No Solar da Rosa (4)

novembro 10, 2005
* No Solar da Rosa
O SOLAR DA ROSA

Nesta tasquinha bizarra
de ambiente bem sadio
ao doce som da guitarra
canta-se o fado vadio

***** ***** ***** *****
Apresentador:Boa noite senhoras e senhores, respeitável público. É com o prazer do costume que vos voltamos a dizer: SEJAM BEM VINDOS AO SOLAR DA ROSA…
(Palmas do público)
… Hoje temos o grato prazer de anunciar uma inovação de estilo, a qual penso vir a bar brado…
Um do público: Mau! Quando vocês, os da rosa, se põem com invenções…
Outro:…Geralmente dá merdum!
(Risada geral na plateia)
Outro ainda: Nada de invenções ó professor Pardal, fado é fado com guitarra, viola e fadista, portanto vê lá o que é que vais arranjar!
Apresentador:Tenham calma! Longe de mim vir para aqui desvirtuar a canção nacional!…
Outro: Era só o que faltava!… Mas então desembucha lá ó meia-leca!
Apresentador: Bem… Vão ver que vão adorar. O que eu vos queria dizer é que esta noite vamos ter não um, mas vários fadistas a cantar em uníssono o mesmo fado, ou seja: UM CÔRO!
Outro: Fado em côro?!…Mas que raio de merda é essa?!…
Outro ainda: Não queremos essa trampa ó camelo! Fado é fado e fadistas um de cada vez. No máximo dois, para cantos à desgarrada!…
Ainda outro: Nunca se viu tal coisa ó morcão! Um fado cantado por um coral tipo Ceifeiros de Pias?!
Plateia:Eh,eh,eh,eh!…
Apresentador:(já muito aflito)Calma por favor! E que tal ouvirmos primeiro e pronunciarmo-nos depois?
Um do público: Tá bem ó esticadinho da silva, mas se o espectáculo for uma bosta não vai ficar tábua sobre tábua desta espelunca, ficas desde já avisado!
Toda a plateia:Apoiado!Apoiado!
Apresentador: Pois eu estou plenamente convencido que toda a gente vai adorar o espectáculo e que no final ainda vão pedir bis!
Plateia: Vai-te fiando!… Começa lá essa merda que já chega de conversa!
Apresentador: Então lá vai: Senhoras e senhores, na minha e na vossa presença o grupo coral fadista dos AUTARCAS DE PORTUGAL!
Plateia:O quê?! Ainda por cima é esta cáfila que vem cantar?! Uhuhuhuh!!!! Cambada!!! Chulos!!! Vigários!!! Filhos da P…! Corruptos!Uhuhuhuh!!!…
Apresentador: Então meus senhores? Sejam comedidos por favor! Este grupo de amigos vai interpretar para todos vós o fado “AFINAL ERA A MORAL”. A música é do Ti Alfredo ( Igual à da Rosa Maria da Rua do Capelão) e a letra é dum ferrabrás qualquer que eu não conheço de lado nenhum chamado Zecatelhado. Como sempre, teremos à guitarra o avô Almeida Santos e à viola o Tio-Avô Jerónimo de Sousa. No baixo o baixinho do Marques Mendes e no super-baixo ( não, não é um porta-chaves ) a Anã Droga. Por favor silêncio que se vai então cantar o fado!
(começam a ouvir-se os acordes da guitarra e das violas)
(entram cantando os fadistas)

Côro:Fizeram uma lei bizarra
para calar a’lgazarra
deram-lhe um ar moralista
mas nós velhas ratazanas
como não somos bananas
não lhes baixamos a crista

Passeou de gaveta em gaveta
a funesta lei da treta
até final dos mandatos
numa alegre roda viva
foi andando a respectiva
de Herodes p’ra Pilatos

Logo a seguir a maralha
lá tomou posse na esgalha
toda feliz e contente
protocolo despachado
era o momento chegado
de ordenar ao Presidente

Mande agora publicar
a lei que nos quer lixar
que a gente não quer saber
porque a retroactividade
todos sabem que é verdade
aqui nunca vai valer…

Plateia em geral: Uhuhuhuhuh!!! Olha a lata destes cabrões, ainda a gozar o pagode!… Seus filhos de uma cadela debochada que vão ficar com os focinhos em papas!…
Vamos a eles! Vamos a eles!…
( Desatam todos a correr direito ao palco munidos de cadeiras, garrafas, guarda-chuvas e tudo o que haja à mão e faça mossa. Os autarcas fogem para os bastidores. Os músicos escondem-se debaixo das cadeiras onde estavam sentados. É a confusão total)
Apresentador: Meus senhores!…Meus senhores, civilidade!!!…
Um dos invasores do palco: Tu também vais chupar pela grande; Já estava prometido, portanto…TOMA!
( Enfia-lhe com uma cadeira pela cabeça abaixo e o pobre apresentador cai redondinho no chão. Chega a polícia de intervenção)
Chefe da Polícia: Mas que raio de cagaçal vem a ser este? Já chegámos a Paris ou quê?…
(virando-se para o batalhão)… Porrada nesses cabrões!
(Assiste-se a um autêntico festival de bordoada da grossa nos energúmenos que fogem porta-fora ou pelas janelas. Terminado o arraial a polícia retira-se)
(Escondidos num armário dos camarins, dois autarcas sussurram:)
Autarca 1: Pôrra! Nunca mais me meto noutra. Dou aqui por terminada a aventura de fadista nas horas vagas!
Autarca 2: Eu igualmente! Este povo é uma súcia de arruaceiros e de gente mal-formada. Se uma pessoa os engana e lhes mente descaradamente, é o maior e levam-no em ombros, mas se pelo contrário diz a verdade, ó da guarda…filho disto e daquilo… e ainda está sujeito a levar uns palmadões em cheio nas ventas!

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