Lá Vem a Nau Catrineta (54 e 55)

Outubro 20, 2005

outubro 20, 2005

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar…

De rosa se fez zarpar
p’ra uma nova demanda
é D. José quem comanda
esta Nau em alto-mar
Dessa aventura sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Rio abaixo navegando
ao sabor da correnteza
a pobre Nau portuguesa
ao “Deus-dará” ia andando
pelos cantos cochichando
toda a gente conspirava
porque a barca à toa andava
sobre as águas balouçando

“Dizem estar desnorteado
D. José, o Capitão
e se é essa a razão
está todo o mundo tramado
a Nau só anda de lado
não consegue andar p’rá frente
e quem se lixa é a gente
que não vê o fim ao fado

Neste balançar constante
neste “não ata ou desata”
a sorte teimava ingrata
em levar a sua avante
e o remate triunfante
surgiu como por encanto
quando outra história de espanto
despoletou de rompante

Já se fazendo sentir
um friozinho “à maneira”
o tesoureiro Teixeira
apitou a reunir
após se fazer subir
para o cimo de um barril
falou com voz de funil
p´rá turba que estava’ouvir

“D. José manda formar
toda a gente no convés
mexam-me lá esses pés
que pareceis lesmas ‘ andar
saibam vai anunciar
em que estado anda o baú
e diz querer pôr tudo a nú
sem nada nos ocultar”

“Já vejo pelo entroito
e também p’la “mise en scene”
parecendo missa solene
que estamos feitos num oito
aposto rum e biscoito
uma onça de tabaco
mais as calças e o casaco
e umas férias no Magoito”

“Ah,ah,ah!…”-ria a cambada
das palavras do malvado
um tal de Zecatelhado
que largara a bacorada
“Eu cá não aposto nada
porque perco de certeza
nem sequer a sobremesa
de rançosa marmelada”

“Fechem lá a cloaca
seus bardinos sem vergonha
vós só destilais peçonha
sempre que abris a matraca
reais filhos de uma vaca
corja de língua viperina
do timoneiro ao fachina
sois todos a mesma caca…”

Foi Teixeira interrompido
p’lo Capitão que chegava
e que na mão segurava
um rolo grosso e comprido
tinha o rosto amarelecido
e as pálpebras inchadas
orelhas avermelhadas
e um ar muito abatido

“Marinheiros desta Nau
ó povo nobre e valente
lusa raça, heróica gente
sabei que isto está mau
tesos como um carapau
o baú sem um dobrão
nem temos pilim p’ró pão
quanto mais p’ró bacalhau

Vamos agarrar no cinto
e fazer mais um furinho
não nos resta outro caminho
podeis crer que não vos minto
e vós julgais que eu não sinto
a dor que vos vai na alma?
mas com paciência e com calma
saimos do labirinto

Sabei também que os culpados
deste estado desditoso
são Santanás e Burroso
esses Capitães danados
comandantes estouvados
dois doidos incompetentes
e dos tacanhos tenentes
uns oficiais falhados

Sendo assim está bem de ver
temos muito que penar
pergunto-vos p’rá’cabar
há perguntas a fazer?
estão todos a perceber
toda a causa deste azar
e o que temos que enfrentar
p’ra que o possamos vencer?”

“Não se esforce Capitão
que a malta da Catrineta
sobre essas loas da treta
conhece letra e refrão
entre vós e D. Burrão
existe alguma diferença?
direi mais, dai-me licença
sois dedos da mesma mão

Quanto a essa obra prima
a que chamais orçamento
digo-vos neste momento
para não quebrar a rima
guardai-o com muita estima
fazei dele um canudinho
depois com muito jeitinho
metei-o p’lo cú acima!”

outubro 05, 2005

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar…

De rosa se fez zarpar
p’ra uma nova demanda
é D. José quem comanda
esta Nau em alto-mar
Dessa aventura sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Com a Catrineta à bolina
rio abaixo acelerada
mais uma história malvada
engrossou a triste sina
desta Nau que não atina
em achar rota segura
e ond’é fatal a’margura
estar sempre ao virar da esquina

Mas como ia dizendo
este escriba vosso irmão
que com a pena na mão
estes versos vai escrevendo
estando a pobre Nau correndo
p’lo rio do desencanto
um’outra história de espanto
desabrochava em crescendo

“Quero a bujarrona içada!”
bradou alto D. José
p’ró contramestre que à ré
berrava com a marujada
ao ouvir a ordem dada
p’lo Capitão imperial
diz o nobre oficial
com voz de cana rachada:

“Isso também eu queria
meu Capitão general
ordenei a este animal
miolos de cotovia
daqui a pouco há meio dia
que içasse a pôrra da vela
mas o tipo ou está piela
ou surdo como uma enguia!

Será que temos motim
ou uma greve geral?
ou será que este pardal
quer fazer pouco de mim?
pois bem, se isso é assim
não vai tardar um ‘stantinho
leva um estalo no focinho
e acaba-se o chinfrim!”

