Bate o Pau e Sobe o Pano (3)

Novembro 23, 2005

novembro 23, 2005

“Penhoras do Inferno”

A acção passa-se no Inferno, mais propriamente no local onde estão situados os escritórios de Lúcifer e dos seus acessores, Beleal, Asmodeu e Belzebú.
Temos uma sala de espera completamente nua, ou seja, sem qualquer peça de mobiliário. Os “clientes” esperam de pé. As paredes estão pintadas de preto e o tecto de vermelho vivo. Na parede de cada uma destas salas está uma tabuleta que diz: «PENHORES SOB FAVORES».
No gabinete de Lúcifer trava-se o seguinte diálogo:

Lúcifer: Pois muito bem pessoal, quem temos nós afinal hoje aqui na nossa loja?
Belzebú: A raça que mais me enoja, para ser franco e leal!
Beleal: Abre-te com Beleal…
Belzebú: Políticos, que rica corja!
Asmodeu: Vou já acender a forja porque há chicha p’ra queimar! Não está mal p’ra começar, ah! hoje o dia promete!
Lúcifer: Bem…sendo assim vou à retrete porque a coisa vai durar!
Beleal: Portanto há que despejar? Eh,eh,eh! chamo a isso prevenção!
Belzebú: Ora sendo assim então…
Asmodeu: Quatro na mão a mijar!
Todos os quatro: Ah,ah,ah,ah,ah!

Vão direitos à retrete infernal. Bexigas aliviadas e voltam ao escritório de Lúcifer.

Lúcifer: Meus irmãos infernais, devido ao que está lá fora, a estratégia nesta hora vai ser diferente das mais!
Beleal: O que é que planeais?
Lúcifer: Que os quatro junto fiquemos e com atenção escutemos este duo de pardais!

Sentam-se os quatro e chamam o Diabrete magarefe.

Lúcifer:(para o Diabrete) Ora manda lá entrar um a um os passarões!
Diabrete: P’lo número dos talões ou por ordem alfabética?
Lúcifer: Para acertar rima e métrica, qualquer um dos dois coirões!
Diabrete: Muito bem queridos patrões, vamos lá dar-lhes avio!

(abre a porta e anuncia)

Diabrete:: O primeiro é o algarvio que se diz barra em cifrões!
Lúcifer: Entra lá gasolineiro, diz o que tens a propor!
Algarvio: Eu vos saúdo senhor, igualmente a vós senhores. Ó digníssimo gestor desta casa de penhores, da qual preciso favores, dizei qual o vosso preço. Ficai certos que o mereço pois sou homem de valores!
Lúcifer: E trazes a ladaínha bué de bem ensaiada!
Algarvio: Qual ladaínha?! Que nada! Foi espontânea a confissão!
Beleal (em surdina para Asmodeu): Canta bem este cabrão!
Asmodeu(em surdina para Beleal): Que cantilena melada!
Lúcifer: Isso não releva nada, vamos embora ao que interessa!
Belzebú: Essa é que é essa!
Lúcifer: Diz lá tu pantomineiro, que pretendes de verdade?
Algarvio: A vossa boa vontade…Eu quero ser Presidente!
Beleal: E como pagas à gente, saciada essa vontade?
Algarvio: Digo-vos sinceramente: Darvos-ei tudo o que tenho, até mesmo o meu casaco!
Belzebú (em surdina para Asmodeu): Este Algarvio é macaco!
Asmodeu (em surdina para Belzebú): Comparado com a gente, decerto é mais velhaco!
Lúcifer: Pois bem, não cobro pataco a essa tua pretensão!
Algarvio: Como?!…Mas como não?!… não entendo o teu dizer!
Lúcifer: Ai não estás a entender?
Algarvio: Não senhor, posso jurar!
Lúcifer: Então passo a explicar, mas peço que tenhas calma!… Muito bem, quero tu alma, estarás disposto a pagar?
Algarvio: A alma?!…Estás a brincar?!
Lúcifer: Nunca falei tão a sério!
Algarvio: Mas que raio de critério…
Lúcifer: Por aí não quero entrar!… Então?
Algarvio: Esperai!…Deixai-me pensar!
Lúcifer: Tens todo o tempo do mundo, podes pensar bem a fundo, avisa quando acabares!

(O Algarvio pensa um bocado)

Algarvio: Muito bem, eu estou disposto, mas a dar-te só metade!
Lúcifer: Por esse preço beldade…
Algarvio: Não é um preço a teu gosto?
Lúcifer: Digamos que não desgosto, quiçá cheguemos a acordo, depois de atender o gordo que está no salão oposto!
Algarvio: O gordo?!… Será Dom Mário?…
Lúcifer: Que não será tão otário como estás a ser, aposto!
Algarvio: Já partes do presuposto que ele a vende por inteiro…
Algarvio: Mais certo que o cozinheiro trazer favas e entrcosto!

(entra o cozinheiro infernal com uma travessa de comida fumegante)

Cozinheiro Infernal: Ora aqui está o almoço: Favinhas com entrecosto!
Os quatro diabos: Bem na hora a nosso gosto! Eh,eh,eh,eh,eh! És servido ó mal-disposto?
Algarvio: Olhai senhores p’ró meu rosto!… Confesso que estou espantado! Já decidi, está pensado!…
Lúcifer: E?…
Algarvio: Vendo a alma de bom gosto!
Beleal: Ora bem! Agora esperas na saleta aí ao lado!…
Belzebú: Já te faremos a folha em papel negro timbrado!
Asmodeu: E com teu sangue assinado!

(O magarefe infernal leva o Algarvio para o gabinete contíguo)

Lúcifer:Ah,ah,ah!… Este já está, gostaram do estratagema?
Beleal: Foi melhor que ir ao cinema, o pobre ficou borrado!
Belzebú: És mesmo muito malvado, bem esgalhada a artimanha!
Asmodeu: Disse a garça p’ra piranha: Mexe-te e estás papada!
Lúcifer: O Algarvio é um tolo, é burro e de que maneira, certo é que se abre a boca, entra mosca ou sai asneira!
Todos: Ah,ah,ah,ah,ah!
Lúcifer: Sendo que este já cá canta, mandai lá entrar o gordo!
Beleal: Pelo que vi não me espanta que venha aí novo acordo!
Asmodeu: Concordo!
Belzebú: Concordo!
Lúcifer: Discordo!…Este é mui mais refinado, mais difícil de parar!…É uma rês bem mais dura!…
Beleal: Mas aposto a cornadura em como o vais baralhar!
Lúcifer: (Para o magarefe) Manda-o entrar!
Diabrete: Anda lá gordo de um raio!
Dom Mário: Sê educado ó catraio, respeito pela velhice!
Asmodeu: Que foi que o balofo disse?
Beleal: Mandou calar o chavalo!
Belzebú: Sacrista, vou dar-lhe um estalo!
Lúcifer: Calminha aí, baixa a mão, companheiro Belzebú!
Belzebú: E um pontapé no cú?
Lúcifer: Ainda menos, també não! Vamos embora a’tinar!
Dom Mário: Vinha cá negociar!…
Lúcifer: Já sabemos rezingão; Que mais poderia ser? Sendo assim vamos saber: Que propões velho leão?
Dom Mário: Verdade que o que me trouxe, aqui por estas paragens, é que a merda das sondagens me deixam preocupado!…
Lúcifer: Quer dizer… estás entalado!
Beleal: Direi mais… desesperado!
Asmodeu: Estás à rasca é bom de ver!
Belzebú: E crês que te vamos valer?
Dom Mário: Assim espero meus senhores, preciso os vossos favores…
Lúcifer: P’ra poderes ser Presidente?
Dom Mário: É isso efectivamente!…Mas como é que adivinhaste?!
Lúcifer: Já cá este um outro traste pedir o mesmo à gente!
Dom Mário: Um Algarvio repelente que semeia gafanhotos?
Lúcifer: Outros chamam perdigotos, mas é esse realmente!
Dom Mário: Ai o maldito demente!… E que acordo fez contigo?
Lúcifer: Isso é que eu não te digo, não sou um chibo indecente!
Dom Mário: Mas diz-me concretamente: Só me resta desistir?
Lúcifer: Eu não te quero mentir… tens poucas possibilidades!
Dom Mário: Tenho muitas amizades, gente mui bem colocada…
Lúcifer: Mas não te serve de nada…
Dom Mário: Pois é!… isso é verdade… e se tu já garantiste a vitória ao Algarvio…já perdi o desafio…
Lúcifer: Nunca se sabe, amizade!
Dom Mário: Nunca se sabe?!… Mas então…
Lúcifer: Eu não disse sim nem não, há uma possibilidade!
Dom Mário: Jura que falas verdade!
Lúcifer:Juro verdade, verdadinha!
Dom Mário: E essa possibilidade, pode saber-se qual é?
Lúcifer: Ai pode pode, Olaré!… Diz-me lá velho xéxé, que podes tu oferecer?
Belzebú:(em surdina) Ardiloso Lúcifer!
Beleal: (em surdina) Jogando ao gato e ao rato!
Asmodeu: (em surdina) Tá no papo! Tá no papo!
Dom Mário: Tudo aquilo que quiseres!
Lúcifer: Até mesmo a tua alma?
Dom Mário: Até mesmo a minha alma, quero tramar o Algarvio!
Asmodeu:(em surdina)Obsessivo e doentio!
Belzebú:(em surdina)Quer mesmo levar a palma!
Lúcifer: Muito bem, posso pedir a pena, o sangue e o contrato?
Dom Mário: Se o entenderes de facto, pode vir o material!

(Dom Mário assina a venda da alma ao Diabo. Depois de assinado, Lúcifer manda-o sair. Ficam os quatro seres do Inferno em cena.)

Asmodeu: Mas…mestre, compras-te a alma…
Lúcifer: Calma!…eh,eh,eh! aos dois? Claro que sim!
Beleal: Mas…
Lúcifer: Como assim?
Belzebú: Só um poderá vencer…mesmo correndo à batota, confesso não estar a ver, como descalças a bota!
Lúcifer: Não sabeis?…Pois tomai nota que rápido entendereis!

(Vira-se para o Diabrete magarefe)

Lúcifer: Manda entrar esses pasteis!

(Entram Dom Mário e o Algarvio)

Lúcifer: Como eu sou um bonzão que não diz não a ninguém, já repararam e bem que arranjei confusão. Aceitei comprar a alma a ambos os contendores…
Algarvio: Belo serviço, sim senhores!…
Dom Mário: E agora, e agora?
Lúcifer: Deitamos os contratos fora!
Algarvio: Como assim?!
Lúcifer: E só compro a alma a um, que será o vencedor!
Dom Mário: E quem é que escolheis, senhor?
Algarvio: A mim que cheguei primeiro!
Dom Mário: Olha este batoteiro!…
Lúcifer: Calminha aí por favor!
O que eu quero dizer é isto: Vamos fazer um sorteio, que ninguém tenha receio, porque não farei batota. Quem ganhar faz o contrato, vai ganhar a presidência, e aquele que perder…paciência, mete a viola no saco!
Dom Mário: Não sei, não sei!…
Algarvio: Eu também não!…
Lúcifer: Ou recorremos então a uma terceira via!
Dom Mário: Mas existe?! Quem diria!
Algarvio: E de que consta essa via?
Lúcifer: Que um e outro contrato sejam válidos de facto, sendo que garantirei…
Dom Mário e o Algarvio: Que?…
Lúcifer: Que com mais ninguém negociarei e que um de vós vai ganhar!
Dom Mário e o Algarvio: Está bem, vamos aceitar!
Lúcifer: Então fica combinado, que agora daqui para a frente, no que toca ao Presidente, não me meto nesse fado. Sendo assim fica acordado, vou guardar os documentos, que não há mais argumentos e está o caso encerrado!

