preço da vida a subir
Mas quem mal faz
Por mal espere
Se o tirano fez a festa
P’ra fugir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir
Mas esse tempo que há-de vir
Não se espera como a noite
Espera o dia
Nasce da força que transpira
De braços e pernas em harmonia
Já basta tanta desgraça
Que a gente tem no peito
A cair
Não é do povo
Nem da raça
Mas do modo como vês o porvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir


História da Canção de Resistência (2)

Novembro 11, 2003

Novembro 11, 2003

História da Canção de Resistência

Francisco Fanhais, ou como para muitos ficou conhecido, do PADRE Fanhais.

Francisco Fanhais nasceu na Praia do Ribatejo a 17 de Maio de 1941.
Com dez anos vai para os seminários de Almada e Olivais, onde termina o curso de Teologia.
Em 1964 é ordenado padre e em 1969, como professor de Moral começa a interessar-se sobre a realidade à sua volta. As aulas eram no Barreiro, terra onde ele conhece José Afonso que o incentivará a cantar contra o regime.
Participa no programa de Televisão ” Zip-Zip” e grava o seu primeiro disco intitulado ” Cantilenas”.
Em 1970 grava e edita o seu disco ” Canções da Cidade Nova” , com arranjos de Thilo Krassman. As músicas deste disco são de sua autoria e as letras de consagrados poetas , como Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre e António Aleixo.
” Cantata de Paz” , com letra de Sophia e o famoso refrão ” Vemos, Ouvimos e Lemos, Não Podemos Ignorar”, torna-se um dos hinos de resistência ao regime derrubado em Abril de 74.
Deste disco fazem ainda parte outros temas, tais como ” Quadras do Poeta Aleixo”, “Porque” , ” Canto do Ceifeiro” e ” Canção da Cidade Nova”. Esta última canção ,com poema de Francisco Melro, é inspirada num tema bíblico. A música de Fanhais é uma música simples, mas eficaz , na senda dos “baladeiros”, movimento a que ficaram associados muitos dos cantores que usavam a canção para denunciar as injustiças.
José Afonso escreve uma ” Dedicatória” na contracapa do LP, que reza assim: ” Tu que cantas, Defronte ,De faces atentas, e Seguras, Faz do teu Canto, Uma funda, Nesse lugar, Entre outras mãos mais fortes, E mais duras, Te estenderei , A Minha mão fraterna. Canta Amigo”.
Este disco seria reeditado em CD, no ano de 1998 e o seu título seria alterado para ” Dedicatória” , com o manuscrito da dedicatória de José Afonso a servir de capa.
Em 1971 , Fanhais parte para França , porque estava proibido de cantar, de exercer o sacerdócio e de leccionar nas escolas oficiais. Torna-se militante da LUAR e só regressa a Portugal após o 25 de Abril de 74.
Em 1975 colabora nas campanhas de dinamização cultural do MFA, juntamente com José Afonso e outros cantores e participa na gravação do disco ” República”, gravado ao vivo por José Afonso, na Itália, disco esse que é uma das maiores raridades no panorama discográfico português.
Em 1984 vai viver para Alvito, no Baixo Alentejo e dedica-se ao ensino de Educação Musical em escolas oficiais.
Participa , como convidado, no disco “Ao Vivo no Coliseu” de José Afonso, onde faz coros na bonita canção ” Natal dos Simples”.
Em 1993 regressa ao palco para, conjuntamente com Manuel e Pedro Barroso, apresentar o espectáculo ” Encontro” , efectuados em Portugal e em França.
No dia 10 de Junho de 1995 é agraciado com a Ordem da Liberdade pelo Presidente da República, Mário Soares.
Continua a cantar, sempre que lhe pedem , em escolas e ,sobretudo, em Festas do 25 de Abril ou em homenagens a José Afonso.
Quando lhe perguntam pela vida responde que tem ” dois filhos, dois discos, muitas árvores e muitos amigos”.
Fanhais, tornou-se o expoente máximo dos católicos progressistas, que desde a célebre carta do bispo do Porto a Salazar em 1958, se vinham progressivamente demarcando do regime. Com Francisco Fanhais a postura oposicionista é clara e radical, e os discos Canções da Cidade Nova e Cantilena que grava em 1969 e 1970 são disso prova, representando trabalhos marcantes no movimento dos cantores de intervenção.
Para finalizar, aqui fica uma das cantigas dele, talvez a que “marca” efectivamente o autor.

CANTATA DA PAZ
Letra de Sophia de Mello Breyner Andresen
Música de Francisco Fanhais

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos ( Refrão )
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D’África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado