Lá Vem a Nau Catrineta (65)

Fevereiro 26, 2006

fevereiro 18, 2006* Lá Vem A Nau Catrineta… Ou a Peregrinação de José Mentes(?!) Sócrates I
Lá Vem a Nau Catrineta Que Tem Muito Que Contar…

De rosa se fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
esta Nau em alto mar
dessa odisseia sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra estória de pasmar
Vigia: Barco à vista!…Bar…
Tenente: Já te ouvi ó meu artista, vê se paras com o chinfrim, é veleiro ou bergantim?
Vigia: É chalupa, isso sim!
Tenente: De Canas de Senhorim?
Vigia: !? De onde?!
Tenente: Esquece, estava a pensar noutra alhada.
Vigia: Tem a flâmula hasteada, vejo bem, é do Irão.
Tenente: E vem nesta direcção?
Vigia: Em rota de colisão.
Tenente: Ó diabo, outra cegada!(para um dos marujos) Vai já chamar D. Diogo e também o Capitão. (para o armeiro da Nau) Arma canhão a canhão e prontos a fazer fogo; E chama-me os enfermeiros.
Vigia: E o corpo de bombeiros?
Tenente: Podes chamá-lo também, cheira-me a caldo entornado.
Vigia: A mim a nada me cheira (snif), mas como estou constipado…
Tenente: Vê se estás mas é calado e não digas tanta asneira
(Chegam o Capitão D. José e D. Diogo)
D. José: Passa-me lá a luneta; anda então na costa um mouro?
Vigia: Não vislumbro bom agouro p’rá pobre da Catrineta…
D. Diogo: Vê se calas a trombeta e dás à sola tesouro! Junta-te lá à gandula que é aí o teu lugar.
Tenente: Eu já o mandei calar, teimoso como uma mula!
D. José: Dá à sola zé caçula que agora é com quem usa a mona, não para quem tem por cabeça um caroço de azeitona.
D. Diogo: Eh,eh,eh,eh,eh,eh,eh! vai correndo numa fona, sois danado D. José, têm-vos cá um cagaço!…
D. José: Se os deixo tocar-me o braço, podeis querer que estou tramado. ( olha pela luneta) Juro que a fronha do persa já a vi em qualquer lado…(passa a luneta a D. Diogo).
D. Diogo: Ah! pois já o viu carago! foi na segunda ou na terça?… é o mouro destemperado embaixador do Irão…
D. José: Pois é, tendes razão, que quererá esse doutor?!
D. Diogo: Eu sou franco meu senhor, não faço a mínima ideia! (a chalupa aproxima-se e hasteia bandeira de pedido de acostagem) Não deteto hostilidade na chalupa da moirama…
D. José: Quando conheci Osamma também só vi santidade, e no entanto… foi aquilo que a gente sabe. Estejamos nós preparados para o que der e vier.
(Barcos acostam. Mouro sobe à Catrineta)
Embaixador: Sabah el- khayr!
D. José: Bom dia para si também. Sede vossa senhoria bem vindo à Catrineta, mal o mirei na luneta foi grande a minha alegria; tão ilustre visitante é sempre enorme prazer.
Embaixador: Venho só agradecer (para D. Diogo)a vossa (para D. José) e a vossa mercê.
D. José: (!?) Juro que não estou a ver (!?) mas agradecer o quê?!
Embaixador: A posição ora então!?… que ambos vocês tomaram quando uns pulhas publicaram ofensas ao Grande Islão!
D. José e D. Diogo: Àhhhh!!!!!
Embaixador: E tocou-me o coração a forma como (para D. Diogo) o senhor com bravura e destemor falou na televisão.
D. José: Um valentão, um tenente que é um amor!
(D. Diogo fica muito corado e calado)
Embaixador: Sem favor! Mas a verdade porém, é que a razão mais premente de eu estar aqui presente, antes de ir a Belém, foi um mail que recebi vindo do Grande Ayatolla, sobre o tal jogo de bola (aponta para D. Diogo) cuja ideia veio de si.
D. José: Eu juro que não ouvi(!?), falaste em jogo de bola?!
D. Diogo: Eu…
Embaixador: Como ele o comoveu…veja bem, que até chorou o meu querido Ayatolla!
D. José: Perdoem-me porque não estou a entender patavina!?
Embaixador: ?! Como não?!
D. Diogo: Tenhamos lá calma então, meus senhores…por favor, desculpai-me embaixador, esclareço Capitão: Na entrevista que dei no princípio da semana, a certa altura falei em fazer uma jogatana…
D. José: Mas que ideia mais bacana!
D. Diogo:…É, não é meu Capitão? De um lado estava o Islão e do outro a Cristandade!
D. José: E o árbitro, é verdade? Pensaste no pormenor?
D. Diogo: Claro que sim meu senhor, nesse dia de manhã!
D. José: E…
D. Diogo: Seria o Kofi Annan, isenção não há maior!… (embaixador fica perturbado)… se o Islão concordar!
Embaixador: Primeiro vou consultar o Supremo dos Imã, mas juro-vos que amanhã resposta vos virei dar. Pode ficar combinado?
D. Diogo: Cá por mim está tudo bem!
D. José: Eu igualmente…também!
Embaixador: Fica o encontro marcado. Que Alá vos traga bom vento, foi muito bom o momento, foi muito do meu agrado.
D. José e D. Diogo: Nós igualmente, obrigado!
(Vai-se o embaixador e a chalupa moura faz-se ao largo. D. José agarra rapidamente e com força o braço de D. Diogo e leva-o para o camarote)
D. José: Não sei bem se sois maluco ou um génio colossal!…
D. Diogo: Vedes na bola algum mal?
D. José: Vejo é um ninho de cuco!
D. Diogo: De cuco?!
D. José: Belo animal! despeja os ovos todinhos nos ninhos da vizinhança!
D. Diogo: ?!…Não alcanço a semelhança!?…
D. José: Pois não… siga a dança, por isso ainda és tenente e eu sou teu Capitão…
D. Diogo: ???!!!
D. José: Devias ter atenção ao entrares no improviso, houve bué falta de siso nessa do jogo da bola.
D. Diogo: Mas se até o Aiatolla…
D. José: Qual Aiatolla qual quê, sobre a bola já se vê, fizeste merda e da grossa!…
D. Diogo: Bem…se fiz talvez se possa…
D. José: Agora não há papel!…isto vai dar um granel que tu não queiras saber!… Que poderei eu fazer? Pensa Zé, pensa depressa!…
D. Diogo: Meu Capitão, ora essa?!… não o estou a entender!…
D. José: Isso dá p’ra perceber… bem vamos lá a ver então; Telefona ao Madail e ao Major Valentim …
D. Diogo: Como assim?!
D. José: P’ra que arranjem onze coxos para jogar com a moirama! Se puseres Figos, Ronaldos, e outros craques de igual, damos uma dúzia aos mouros…
D. Diogo: E?…
D. José: TERCEIRA GUERRA MUNDIAL!