(Saem Dom Mário e o Algarvio, muito pensativos,. Após a saída destes… )

Asmodeu-Beleal-Belzebú: Ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah! Nunca na vida topamos golpada tão genial!
Lúcifer: Que esperavam afinal? Que desse algo aos dois tótós?
Beleal:Mas confesso aqui para nós, eu vi a coisa tremida!
Asmodeu: Também vi a nossa vida que parecia andar para trás!
Belzebú: Mas patrão, tu és um ás!… P’r’alguma coisa és o chefe!
Lúcifer: Chama lá o magarefe! Que guarde bem os contratos!
Diabrete: Chamou senhor meu patrão?
Lúcifer: Toma lá isto na mão e guarda tudo no cofre, e muito bem guardadinho!
Diabrete: Descanse meu patrãozinho, que lá nem entra o Diabo!
Todos: Este chavalo é danado, eh,eh,eh,eh!
Lúcifer: Bem… vamos lá a atacar as favas com entrecosto, um almoço que é um gosto, só é pena já estar frio!
Lúcifer: Chamemos lá o vadio do magarefe outra vez!
Diabrete: Que ordenais vós agora?
Lúcifer: Que mandais sem mais demora avivar lume à fornalha, e trazei uma toalha, copos, pão e os talheres, despachai-vos se puderes, sê velôz e dá ao rabo, temos fome de diabo pois passa bué da hora!

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Lá Vem a Nau Catrineta (56)

Novembro 12, 2005

novembro 12, 2005

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar…

De rosa se fez zarpar
para uma nova demanda
é D. José quem comanda
esta Nau em alto mar
dessa aventura sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
outra história de pasmar

Estava o pobre Capitão
no camarote enterrado
e muito preocupado
p’lo estado da embarcação
tudo da gávea ao porão
em risco de sossobrar
por isso urgia encontrar
a tábua da salvação

“Ai de mim que estou metido
num colete de onze varas
ouve Zé, se tu não paras
vais ao fundo, é bem sabido
pois bem, o trunfo escondido
chegou hora de o jogar:
Ó do leme, toca a andar
já estou mais que decidido!”

“E qual o rumo a tomar
D. José, meu Capitão?”
“Rumo ao Sul, vento Suão
até eu mandar parar
agora vou ordenar
ao contramestre Varela
que suba tudo o que é vela
quero esta Nau a voar!”

E por sobre o mar voou
a ditosa Catrineta
desde Belém à Fuseta
e o Algarve ultrapassou
sempre a voar não parou
galgou a costa africana
em menos de uma semana
quando D. José bradou:

“Alto aí, toca a travar
que já vejo o Bojador!”
“E agora , meu Senhor?…”
“Ruma p’ra lá, toca a andar!”
“Mas que quereis vós encontrar
nesta latitude agreste?”
“Ainda não entendeste?…
Vou d’encontro’Adamastor!

Ó da furna!… Ó do Penedo!…
onde estás, ser secular?”
-nisto um ronco de aterrar
fez borrar tudo de medo-
“Quem me chama assim tão cedo?
Quem ousa vir-me acordar?”
“Sou eu, ò monstro do mar
porque estás tu tão azedo?”

“De quem são a embarcadura
e as velas onde me roço?!…”
– disse rodando, imundo e grosso
a horrenda criatura-
“Ouve bem, cabeça dura
não armes em carapau
e não te encostes à Nau
que lhe estragas a pintura

Fica a saber que a barquinha
ó monstro horrível de um raio
é de El-Rei Jorge Sampaio
cognome O Cenourinha!…”
“E o cordame, a balsinha
a gávea que agora toco?”
“Mas tu por acaso és mouco?!
são de El-Rei D. Cenourinha!”