“Deixe de ser fanfarrão
e metá lá A.B.S.
já chega um no P.S.
com pinta de campeão
não vai ser ao estaladão
que esta Nau encontra o rumo
é com diálogo, presumo
com bom senso e’ducação

Fala lá meu desgraçado
homem desta caravela
porque não içaste a vela
como te foi ordenado?…”
“Meu senhor, eu estou pasmado
ninguém me deixa falar
quando tentei explicar
estive quase a ser linchado!

E pobre de mim coitado
sem ter culpas no cartório
augurei o meu velório
e à água ser lançado
ou ficar dependurado
como exemplo p’rá geral
ali no mastro real
e p’las aves devorado!”

“?!…Andaste no absinto
ou estás a ensandecer?
deves ter andado a ler
a saga do Mendes Pinto
é que é isso que pressinto
ao ouvir um tal chorrilho
…já adivinho, meu filho
andaste em provas de tinto!

Falemos sério, em suma:
porque não subiste a vela?”
“Mas meu senhor, cadê ela?
não temos vela nenhuma!
que o inferno me consuma
se isto não é verdade
juro pela eternidade
que não temos vela alguma!”

“Mau, mau, mau, mau, mau, mau, mau…!
não percebo patavina
desta conversa cretina
ó marujo desta Nau
fala a sério, põe-te a pau
ou cago p’rá tolerância
e opto pela arrogância
p’ra te tratar, meu calhau!”

“A velha vela tecida
nos teares da Covilhã
anteontem de manhã
deu o berro, foi à vida!
já estava tão carcomida
pela traça tão esgaçada
passajada, remendada
que pifou de tão cosida!

Telefonei logo de cá
p’rá Covilhã, já se vê
mas sabe vossa mercê
o que disseram de lá?
“Ó homem, não sabe já
que os lanifícios fecharam?…
faliram, já acabaram
por isso pano…não há!”

“Ó diacho!…em que ficamos?
lembrei-me do Vale do Ave
o problema era grave
pois sem vela não andamos
e se nós já navegamos
em mares de fel e vinagre
sem velas só por milagre
é que não nos afundamos

Mas do Ave, com efeito
a resposta foi igual
“…é que agora em Portugal
já compramos tudo feito!
vendo bem, tinha algum jeito
fazer velas, cobertores
nós um país de doutores
de gravatinha a preceito?”

Engraxando o tagarela
perguntei com voz suave:
e vossa excelência sabe
quem fabrica agora a vela?
precisamos tanto dela
que o senhor nem imagina
queremos uma, grossa ou fina
por mais que seja fatela!”…

“E ele não te indicou
quem a vela vende agora?”
“Claro senhor, na hora
o homem lá me safou!
por isso agora aqui estou
debruçado nesta ponte
a olhar o horizonte
esperando p’lo senhor Who!”

!?…Senhor Who?!… é japonês?”
“Chinoca, meu Capitão
são os caras de limão
quem as fabrica de vez!
Olhem, lá vem o freguês
no seu junco e a cantar
faça o favor de contar
o pilim para o chinês!”

Atracou o chinesito
estendeu a mercadoria
enquanto a sorrir dizia:
“eis a vela, venha o guito!
Saibam que estou aflito
pois tenho mais p’ra entregar
isto é um «sempre a aviar»
nem tempo há p’ra um copito”!

“Vê lá se ainda te matas!
eh,eh,eh! sabem vocês?
eu já vi este chinês
na baixa a vender gravatas!”
“Eh,eh,eh! e eram baratas?”
“cinco escudo a escolele!”
“eh,eh,eh!, ria a valer
um da turba já de gatas

Mas o chinês que escutava
o que os labregos diziam
quanto mais eles se riam
mais o homem cogitava:
“Por esta já eu esperava
isto é gente sem miolo
pensam que sou um parolo
com isso já eu contava

Já nenhum quer fazer nada
pensam comprar tudo feito
pois bem, é desse jeito
que a tumba vai ser cavada
será essa a vossa enxada
FORÇA COVEIROS DO DEMO
cavem bem de extremo a extremo
e esperem pela pancada

Nós fazemos, vós comprais
mas ainda pagais pouco
o chinoca não é louco
não vai já cobrar demais
não vai espantar os pardais
toca a agir com prudência
vós bem sabeis que paciência
é o que nós temos mais

O grande dia há-de vir
em que só tereis dinheiro
tudo doutor e engenheiro
mas ninguém p’ra produzir
e quem vos irá servir
velas, cordame, sabão
batatas, arroz e pão
que precisais consumir?

Quanto ao preço, quanto ao valor
seremos nós a fazê-lo
«eis o pão, quereis comê-lo?
preço de ouro, e por favor!»
grande será o estupor
quando a cagança cair
serei o último a rir
mas o que rirá melhor!”

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