No Solar da Rosa (7)

Fevereiro 18, 2006

fevereiro 18, 2006
* No Solar da Rosa
O SOLAR DA ROSA

Nesta tasquinha bizarra
de ambiente bem sadio
ao doce som da guitarra
canta-se o fado vadio

Apresentador: Meus senhores e minhas senhoras, respeitável público, uma muito boa noite para todos, a quem agradecemos desde já a presença; sejam por isso muito bem vindos.

Um do Público: Ó pá, mas tu não mudas o discurso? És sempre igual todas as semanas ó meu! Inova pá! Se não sabes como pergunta ao Mariano Gago, que é um dos patrões desta tasca, como é que isso se faz pá! Mas que canastrão do caraças, eh,eh,eh!…

(Restante público aplaude e ri alarvemente)

Apresentador: (sorriso de crocodilo) Eh,eh,eh! bem… esta noite, conforme puderam constatar no cartaz publicitário, vamos ter a presença de um artista muito especial, o grande, o imperial, o majestoso… BELMIRO DE AZEVEDO! Peço uma grande salva de palmas para este monstro do meio artístico.

(Público aplaude)

Outro do público: É bem sim senhor, um artista português que quando abre a boca e canta, cala tudo em seu redor!

Apresentador: Então ainda bem que parece haver quase unanimidade; assim sendo, vou dizer mais umas palavrinhas sobre a obra deste grande artista…

Mais um do público: Alto aí ó papagaio do Bornéu, tu vais mas é calar o trombone e arrumar o violino na caixa. Mas a malta veio aqui para ouvir fados ou para assistir a uma sessão solene de condecorações made in Palácio de Belém hein? Dá mas é meia volta aos patins e manda entrar o pessoal da cantoria, arruma lá essas apresentações pindéricas e tá a’ndar!

Outro: Apoiado, apoiado, vai-te mas é embora ó perú de Madagáscar! Uhhhhhh!!!!!!

Apresentador: Pronto, pronto, calma!… como o público tem sempre razão…

Todos: Ah bem! Eh,eh,eh,eh,eh!

Apresentador: Sendo assim que entrem os artistas: À guitarra o Avô Almeida Santos, à viola o Tio Jerónimo de Sousa, no baixo o puto Marques Mendes e no baixo mais que baixinho a Anã Droga, todos eles para acompanhar o fadista, o grande… BELMIRO DE AZEVEDO, a voz que, dizem, vai para lá do Continente.

Público: (aplaudindo de pé) Àh grande Miro pá, és o maior!

Belmiro de Azevedo: Muito boa noite a todos e muito obrigado pelo carinho que me dispensam. Esta noite vou cantar para vocês um fado com letra do Zecatelhado e com a música dos “passarinhos a bailar” -se quiserem cantem também enquanto lêm a letra-, que se intitula: “OPAmim sempre a crescer”.

( Mais aplausos do público. Luzes baixam, guitarra e violas gemem, Belmiro “arranca”)

Puz uma OPA no ar
deu-me ganas p’ra comprar
a Portugal Telecom
piu,piu,piu,piu
puz o Salgado a sofrer
e o Horta quase a morrer
cum ataque de coraçon
piu,piu,piu,piu

Foi só falar com o espanhol
apareceu o carcanhol
foi sempr’andar tão a ver?
piu,piu,piu,piu
cresce mundo da Sonae
p’ró Belmiro não há pai
ÓPAmim sempre a crescer

É dia de festa
menos p’ró Salgado
e o Horta e Costa
quem é que aposta
ficou borrado!

Puz uma OPA no ar
…..!

(Público aplaude louca e demoradamente. Numa mesa do canto fundo da sala ouvem-se apupos. São três personagens conhecidíssimas: Horta e Costa, Ricardo Salgado e João Pereira Coutinho)

Ricardo Salgado: Vais morrer de um ataque de caspa meu glutão do caraças! Fascista! Açambarcador! Monopolista!

Horta e Costa: Capitalista Selvagem! Antropófago! Iconoclasta! Vai mas é para as ilhas Caimão meu trapaceiro sem escrúpulos!

João Pereira Coutinho: Malandro! Terrorista da Nova Era! Talibã do Norte! Bombista!

Belmiro de Azevedo: Olha o trio falhado… eh,eh,eh… está cá em peso!

Horta e Costa: Trio falhado é a tua bisavó caribeña minha hidra de onze tentáculos! Ainda por cima gozas com o pagode? Ora então segura aí que esta é oferta da casa!

(Atira com uma garrafa de Dom Perignon que passa a rasar a carola do fadista)

Belmiro de Azevedo: Zarolho! agora podes atirar os aperitivos que esta bateu na bambolina e ficou inteira, eh,eh,eh!

Ricardo Salgado: Ai sim? Ai é? Então espera aí que eu vou-te levar os aperitivos em mão!

(Salta para cima do palco e engalfinha-se com o fadista. João Pereira Coutinho e Horta e Costa seguem-no e tentam malhar igualmente no artista. Dois dos gorilas do Solar da Rosa, vendo a desvantajem do cantor, saltam para o palco e equilibram a peleja. O público esse, delira com o espectáculo)

Um do público: Ah!!! Finalmente… isto é espectáculo! Fado, copos e mocada de três em pipa… Viva o genuíno espírito lusitano!