“Espera lá…eu já cantei
esta lenga-lenga, ó meu!…
foi com um tal Bartolomeu
a quem com o qual me passei!…
depois disso até fiquei
de cama o Inverno inteiro
ah! maldito marinheiro
mais sem medo nunca achei!…

Assim, p’ra eu não viver
tal cena mais uma vez
diz, Capitão português
que vieste aqui fazer?”
“Ora então não estás a ver
mostrengo grosso e imundo
que vive no fim do mundo?…
vou à Índia abastecer!…

Ouro, pimenta, acafrão
cravo, canela, aloês
e fico rico outra vez
tal como El-Rei D. João
vais ver que a minha nação
da Catrineta encantada
virará menos de nada
próspera e rica como então!”

“Olha este, está chalado
pirou de vez, coitadinho
e daqui a bocadinho
também eu fico pirado
confesso; estou saturado
Portugueses? Ó Deus meu!
primeiro um Bartolomeu
e agora este chanfrado!…

Ouve lá ó meu estarola
vê se fazes marcha a ré
e pára de ser choné
vê se bates bem a bola
arça as velas, dá à sola
que o tempo desses eventos
foi na era de quinhentos
e a malta era de outra escola!…

Sereis sempre uns desgraçados
homens da Nau Catrineta
o baú não leva cheta?…
nem ao menos dois cruzados?…
perguntem aos arvorados
essa súcia de ladrões
roubam milhões e milhões
e nunca estão saciados!”


No Solar da Rosa (4)

Novembro 10, 2005

novembro 10, 2005
* No Solar da Rosa
O SOLAR DA ROSA

Nesta tasquinha bizarra
de ambiente bem sadio
ao doce som da guitarra
canta-se o fado vadio

***** ***** ***** *****
Apresentador:Boa noite senhoras e senhores, respeitável público. É com o prazer do costume que vos voltamos a dizer: SEJAM BEM VINDOS AO SOLAR DA ROSA…
(Palmas do público)
… Hoje temos o grato prazer de anunciar uma inovação de estilo, a qual penso vir a bar brado…
Um do público: Mau! Quando vocês, os da rosa, se põem com invenções…
Outro:…Geralmente dá merdum!
(Risada geral na plateia)
Outro ainda: Nada de invenções ó professor Pardal, fado é fado com guitarra, viola e fadista, portanto vê lá o que é que vais arranjar!
Apresentador:Tenham calma! Longe de mim vir para aqui desvirtuar a canção nacional!…
Outro: Era só o que faltava!… Mas então desembucha lá ó meia-leca!
Apresentador: Bem… Vão ver que vão adorar. O que eu vos queria dizer é que esta noite vamos ter não um, mas vários fadistas a cantar em uníssono o mesmo fado, ou seja: UM CÔRO!
Outro: Fado em côro?!…Mas que raio de merda é essa?!…
Outro ainda: Não queremos essa trampa ó camelo! Fado é fado e fadistas um de cada vez. No máximo dois, para cantos à desgarrada!…
Ainda outro: Nunca se viu tal coisa ó morcão! Um fado cantado por um coral tipo Ceifeiros de Pias?!
Plateia:Eh,eh,eh,eh!…
Apresentador:(já muito aflito)Calma por favor! E que tal ouvirmos primeiro e pronunciarmo-nos depois?
Um do público: Tá bem ó esticadinho da silva, mas se o espectáculo for uma bosta não vai ficar tábua sobre tábua desta espelunca, ficas desde já avisado!
Toda a plateia:Apoiado!Apoiado!
Apresentador: Pois eu estou plenamente convencido que toda a gente vai adorar o espectáculo e que no final ainda vão pedir bis!
Plateia: Vai-te fiando!… Começa lá essa merda que já chega de conversa!
Apresentador: Então lá vai: Senhoras e senhores, na minha e na vossa presença o grupo coral fadista dos AUTARCAS DE PORTUGAL!
Plateia:O quê?! Ainda por cima é esta cáfila que vem cantar?! Uhuhuhuh!!!! Cambada!!! Chulos!!! Vigários!!! Filhos da P…! Corruptos!Uhuhuhuh!!!…
Apresentador: Então meus senhores? Sejam comedidos por favor! Este grupo de amigos vai interpretar para todos vós o fado “AFINAL ERA A MORAL”. A música é do Ti Alfredo ( Igual à da Rosa Maria da Rua do Capelão) e a letra é dum ferrabrás qualquer que eu não conheço de lado nenhum chamado Zecatelhado. Como sempre, teremos à guitarra o avô Almeida Santos e à viola o Tio-Avô Jerónimo de Sousa. No baixo o baixinho do Marques Mendes e no super-baixo ( não, não é um porta-chaves ) a Anã Droga. Por favor silêncio que se vai então cantar o fado!
(começam a ouvir-se os acordes da guitarra e das violas)
(entram cantando os fadistas)

