No Solar da Rosa (3)

Setembro 25, 2005

setembro 25, 2005
* No Solar da Rosa
O SOLAR DA ROSA

Nesta tasquinha bizarra
de ambiente bem sadio
ao doce som da guitarra
canta-se o fado vadio

***** ***** ***** *****
Apresentador: Muito boa noite meus senhores e minhas senhoras, respeitável público. Bem vindos a mais uma sessão fadista na afamada casa “O Solar da Rosa”. Esta noite temos o grato prazer de anunciar a estreia mundial de uma nova estrela do fado; Senhores e senhoras, na minha e na vossa presença a senhora juíza do Tribunal de Felgueiras, senhora doutora Maria Gabriela, para interpretar o fado: “ANDAVA NO GAMANÇO A DESGRAÇADINHA” e que dedicará de corpo e alma a essa ilustre perseguida do holocausto dos políticos invejosos, doutora Fátinha de Felgueiras…

Parte do Público:Uhhh!….vai-te embora ó melga!…Uhhh!vendida!corrupta! subornada!…Uhhh!…

Outra parte do público:Clap!Clap!Clap! Viva! Viva a grande justiceira do povo! É assim mesmo! Dá-lhe com força, grande Joana D’Arc da Magistratura Tuga!… Clap!Clap!Clap!…

Apresentador: Meus senhores, por favor! Já vimos que a plateia está dividida mas sejamos democráticos! Em democracia toda a gente tem direito a expressar a sua opinião e vontade, e esta ilustre senhora, cidadã e fadista não pode ser excepção, por favor!…

Público afecto à fadista: Muito bem! Clap!Clap!Clap! deixem cantar a miúda, seus fascistas centristas laranjistas comunistas anti-democráticos!…

Público hostil: Uhhh! Vai-te embora ó vergonha da justiça! Uhhh!…

(Perante o clima escaldante que se gera na plateia – fadista já a chorar e tudo – saltam para o palco dois dos gerentes do Solar da Rosa, mais precisamente Jorge Coelho e António Victorino )

Jorge Coelho: Mas que raio de merda é esta, ãh?… Pois meus senhores, que raio de merda é esta?… Onde é que está o espírito democrático do povo português, ãh?…

António Victorino: Ora toca lá a calar o trombone, cambada de ordinários! Isto realmente… cada povo tem o que merece! Cambada de ordinários, pá! Os portugueses são pessoal das barracas e nunca o deixarão de ser, por mais que disfarcem!…

Público hostil: Cala-te mas é tu ó meu João Feijão da treta! Também nos saís-te um bom trapalhão, meu caga-rente ao chão do caraças!…Uhhh!Uhhh!

Público afecto: Canta! Canta! Canta!…

Público hostil: Não canta! Não canta! Não canta!…

(Perante o cenário eminente de confronto entre as claques e o fiasco dos apaziguadores que só deitaram mais gasolina para a fogueira, o apresentador joga a última cartada)

Apresentador: Calma! Calma! Meus senhores, não vêem que a ilustre fadista é a única artista que temos hoje para cantar? Se ela não o puder fazer não há espectáculo, e vocês pagaram – e bem – para aqui estar!

Público hostil: Não canta! Não canta!… Queremos o nosso dinheiro de volta já!

Apresentador: O dinheiro de volta?!… Não pode ser!…

Público hostil:Gatuno, gatuno, gatuno!…

( Voa uma garrafa de “Porca de Murça” tinto direita ao palco e acerta em cheio na testa do apresentador que cai redondinho. É a faísca que despoleta a tempestade. Após alguns minutos largos de pontapés, chapadas, cadeiradas e garrafadas, entra a polícia de choque e prende todos os que ainda estão de pé.
Após o silêncio que se segue, uma figurinha minúscula sai de trás da bambolina da esquerda-baixa onde se tinha escondido. É a viola-baixo, que se aproxima do pobre apresentador estendido no chão, inconsciente. Dá-lhe palmadinhas na cara tentando despertá-lo)

