No Solar da Rosa (7)

fevereiro 18, 2006
* No Solar da Rosa
O SOLAR DA ROSA

Nesta tasquinha bizarra
de ambiente bem sadio
ao doce som da guitarra
canta-se o fado vadio

Apresentador: Meus senhores e minhas senhoras, respeitável público, uma muito boa noite para todos, a quem agradecemos desde já a presença; sejam por isso muito bem vindos.

Um do Público: Ó pá, mas tu não mudas o discurso? És sempre igual todas as semanas ó meu! Inova pá! Se não sabes como pergunta ao Mariano Gago, que é um dos patrões desta tasca, como é que isso se faz pá! Mas que canastrão do caraças, eh,eh,eh!…

(Restante público aplaude e ri alarvemente)

Apresentador: (sorriso de crocodilo) Eh,eh,eh! bem… esta noite, conforme puderam constatar no cartaz publicitário, vamos ter a presença de um artista muito especial, o grande, o imperial, o majestoso… BELMIRO DE AZEVEDO! Peço uma grande salva de palmas para este monstro do meio artístico.

(Público aplaude)

Outro do público: É bem sim senhor, um artista português que quando abre a boca e canta, cala tudo em seu redor!

Apresentador: Então ainda bem que parece haver quase unanimidade; assim sendo, vou dizer mais umas palavrinhas sobre a obra deste grande artista…

Mais um do público: Alto aí ó papagaio do Bornéu, tu vais mas é calar o trombone e arrumar o violino na caixa. Mas a malta veio aqui para ouvir fados ou para assistir a uma sessão solene de condecorações made in Palácio de Belém hein? Dá mas é meia volta aos patins e manda entrar o pessoal da cantoria, arruma lá essas apresentações pindéricas e tá a’ndar!

Outro: Apoiado, apoiado, vai-te mas é embora ó perú de Madagáscar! Uhhhhhh!!!!!!

Apresentador: Pronto, pronto, calma!… como o público tem sempre razão…

Todos: Ah bem! Eh,eh,eh,eh,eh!

Apresentador: Sendo assim que entrem os artistas: À guitarra o Avô Almeida Santos, à viola o Tio Jerónimo de Sousa, no baixo o puto Marques Mendes e no baixo mais que baixinho a Anã Droga, todos eles para acompanhar o fadista, o grande… BELMIRO DE AZEVEDO, a voz que, dizem, vai para lá do Continente.

Público: (aplaudindo de pé) Àh grande Miro pá, és o maior!

Belmiro de Azevedo: Muito boa noite a todos e muito obrigado pelo carinho que me dispensam. Esta noite vou cantar para vocês um fado com letra do Zecatelhado e com a música dos “passarinhos a bailar” -se quiserem cantem também enquanto lêm a letra-, que se intitula: “OPAmim sempre a crescer”.

( Mais aplausos do público. Luzes baixam, guitarra e violas gemem, Belmiro “arranca”)

Puz uma OPA no ar
deu-me ganas p’ra comprar
a Portugal Telecom
piu,piu,piu,piu
puz o Salgado a sofrer
e o Horta quase a morrer
cum ataque de coraçon
piu,piu,piu,piu

Foi só falar com o espanhol
apareceu o carcanhol
foi sempr’andar tão a ver?
piu,piu,piu,piu
cresce mundo da Sonae
p’ró Belmiro não há pai
ÓPAmim sempre a crescer

É dia de festa
menos p’ró Salgado
e o Horta e Costa
quem é que aposta
ficou borrado!

Puz uma OPA no ar
…..!

(Público aplaude louca e demoradamente. Numa mesa do canto fundo da sala ouvem-se apupos. São três personagens conhecidíssimas: Horta e Costa, Ricardo Salgado e João Pereira Coutinho)

Ricardo Salgado: Vais morrer de um ataque de caspa meu glutão do caraças! Fascista! Açambarcador! Monopolista!

Horta e Costa: Capitalista Selvagem! Antropófago! Iconoclasta! Vai mas é para as ilhas Caimão meu trapaceiro sem escrúpulos!

João Pereira Coutinho: Malandro! Terrorista da Nova Era! Talibã do Norte! Bombista!

Belmiro de Azevedo: Olha o trio falhado… eh,eh,eh… está cá em peso!

Horta e Costa: Trio falhado é a tua bisavó caribeña minha hidra de onze tentáculos! Ainda por cima gozas com o pagode? Ora então segura aí que esta é oferta da casa!

(Atira com uma garrafa de Dom Perignon que passa a rasar a carola do fadista)

Belmiro de Azevedo: Zarolho! agora podes atirar os aperitivos que esta bateu na bambolina e ficou inteira, eh,eh,eh!

Ricardo Salgado: Ai sim? Ai é? Então espera aí que eu vou-te levar os aperitivos em mão!

(Salta para cima do palco e engalfinha-se com o fadista. João Pereira Coutinho e Horta e Costa seguem-no e tentam malhar igualmente no artista. Dois dos gorilas do Solar da Rosa, vendo a desvantajem do cantor, saltam para o palco e equilibram a peleja. O público esse, delira com o espectáculo)

Um do público: Ah!!! Finalmente… isto é espectáculo! Fado, copos e mocada de três em pipa… Viva o genuíno espírito lusitano!

Banqueiro do Santander entre a assistência: Hombre, coño, que los portugueses son brabos! Solamente ha faltado el toro!