Côro:Fizeram uma lei bizarra
para calar a’lgazarra
deram-lhe um ar moralista
mas nós velhas ratazanas
como não somos bananas
não lhes baixamos a crista

Passeou de gaveta em gaveta
a funesta lei da treta
até final dos mandatos
numa alegre roda viva
foi andando a respectiva
de Herodes p’ra Pilatos

Logo a seguir a maralha
lá tomou posse na esgalha
toda feliz e contente
protocolo despachado
era o momento chegado
de ordenar ao Presidente

Mande agora publicar
a lei que nos quer lixar
que a gente não quer saber
porque a retroactividade
todos sabem que é verdade
aqui nunca vai valer…

Plateia em geral: Uhuhuhuhuh!!! Olha a lata destes cabrões, ainda a gozar o pagode!… Seus filhos de uma cadela debochada que vão ficar com os focinhos em papas!…
Vamos a eles! Vamos a eles!…
( Desatam todos a correr direito ao palco munidos de cadeiras, garrafas, guarda-chuvas e tudo o que haja à mão e faça mossa. Os autarcas fogem para os bastidores. Os músicos escondem-se debaixo das cadeiras onde estavam sentados. É a confusão total)
Apresentador: Meus senhores!…Meus senhores, civilidade!!!…
Um dos invasores do palco: Tu também vais chupar pela grande; Já estava prometido, portanto…TOMA!
( Enfia-lhe com uma cadeira pela cabeça abaixo e o pobre apresentador cai redondinho no chão. Chega a polícia de intervenção)
Chefe da Polícia: Mas que raio de cagaçal vem a ser este? Já chegámos a Paris ou quê?…
(virando-se para o batalhão)… Porrada nesses cabrões!
(Assiste-se a um autêntico festival de bordoada da grossa nos energúmenos que fogem porta-fora ou pelas janelas. Terminado o arraial a polícia retira-se)
(Escondidos num armário dos camarins, dois autarcas sussurram:)
Autarca 1: Pôrra! Nunca mais me meto noutra. Dou aqui por terminada a aventura de fadista nas horas vagas!
Autarca 2: Eu igualmente! Este povo é uma súcia de arruaceiros e de gente mal-formada. Se uma pessoa os engana e lhes mente descaradamente, é o maior e levam-no em ombros, mas se pelo contrário diz a verdade, ó da guarda…filho disto e daquilo… e ainda está sujeito a levar uns palmadões em cheio nas ventas!


Bate o Pau e Sobe o Pano (2)

Novembro 1, 2005

novembro 01, 2005

É o Armagedão, compadre!

Zé Quinteiro: Pois sabei compadre Zé, estou muito preocupado!

Zé Hortelão: Estais bué mal encarado, podeis dizer a razão?

Zé Quinteiro: Já chegou o Armagedão, castigo da humanidade…

Zé Hortelão: Para falar a verdade, não entendo o que dizeis!

Zé Quinteiro: Como não entendeis? Já se ouvem as trombetas! Já escutamos o seu som!

Zé Hortelão: (O compadre não está bom!)De que falais afinal?

Zé Quinteiro: Falo do Juízo Final, pois que sou homem de fé!

Zé Hortelão: Confesso compadre Zé, não entendo patavina!

Zé Quinteiro: Vai cumprir-se a nossa sina, tal e qual a professia!

