Bate o Pau e Sobe o Pano (1)

Julho 25, 2005

julho 25, 2005
*Na barca com mestre Gil

* Na Barca do Inferno de Mestre Gil
Auto de moralidade composto por Zecatelhado por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Dª Maria Rita, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei D. Cenourinha, primeiro de Portugal deste nome. Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos subitamente a um rio, o qual per força havemos de passar pera o inferno: o batél tem um seu arrais na proa: o Berzebú infernal e um companheiro.

DIABO
À barca, à barca, houlá! que temos gentil maré! – Ora venha o carro a ré!

COMPANHEIRO
Feito, feito! Bem está! Vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco, pera a gente que virá.
À barca, à barca, hu-u! Asinha, que se quer ir! Oh, que tempo de partir, louvores a Berzebu! –

DIABO
Ora, sus! que fazes tu? Despeja todo esse leito!

COMPANHEIRO
Em boa hora! Feito, feito!

DIABO
Abaixa aramá esse cu!
Faze aquela poja lesta e alija aquela driça.

COMPANHEIRO
Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!

DIABO
Quem és tu?

FIDALGO
Sou da ilha, mê senhor!…

DIABO
De que ilha meu estupôr?

FIDALGO
Da Madeira, pois então?

DIABO
Eis que aqui tenho um cabrão!…

FIDALGO
Um quê, barqueiro maldito?

DIABO
Um cabrão! Ouvisto o dito…

FIDALGO
Espera aí que vais levar!…

DIABO
Acaso estás a brincar?

FIDALGO
Isso é o que digo eu!

DIABO
Olha este endoideceu!

FIDALGO
Sabei vós que sou um Rei!

DIABO
Eh,eh,eh,! Já me mijei!…

FIDALGO
E a seguir vais-te cagar!

DIABO
Põe-te lá no teu lugar, não sabes que estás morto?

FIDALGO
Olha lá, o méu aborto!…

DIABO
Cala-te já e embarca!

FIDALGO
Mas p’ra onde vai a barca?

DIABO
Pró Inferno, meu banana!

FIDALGO
Pró inferno, meu sacana?

DIABO
Direitinha sem desvios!

FIDALGO
Mas eu fui um homem santo!…

DIABO
Ao pé de ti sou um anjo!…

FIDALGO
Olha p’ra este marmanjo!…

DIABO
Coze a boca a esse pulha!

COMPANHEIRO
Não sei onde puz a agulha…

DIABO
Mija na agulha e caga na linha!

COMPANHEIRO
É p’ra já bem depressinha!

DIABO
Vamo-nos pôr a caminho
Calou-se a boca do chibo
ao Inferno já arribo
que se faz tarde na hora
levar mais alguém agora
com este monte de merda
só se fosse um tal Lacerda
p’ra lhe estalar o focinho


No Solar da Rosa (2)

Julho 22, 2005

julho 22, 2005
* O Solar da Rosa
O SOLAR DA ROSA

Nesta tasquinha bizarra
de ambiente bem sadio
ao doce som da guitarra
canta-se o fado vadio

***** ***** ***** *****

– Meus senhores, minhas senhoras, estimado público aqui presente:
Vai ser inaugurado oficialmente dentro de momentos, pelo gerente máximo desta casa, o senhor engenheiro José Fócrates, Grão-Mestre da Loja Rosa, este espaço que se pretende de todos: Rosas, laranjas, vermelhos, azuis, verdes e côr-de-burro-quando-foge, e todas as demais cores que possam algum dia vir a sentar a “panela” no Parlamento.
Pretende-se que, recorrendo à forma mais original de ser português, que é o fado, venham aqui ilustres representantes parlamentares explicar aos portugueses em linguagem que eles entendam – cagando pura e simplesmente no políticamente correto -quais são os reais problemas com que se debatem as diversas Lojas, e, repito, que melhor linguagem senão aquela que o povo luso herdou geneticamente e que se chama FADO?
Mas… não me vou alongar mais e passo de imediato a palavra ao nosso Grão-Mestre e Gerente Máximo desta tasca, o senhor Engenheiro Fócrates.