Banqueiro do Santander entre a assistência: Hombre, coño, que los portugueses son brabos! Solamente ha faltado el toro!

(Um engraçadinho da plateia, quando ouve o espanhol terminar a citação, atira-lhe com um chouriço ainda a arder na canoa e acerta-lhe em cheio na peitaça)

Banqueiro do Santander: Caracoles, estoi ardiendo! Quien foi el ijo de puta madre que…

(Era o rastilho que faltava atear. Num ápice começam a estalar nos costados e carolas, cadeiras, mesas, cinzeiros, restantes chouriços assados ou por assar, canoas da assadura e tudo o que é possível ter à mão e servir de objecto de arremesso. Chega finalmente a polícia de intervenção que malha a sério nos que ainda não cairam.
Escondidos como sempre atrás da bambolina do palco os músicos e o apresentador sussurram baixinho)

Avô Almeida Santos: Isto de tocar guitarra por desporto está a ficar deveras mais perigoso que ir para o Iraque em regime de voluntariado.

Tio Jerónimo de Sousa: É no que dá o jogo capitalista/monopolista/fascista.

Marques Mendes: A minha sorte é ter sempre a caixa da viola aos pés. É só meter-me atrás dela que me serve de escudo perfeito.

Anã Droga: Se a gerência à entrada fornecesse uns porros ao pessoal, como fazem em Amesterdão, já não havia barracadas destas. A malta fumava a broca e ficava mais mansinha que um cordeirinho do presépio; ou então entravam só gays que são uns tipos e tipas pacíficos…

Apresentador: Cale-se lá seu porta-chaves esquelético e não digas mais disparates. Você nem tem razões de queixa nenhuma! Mal começa o serrabulho enfia-se dentro da caixa da viola e fica mais segura que o tesouro americano no Forte Knox! Qual porros, qual gays qual carapuça! Vá mas é fazer um aborto dessa caixa encefálica anómala!

Anã Droga: Cale-se você seu velhadas careta! Seu cota bota de elástico!…

Avô Almeida Santos: Meus amigos calma! Apelo à tolerância…

Tio Jerónimo de Sousa: Se os verdadeiros democratas ouvissem as minhas propostas, a direita trauliteira, fascista e reaccionária…

Marques Mendes: Ó Tio Jerónimo, “ganda nóia!” feche lá a cartilha que o grande João de Deus foi o único que eu suportei; mais a mais você é torneiro mecânico e não pedagogo, por isso cale-se!

Apresentador: (espreitando por tás da bambolina) Creio que a coisa já parou. Podemos sair que já não há cá ninguém.

(Ouve-se então uma voz vinda da teia do palco)

Voz: Desculpe lá mas ainda cá estou eu!

Todos: ARTISTA BELMIRO?!

Belmiro de Azevedo: Eu mesmo da Silva!

Apresentador: Mas… não entendo…

Os Outros: NÓS NÃO ENTENDEMOS!

Belmiro de Azevedo: Mas o que é que não entendem? eh,eh,eh!

Tio Jerónimo de Sousa: Então você está no palco à batatada…

Belmiro de Azevedo: Sim…

Apresentador: E como é que aparece aí?!

Marques Mendes: Ele é alto e agrrou-se à teia, foi o que foi…não foi?!

Anã Droga: Eu seja lésbica assumida se percebo alguma coisa disto!

Belmiro de Azevedo: Vocês políticos são efectivamente umas marionetas que só funcionam se vos puxarem os cordelinhos, cérebro incluído; Tudo o que não seja assim, passa-vos ao lado, nem que seja um Jumbo da TAP -Jumbo não que é publicidade à concorrência- um Boeing da TWA. Ora então vamos lá a agarrar nos cordeis e a fazer funcionar esses miolos de pintassilgo:
Quando me convidaram para vir ao Solar da Rosa cantar um faduncho eu aceitei, embora tenha tanto jeito para cantar como para abrir valas à picareta na Fernão de Magalhães, ou seja: Nenhum; posso até adiantar que ao pé de mim o Zé Cabra parece o Pavarotti…

Avô Almeida Santos: Mas você cantou tão bem!?…

Belmiro de Azevedo: Ora aí é que está a piada disto tudo; Depois de desligar o telefone a aceitar o convite, é que eu medi bem o trinta e um em que me tinha enfiado, vai daí, telefonei ao Tony Carreira, expliquei-lhe situação, prometi-lhe uma porrada de acções da Sonae e o gajo foi na cantiga, ou antes, veio cantar por mim…

Avô Almeida: Mas eu VI-O a cantar em palco!?