-Viola-Baixo( Que é nem mais nem menos que Maria de Belém Roseiro): Acorde homem de Deus!… Tchap,Tchap,Tchap! Acorde!…

( Aos poucos, baralhado, o homem vai despertando )

Apresentador: Ai a minha cabeça! Ai!… Mas o que é que aconteceu?! Quem é a senhora?!…Ai!… é alguma enfermeira, é?…

Maria de Belém: Enfermeira eu?! Ora essa!… Sou a Maria de Belém!…

Apresentador: Maria de Belém?!… Qual?!… a Nossa Senhora?!… Não me diga que estou no céu!…

Maria de Belém: Qual céu, qual Nossa Senhora, qual carapuça!… sou eu, a viola-baixo do Solar da Rosa!… Você levou uma garrafada no toutiço e ainda está meio chéché! Levante-se lá devagarinho que tem que ir ao hospital levar uns pontos na testa. Tem aí um lindo lenho!

Apresentador: Ai!… Já me lembro de tudo!… Filhos de uma cadela, o que fazem passar a um desgraçado que só está aqui a ganhar o pãozinho de cada dia!… Bandidos!… E a miúda?…Onde está a miúda?

Maria de Belém: Quanto a isso esteja descansado, não há problema algum com ela. Ouvi-a ao fugir para os bastidores, dizendo alto e bom som que ia tratar de passar mandatos de prisão preventiva sem recurso a todos os arruaceiros. Vai ver como esses energúmenos vão aprender de vez como se faz justiça em Portugal.

Anúncios

Lá Vem a Nau Catrineta (52 e 53)

Setembro 22, 2005

setembro 22, 2005

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar…

De rosa se fez zarpar
p’ra uma nova demanda
é D. José quem comanda
esta Nau em alto-mar
Dessa aventura sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Estando Outubro já de entrada
fazendo as malas o Verão
indo-se o vento Suão
chegada a fresca nortada
na bela barca encantada
subia à cena entretanto
um’outra história de espanto
que merece ser contada

Duas semanas andadas
que alguma tropa fandanga
dera o grito do Ipiranga
convencendo os camaradas
que as nobres forças armadas
orgulho e escol da nação
quanto à aposentação
estavam a ser fornicadas

E a saúde? À pois é!
também os queriam lixar
era preciso lutar
fazer um real banzé
Iriam juntos, a pé
desfilar em desafio
pelo convés do navio
desde a proa até à ré

Mas o senhor D. Amado
-o tal da barba charmosa-
lugar-tenente da Rosa
que manda neste coutado
na hora pressionado
p’la brigada do reumático
fez uso d’um profilático
à maneira do passado

Assim sem mais demasias
consultado D. José
o galante granizé
fez saber sem cortesias:
“Deixem-se de fantasias
meus senhores, estão proibidos
de marchar, ou estão fodidos
e vão todos p’ra Caxias!”

Mas se a tropa mastigou
a merda, não a engoliu
e uma pantomina urdiu
que o sacaninha fintou
Foi quanto alguém se lembrou
– salvo erro era um alferes-
que marchavam as mulheres
e todo o caso mudou

“Vais ver, ó flibusteiro
quem vai rir no fim da história!”
gritava a dona Vitória
que era mulher de um lateiro
do tipo Major Loureiro
alcaide de Gondomar
que continua a ostentar
a’lcunha do “batateiro”

“Só mulheres, diz o sebento?
muito bem, está decidido!”
e agarrando num vestido
meteu lá dentro o sargento
com dotes d’arte e talento
correu o fecho “eclair”
e o diacho da mulher
não parava um só momento

“O vestido é uma graça
agora venha a peruca
vou enfiar-ta p’la cuca
e corto-te a bigodaça
com mais um boião de massa
base, baton, lanolina
vais passar por puta fina
no canto de alguma praça”!

