No Solar da Rosa (1)

Junho 21, 2005

junho 21, 2005
*No Solar da Rosa
O SOLAR DA ROSA

Nesta tasquinha bizarra
de ambiente bem sadio
ao doce som da guitarra
canta-se o fado vadio
***** ***** ***** *****

– Apresentador: Então muito boa noite, meus senhores e minhas senhoras, respeitável público. Bem vindos a mais uma louca noite fadista, aqui no Solar da Rosa, que se orgulha de apresentar semanalmente as melhores figuras -e figurões- da nossa praça. Estes artistas, deixam lá fora no bengaleiro todos aqueles rócócós do política e socialmente correcto e vêm aqui exprimir-se de alma a coração no mais representativo e genuíno modo de ser português: O FADO…

(aplausos)

…Esta noite temos o grato prazer de vos brindar com o Fado à Desgarrada…

(aplausos intensos)

…Mas antes de vos apresentar os artistas em compita, queria explicar aos menos conhecedores desta forma de interpretação o seguinte:…

(Tá bem mas despacha-te ó camelo!)

…Prometo que serei breve!

(aplausos)

…O fado “à desgarrada”, ou se preferem “ao desafio”, obriga os fadistas a uma regra muito severa que é a seguinte: O que “pega” na deixa do parceiro deve respeitar a rima sem repetir a palavra…

(explica lá isso melhor, ó chouriço!)

…Eu exemplifico: Imaginemos que um fadista termina a sua quadra com a palavra ROSA; O parceiro não pode começar a sua resposta dizendo Rosa, mas sim dentro do primeiro verso colocar uma palavra que rime com ela, exemplo: Ranhosa, manhosa, asquerosa, etc.; Entenderam?

(Mas nós somos atrasados mentais, ó palerma?…Entendemos!)

…Pois então assente isto, vamos lá às apresentações:
À Guitarra: Almeida Santos
À Viola: Anã Drago
No Baixo: Marques Mendes
Senhoras e senhores, na minha e na vossa presença este duo extraordinário de fadistas que aceitaram desafiar-se mutuamente: Mário Soares e Aníbal Cavaco, para os quais peço o vosso aplauso!

(Aplausos Vibrantes da plateia)
As luzes apagam-se e as velas emprestam uma luz bruxuleante ao ambiente. Os instrumentos gemem. Por uma questão de idade, começa o Mário:

Boa noite Portugueses
quero dedicar este fado
à gerência e aos fragueses
a todos muito obrigado

Público: Àh fadista!

Cavaco: Sou algarvio marafado
mas no fundo bom rapaz
e estou sempre ao vosso lado
mostrando o que sou capaz

Mário: Eu vou ser duro e voraz muito pior que um leão sinto muito meu rapaz vou desfazer-te na mão

Cavaco: Água benta e presunção não acompanham canalhas não te armes em campeão que os meus dentes são navalhas

Mário: Vais ficar feito em migalhas meu charmoso gabirú se os teus dentes são navalhas faz-me aqui a barba ao cú

Público: Ah,ah,ah,ah,ah! Está quentinho, está quentinho!

Depois da afronta baixa, Aníbal não resiste e atira-se aos gasganetes do Mário. Este por sua vez agarra na cadeira onde se sentava o Marques Mendes (que cai redondo no chão) e espeta-a pelos costados do Cavaco abaixo. Marques Mendes, vendo o dono levar com a cadeira no lombo, dá um salto no ar e enfia o baixo pela cabeça de Almeida Santos que ria à vara larga. Anã Drago pira-se de finhinho por baixo das pernas dos beligerantes e esconde-se nos bastidores.
Entre o público, começam a distribuir-se sopapos e estaladões a esmo entre os partidários do Mário e do Cavaco.
O apresentador, fugindo às garrafadas e protegendo as fuças, tenta apaziguar os ânimos:
– Apresentador: Meus senhores, então? Que vergonha! Párem por favor!…
Leva com uma garrafa de morangueiro meia-vazia em cheio na moleirinha e cai para o lado.
Ouvem-se sirenes e entra a polícia de bastão em punho, distribuindo chinfralhada em tudo aquilo que mexe e está parado. Depois de devidamente “tratados” pela bófia, vai tudo nas ramonas para o governo civil.
O apresentador -que por estar K.O. no meio do palco não foi em cana- acorda uma hora depois coçando um galo gigantesco no alto da “peúga”. Olhando o estrago que para ali vai exclama:
– Apresentador: Estes filhos da puta destes políticos são sempre a mesma merda!…
– Todos não! Alto aí que isso não é verdade – responde uma voz de galinha choca vinda de trás das bambolinas
– Mas! quem é que está aí?!
– Sou eu, a Anã Drago, a artista da viola, escondidinha aqui atrás da bambolina da esquerda alta!
– Pode sair que já acabou a pouca-vergonha!
– E a bófia? Já foi?
– A bófia?! Ai esteve cá a bófia?! Não vi!… Eu estava desmaiado e não dei por isso!
– Esteve pois!… Já se foi ou não?
– Já deve ter ido; não está cá mais ninguém. Pode sair daí!
( A Anã Drago aparece ao Apresentador)
– Mas… se você não se meteu em nada disto está com medo de quê?
– Chiuuu! É que antes de vir para aqui passei pela Serafina e comprei uns “porros” lá para o meu pessoal. Ora, se a bófia me “agarra” tá a ver!
– Ai estou, estou! É o que eu digo: Uns de uma maneira, outros de outra, estes políticos são todos a mesma merda!

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