Os Outros: NÓS VIMOS!?

Belmiro de Azevedo: Errado! Era o Tony Carreira com uma máscara de latex e cabeleira a preceito imitando a minha fronha!

Todos: Ahhhh!!!!

Belmiro de Azevedo: Com o barulho das luzes aquilo não se notou nada, o público como sabem são uma cambada de palavos e eu assisti deliciado aqui de cima na teia à MINHA glória, entenderam agora?

Tio Jerónimo de Sousa: Espere aí!… quer então isto dizer que o desgraçado apanhou uns sopapos por si!

Blmiro de Azevedo: Pois, mas quanto a isso…Pôncio Pilatos, lavo daí as minhas mãos, são os riscos do artista quando a coisa azeda e papa com uns tomates nas trombas!

Anã Drago: Mas não foram tomates, foram estaladões e dos grossos!

Belmiro de Azevedo: É a mesma coisa, só tem que se aguentar, pequenota da viola baixo baixinho. O que me importa a mim é que a concorrência levou uns chapadões bem aviados dos gorilas que socorreram o Tony Carreira e devem estar no S. Francisco Xavier a pôr os maxilares no sítio, eh,eh,eh,eh, enquanto eu estou aqui todo direitinho da costa, e sempre, SEMPRE A SUBIR!
Digam lá se não sou o maior!

Todos: Ai é é, OPA(´)!!!


Lá Vem a Nau Catrineta (61)

Fevereiro 11, 2006

fevereiro 11, 2006

De rosa se fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
esta Nau em alto mar
dessa aventura sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra história de pasmar

“Sobe á gávea meu valente
gajeiro da Catrineta
e aponta-me essa luneta
a terras do Oriente
a coisa volta a estar quente
quero saber o que se passa
se há sinagoga e madraça
à mocada novamente”

“Subo sim meu Capitão
mas antes vou-lhe lembrar
que a mã da trolha é Agar
escrava Egípcia de Abraão
sendo ele já ancião
mas homem de muita fé
obediente à Yavé
foi o avõ do Islão

Deitou-se com a escreva e…zás!…
vai daí nasceu Ismael
estava lançado o granel
e nunca mais houve paz
Sara a esposa foi capaz
de conceber aos noventa
nasceu Isac e a tormenta
monta a esse tempo atrás

(gajeiro trepa e olha a Oriente)

Mas… meu senhor D. José
desta a bernarda é diferente
vejo magotes de gente
fazendo um brutal banzé
e diz-se ferida na fé
por dois artistas malteses
cidadãos dinamarqueses
que ultrajaram Maomé

Há fogo nas embaixadas
e pelo que mais estou vendo
o tumulto vai crescendo
berram multidões iradas
as casas vandalizadas
na rua autos de fé
é o que vejo, pois é
as coisas estão mal-paradas

O que é que irá na cabeça
de quem engendrou tal obra?
não há já merda que sobra
p’ra que mais merda aconteça
liberdade, não se esqueça
é direito, mas também
tem um travão, ora bem
onde a do outro começa”

“E dizes tu meu gajeiro
que a coisa está a alastrar?”
“Há muito fumo no ar
espalhado p’lo mundo inteiro!”…
“Mas diz-me lá marinheiro
então e no Ocidente
qual a reacção da gente
ao ver tamanho braseiro?”

“Uns dizem sim, outros não
o povo está dividido
cada qual o seu partido
quanto ao tema em discussão
liberdade de expressão
dizem uns, não tem barreiras
outros acham que há fronteiras
ou deixa de haver razão

Mas vejo gente contente
da sinagoga à madraça
enquanto o ódio repassa
entre Oriente e Ocidente
esfregam as mãos de contente
lá ao fundo, atrás do pano
dando vivas ao plano
urdido tão sabiamente