Ao olharem p’ró sargento
que virara travesti
a malta que estava ali
presente naquele momento
berrou de contentamento
e travestiu-se também
todos de senhoras-bem
cheias de charme e espavento

E foi assim que marcharam
pelo convés em cordão
mas eis que houve um senão
com o qual nunca contaram
e a perder tudo deitaram
quando um bando de tarados
“matchos latinos” danados
às “beldades” se atiraram

A tourada à moda antiga
que a seguir se passou
eu descrevê-la nem vou
pois imaginam a briga
ah! portugas de uma figa
que até o diabo eterno
quase morreu no inferno
rindo com as mãos na barriga

setembro 20, 2005

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar…

De rosa se fez zarpar
p’ra uma nova demanda
é D. José quem comanda
esta Nau em alto-mar
Dessa aventura sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Havendo Setembro entrado
neste Ano Santo da Graça
cheirando ainda a fumaça
de tanto lenho queimado
repetindo o triste fado
da lusa alma em quebranto
eis que outra história de espanto
deixa tudo alvoroçado

Há muito se suspeitava
-ou melhor: Era evidente-
aos olhos de toda a gente
como esta coisa acabava
Cavalo que prova a fava
já não quer palha ou ração
-diz o povo e com razão-
era só o que faltava!

Devem ter adivinhado
ao que me estou a referir
e devem estar a sorrir
tal como o Zecatelhado
Não podia estar errado
quando há tempos afirmei
que quem viria a ser Rei
era o velhinho anafado

D. Aníbal esperançado
em poder herdar a coroa
deve ter ficado “em broa”
e pode esperar sentado
este D. Mário é danado
o cota é “p’rá frentex”
dos dinossauros é Rex
de todos o mais malvado

Vou parar a ladaínha
que já vai longo o entroito
vou já largar o “biscoito”
e dar palavra à maltinha
que no convés à tardinha
discutia com paixão
o caso da sucessão
de D. Jorge, “O Cenourinha”

“Esse gajo tá velhadas
que vá mas é p’ró asilo
faz-me lembrar o Camilo
e aquelas porno-chachadas
As pernas já estão pesadas
e a pança roça as virilhas
o cinto rasga as presilhas
quando as banhas são prensadas”

“Eh,eh,eh!…- ria o parceiro
do que largara a tirada-
…Olh’essa está bem esgalhada
e tens razão, companheiro
Este velho é um gaiteiro
pior que a’legre viúva
faça sol ou faça chuva
vai a todas bem lampeiro!”

“E o pobre do poeta?
qual Kalimero chorão
sentindo fundo a traição
do seu amigo da treta
sem por um ar de “vendetta”
saiu de rabito alçado
furibundo, desolado
com a alma na sarjeta !”

“Acho bué de indecente
o que fizeram ao pobre
um homenzinho tão nobre
e querido por tanta gente
Mas quem é que não se sente
experimentando a punhalada
cobardemente cravada
«made in Brutus», bem de frente?”

“Pois cá o “je” sente pena
e jura: Está solidário
com o pobre poeta otário
enredado nesta cena
Aposto uma milena
que citou de dedo em riste
o …e alegre se fez triste…
que escreveu num tal poema!”

“Eu então já decidi
irei votar em D. Mário
é velho como o fado Hilário
mas tem uma coisa em si
que nos outros que já vi
ir p’ráí papagueando
não conseguem nem comprando
dar-me esse prazer a mim!”

“Essa agora, meu maroto
desembucha lá então
e diz-nos qual a razão
que conquistou o teu voto
O que é que trazes no goto
sabendo que és brincalhão
calculamos de antemão
ir sair traque ou arrôto”

“P’ra ele há sempre amanhã
mesmo aos cem anos de idade
acreditem que é verdade
e não uma ideia vã
Saibam Cavaco e Louçã
que o fixe do Mário Alberto
aos noventa é mais que certo
querer o lugar do Annan!”