Lá Vem a Nau Catrineta (67)

Março 22, 2006

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
esta nau, disse o poeta,
Portugal a navegar,
D. Jorge a mandou zarpar
p’ra uma nova demanda
e é D. José quem comanda
a barquinha em alto-mar
da Odisseia sem par
dos loucos navegadores
ouvi agora senhores
uma estória de pasmar

Estava a Nau engalanada
festões, flores e lacinhos
trique-traques e estalinhos
não estava faltando nada
banda e música afinada
copos, pratos e talheres
dos tenentes aos alferes
dos cabos à marujada
dos porões à amurada
o cheiro a festa no ar
puseram uma vaca a’ssar
e dez leitões da bairrada

A nobreza e o clero
vinham prestar mordomia
a D. Cavaco “O Austero”
que ao trono da Nau subia
quanto à ralé, só queria
era farra, vinho e pão
carne de vaca e leitão
coisas que ela não comia
há bué, Virgem Maria!…
já que aquilo que ganhava
mal p’ra pão e água dava
no penar dia-a-dia

D. Jorge, o rei que cessava
ia ser condecorado
acto vulgar e estafado
a que já ninguém ligava
nem tão pouco se importava
sendo coisa tão banal
houvera besta animal
que não fosse agraciado?
por estar tão vulgarizado
até a’nedota correra
que o medalheiro morrera
completamente estafado

Fraco e avesso à glória
deste rei pouco ficou
dos fracos não reza a história
alguém um dia afirmou
se em algo se destacou
foi no caso de Timor
aí sim teve valor
em tudo o resto falhou
Ah! a malta também gostou
da sua face humanista
e das lágrimas que à vista
de toda a gente soltou

Assim, rei morto – rei posto
e aí vem D. Cavaco
ar austero, que não gosto
olhar cínico e velhaco
tem queixinho de macaco
olhos piscos de toupeira
pernitas de sapateira
pescoço de guanaco
nariz que parece um taco
dos que há no baseball
voz de belfo em si bemol
cujo timbre é muito fraco

É saloio, ponto assente
campónio feito doutor
sem ofensa ou desprimor
para essa honrada gente
que luta galhardamente
pelo pão do dia-a-dia
“campónio” entre aspas, diria
que é muito mais concludente
assim sendo vou em frente
falando deste algarvio
que me causa um arrepio
sempre que passa à tangente

No mau gosto é bem casado
vêde a Cavaca Maria
p’ra ela azul e encarnado
serão cores em sintonia
quanto aos sapatos dizia:
“Quero-os azuis, côr de mar
ficam-me bem, a matar
como à Raínha Sofia
“desta “campónia” algarvia
uns dizem que no passado
o seu marido malvado
lhe dava um estalo por dia

Foram morar em Belém
Possolo virou passado
rei e raínha estão bem
é em palácio murado
mas estou preocupado
sabem vocês com o quê?
com as varandas, já se vê
esperai só mais um bocado
aposto já foi chamado
o bom mestre serralheiro
para as fechar por inteiro
de alumínio anodizado

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