Zé Hortelão: Não tarda nada é meio-dia e ainda nada entendi!

Zé Quinteiro: Vou explicar-lhe o que ouvi
ao prior da freguesia:
Disse ele alto e bom som
que esse tal Armagedon
ou também Armagedão
na terra se cumpriria
quando se instalasse o dia
da plena confusão!

Zé Hortelão: Ora entendi, e então?!…
o bom compadre acredita…
(já se passou da marmita)
que chegou o Armagedão?

Zé Quinteiro:Então não?!…
só pode mesmo compadre
perante o que estou a ver
ou estou a ensandecer
ou tinha razão o padre!

Zé Hortelão: ( Está doidinho de verdade
passou-se mesmo, é real)
Mas o que o leva afinal
a ter assim a certeza?

Zé Quinteiro: Atentai na subtileza da Divina professia:
as galinhas engripadas
os porcos com triquinose
os coelhos com a matose
e as vacas amalucadas!…

Zé Hortelão: (Talvez sejam infundadas as dúvidas da sanidade…)
Para vos falar verdade
também tenho mal na porta
pois já produzo na horta
mais veneno que hortaliça

Zé Quinteiro: Você também?!… Chiça!!! Isso não é brincadeira?

Zé Hortelão: Pois sabei que na minha leira já nada cresce sem químico…

Zé Quinteiro: E o vosso poder anímico…

Zé Hortelão: Vai-se pela ribanceira!…

Zé Quinteiro: Por isso meteis sulfato…

Zé Hortelão: …É um facto, é um facto…
Dos grelos aos agriões
dos tomates às nabiças
couves, batatas, feijões
todo o tipo de hortaliças!

Zé Quinteiro: Aposto as minhas suíças…
Só pode ser, Hortelão
penso que o tempo é chegado
o tal tempo anunciado
de seu nome Armagedão!

Zé Hortelão: Sim, talvez tenha razão
Zé Quinteiro, meu compadre
e pelo sim pelo não
vamos lá falar com o padre

( Enquanto os compadres se dirigem ao encontro do prior, dois inimigos figadais de antanho que haviam escutado tudo, retrucavam:)

Diabito Maldito::
Estás a topar velho alado
no que as vossas tretas dão?
ai tu e o teu patrão
mas que duo mais chalado!

Anjo Marmanjo: :
Vê lá se ficas calado
ó da cornadura esbelta… (ih,ih,ih!)

Diabito Maldito::
Olhem-me este asa delta
castigador do pagode!…

Anjo Marmanjo: :
Fecha a boca pés de bode
caixa córnea da desgraça!…(ih,ih,ih!)

Diabito Maldito::
E as tuas asas sem graça?
-tomaram ser meus chifrões-
mais feiosas que as da taça
da liga dos campeões!…(eh,eh,eh)

( Os compadres acabam de ser recebidos pelo padre )

Padre: Ora vivam meus irmãos, a que devo este prazer?

Zé Quinteiro:Padre, está a acontecer o tal de Armagedão!…

Zé Hortelão:E a sua opinião nós queríamos escutar.

Padre: Comecem lá a falar!… (estes estão doidos varridos)

(contam ao padre as suas razões)

Zé Quinteiro:… Estamos assim convencidos e em sintonia total…

Zé Hortelão:… De que o Juízo Final já começou a ocorrer!

Padre: (sorrindo) ( na verdade, é bom de ver, perderam mesmo o juízo)
Meus irmãos vou ser conciso
e explicar direitinho
muito bem explicadinho
o que será o Juízo

Vacas loucas sempre houve
e galinhas engripadas
e há muito comemos couve
e batatas sulfatadas

Podem vocês sossegar
podeis ir em paz embora
quanto o tal dia chegar
eu mando avisar na hora

Para já comam galinhas
coelho, vaca, leitão
batatas e umas couvinhas
que vem longe o Armagedão

Ele só virá no dia
que suceder fatalmente
estar a panela vazia
e a malta não dar ao dente!