( aplausos )

– Portugueses!…
– Ó senhor engenheiro, não se esqueça que aqui não se fazem discursos…
– Ai! desculpem lá! esqueci-me desse pormenor…

( risos na sala )

– …Senhores e senhoras, estimável público…

( Úhuhuhuhuhuhuh… já ouvimos! )

– … Pronto…bem… então está tudo dito. … Divirtam-se!

( aplausos )( volta o apresentador )
– Meus senhores, minhas senhoras…

( outra vez? Uhuhuhuh… )
– Bem… tenho então a honra e o prazer de anunciar o primeiro convidado desta noite. Senhores e Senhoras, na minha e na vossa presença o Grão-Mestre da Loja Vermelha, o senhor camarada Jeronimoniev de Sousisky!

( aplausos )

– Camaradas!…

( algumas vozes: Uhuhuhuhu.. )
– …Amigos!…

( aplausos )

É com muita honra e prazer que equi estou; Os camar… da Bombardier(!?)…

( Uhuhuhuhu.. )

– …desculpem lá, eh,eh,eh! troquei os discursos… Bem: O nosso maior problema lá na Loja é a falta de irmãos activos. O trabalho está todo atrasado e a malta está pelo pescoço com trabalho atrasado. Este pessoal de agora já não é como o de antigamente, que fazia tudo por amor à camisola( ou seja: à causa ). Agora faz-se tudo a troco de dinheiro ou géneros e portanto a malta está tramada. Eu vou dar-vos um exemplo: Para arranjar-mos pessoal para colar os últimos mil cartazes que mandámos imprimir, tivemos que fazer uma parceria com a telecel que nos forneceu cinquenta télélés para os marmanjos da cola. O preço da brincadeira (a tal parceria) foi colocar no cartaz o nome do parceiro. Agora vejam bem como ficou a merda do cartaz:

A LOJA VERMELHA APOIA O PROTESTO DOS PORTUGUESES

CONTRA AS ESCUTAS TELEFÓNICAS

Éste cartaz tem o patrocínio da Telecel

( risada geral na sala )

… Agora, vejam bem a tristeza disto! Um outro problema, e esse é o principal, é a fuga constante de irmãos para outras Lojas e os que não dão à sola já são mais cotas que o Matusalém, sem força para o balde, o pincel e os cartazes! Estão a ver a cena? Pois sobre esses problemas todos, fiz aqui um faduncho baseado no nosso glorioso hino, que o camarada-irmão Manuel Aziago escreveu antes de ir fazer companhia ao Lénine no paraíso socialista e o camarada-irmão José Barata Morta compôs. Chama-se: “HÁ VINTE CAMARADAS!
( Aplausos )

Há vinte camaradas há vinte
é tudo o que nos restou
há vinte camaradas há vinte camaradas }Refrão
o resto deu à sola ou já lerpou

A Zita quiz a laranja
O Magalhães virou rosa
O Brito ficou sem côr
e diz-se um reformador
mas ninguém lhe entende a prosa

Refrão

Remato ainda dizendo
p’ra terminar o fadinho
que com tanta deserção
por óbito ou por traição
ainda fico aqui sozinho

Refrão

( Aplausos vibrantes:”Àh! boca linda! Àh! Fadista!” )

– Obrigado, obrigado…

( sai de cena )

-E pronto, meus amigos: Terminou por hoje a primeira sessão das noites fadistas
do “Solar da Rosa”. Para a semana teremos um convidado neste palco vindo de uma outra Loja. Posso abrir só um bocadinho a bambolina para vos espicaçar a curiosidade. As cores da Loja são…. O côr-de-burro-quando-foge”…

( ahhhhhh!!!! )

– … Não adivinharam?… não posso adiantar mais nada. Vão pensando nisso e estejam aqui de hoje a oito dias.
Muito boa noite a todos e fiquem na paz dos anjos. Obrigado!

FIM