(Um engraçadinho da plateia, quando ouve o espanhol terminar a citação, atira-lhe com um chouriço ainda a arder na canoa e acerta-lhe em cheio na peitaça)

Banqueiro do Santander: Caracoles, estoi ardiendo! Quien foi el ijo de puta madre que…

(Era o rastilho que faltava atear. Num ápice começam a estalar nos costados e carolas, cadeiras, mesas, cinzeiros, restantes chouriços assados ou por assar, canoas da assadura e tudo o que é possível ter à mão e servir de objecto de arremesso. Chega finalmente a polícia de intervenção que malha a sério nos que ainda não cairam.
Escondidos como sempre atrás da bambolina do palco os músicos e o apresentador sussurram baixinho)

Avô Almeida Santos: Isto de tocar guitarra por desporto está a ficar deveras mais perigoso que ir para o Iraque em regime de voluntariado.

Tio Jerónimo de Sousa: É no que dá o jogo capitalista/monopolista/fascista.

Marques Mendes: A minha sorte é ter sempre a caixa da viola aos pés. É só meter-me atrás dela que me serve de escudo perfeito.

Anã Droga: Se a gerência à entrada fornecesse uns porros ao pessoal, como fazem em Amesterdão, já não havia barracadas destas. A malta fumava a broca e ficava mais mansinha que um cordeirinho do presépio; ou então entravam só gays que são uns tipos e tipas pacíficos…

Apresentador: Cale-se lá seu porta-chaves esquelético e não digas mais disparates. Você nem tem razões de queixa nenhuma! Mal começa o serrabulho enfia-se dentro da caixa da viola e fica mais segura que o tesouro americano no Forte Knox! Qual porros, qual gays qual carapuça! Vá mas é fazer um aborto dessa caixa encefálica anómala!

Anã Droga: Cale-se você seu velhadas careta! Seu cota bota de elástico!…

Avô Almeida Santos: Meus amigos calma! Apelo à tolerância…

Tio Jerónimo de Sousa: Se os verdadeiros democratas ouvissem as minhas propostas, a direita trauliteira, fascista e reaccionária…

Marques Mendes: Ó Tio Jerónimo, “ganda nóia!” feche lá a cartilha que o grande João de Deus foi o único que eu suportei; mais a mais você é torneiro mecânico e não pedagogo, por isso cale-se!

Apresentador: (espreitando por tás da bambolina) Creio que a coisa já parou. Podemos sair que já não há cá ninguém.

(Ouve-se então uma voz vinda da teia do palco)

Voz: Desculpe lá mas ainda cá estou eu!

Todos: ARTISTA BELMIRO?!

Belmiro de Azevedo: Eu mesmo da Silva!

Apresentador: Mas… não entendo…

Os Outros: NÓS NÃO ENTENDEMOS!

Belmiro de Azevedo: Mas o que é que não entendem? eh,eh,eh!

Tio Jerónimo de Sousa: Então você está no palco à batatada…

Belmiro de Azevedo: Sim…

Apresentador: E como é que aparece aí?!

Marques Mendes: Ele é alto e agrrou-se à teia, foi o que foi…não foi?!

Anã Droga: Eu seja lésbica assumida se percebo alguma coisa disto!

Belmiro de Azevedo: Vocês políticos são efectivamente umas marionetas que só funcionam se vos puxarem os cordelinhos, cérebro incluído; Tudo o que não seja assim, passa-vos ao lado, nem que seja um Jumbo da TAP -Jumbo não que é publicidade à concorrência- um Boeing da TWA. Ora então vamos lá a agarrar nos cordeis e a fazer funcionar esses miolos de pintassilgo:
Quando me convidaram para vir ao Solar da Rosa cantar um faduncho eu aceitei, embora tenha tanto jeito para cantar como para abrir valas à picareta na Fernão de Magalhães, ou seja: Nenhum; posso até adiantar que ao pé de mim o Zé Cabra parece o Pavarotti…

Avô Almeida Santos: Mas você cantou tão bem!?…

Belmiro de Azevedo: Ora aí é que está a piada disto tudo; Depois de desligar o telefone a aceitar o convite, é que eu medi bem o trinta e um em que me tinha enfiado, vai daí, telefonei ao Tony Carreira, expliquei-lhe situação, prometi-lhe uma porrada de acções da Sonae e o gajo foi na cantiga, ou antes, veio cantar por mim…

Avô Almeida: Mas eu VI-O a cantar em palco!?

Os Outros: NÓS VIMOS!?

Belmiro de Azevedo: Errado! Era o Tony Carreira com uma máscara de latex e cabeleira a preceito imitando a minha fronha!

Todos: Ahhhh!!!!

Belmiro de Azevedo: Com o barulho das luzes aquilo não se notou nada, o público como sabem são uma cambada de palavos e eu assisti deliciado aqui de cima na teia à MINHA glória, entenderam agora?

Tio Jerónimo de Sousa: Espere aí!… quer então isto dizer que o desgraçado apanhou uns sopapos por si!

Blmiro de Azevedo: Pois, mas quanto a isso…Pôncio Pilatos, lavo daí as minhas mãos, são os riscos do artista quando a coisa azeda e papa com uns tomates nas trombas!

Anã Drago: Mas não foram tomates, foram estaladões e dos grossos!

Belmiro de Azevedo: É a mesma coisa, só tem que se aguentar, pequenota da viola baixo baixinho. O que me importa a mim é que a concorrência levou uns chapadões bem aviados dos gorilas que socorreram o Tony Carreira e devem estar no S. Francisco Xavier a pôr os maxilares no sítio, eh,eh,eh,eh, enquanto eu estou aqui todo direitinho da costa, e sempre, SEMPRE A SUBIR!
Digam lá se não sou o maior!

Todos: Ai é é, OPA(´)!!!

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