Lá Vem a Nau Catrineta (47 e 48)

Maio 1, 2005

Maio – 22 – 2005

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
com tricórnio de côr preta
D. José a comandar
D. Costa trata de ver
se corre tudo a preceito
D. Diogo vai escolher
os aliados de peito
D. Cunha juntou-se ao Pinho
dois em um, está bom de ver
p’ra contar o dinheirinho
que o baú vai receber
D. Luís limpa os canhões
D. Correia é enfermeiro
a Lurdinhas dá lições
a tudo que é marinheiro
D. Jaime é o despenseiro
D. Gago lê as estrelas
D Lino faz de pedreiro
D. Correia limpa as velas
D. Vieira é o tenente
mais querido da marinhagem
é ele que paga à gente
em cada mês de viagem
D. Pedro de pé à ré
transmite pr’à populaça
aquilo que D. José
ordena pois que se faça
D. Augusto é o papagaio
escolhido p’lo Capitão
D. Alberto é o lacaio
encarregue da prisão
A Dª Isabel de Lima
tem tarefa desgastante
escada abaixo, escada acima
que a cultura é importante
P’ra compôr o ramalhete
das flores do Capitão
só faltava o mandarete
quem é ele?…D. Lacão
É esta a tropa fandanga
que promete à Catrineta
que o discurso da tanga
já foi posto na gaveta
Com estes novos doutores
vai ser um sempre a aviar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar
Bem cedo ao romper do dia
D. José se preparava
para ver se descobria
em que águas navegava
o Norte havia perdido
ia ver se o encontrava
estava pronto e decidido
a’char o que procurava

“Doce barquinha d’El-Rei
confesso do coração
juro por Deus que não sei
se é Norte ou Meridião
este mar onde navegas
sendo eu teu Capitão
tenho-te levado às cegas
sem saber a direcção

Prometi à marujada
que ia levar-te a bom porto
meti mãos à empreitada
logo a seguir ao aborto
que foi o D. Santanás
Capitão que nasceu torto
D. Burrão foi mais sagaz
fugiu antes de ser morto

Como te disse há bocado
confesso que ando à toa
bastante desnorteado
desde que deixei Lisboa
sentindo o vento zarpei
vaidoso postei-me à proa
como um príncipe sonhei
vir um dia a herdar a coroa

Mas quando os ventos cruzaram
soprando sem piedade
logo os sonhos se esfumaram
perante a realidade
dura esta em que nós’tamos
sem rumo força ou vontade
já perdidos navegamos
ai!… como é dura a verdade”

E assim gemia dolente
o Capitão D. José
olhando o mar tristemente
desde a pôpa até à ré
viu o aperto em que havia
metido toda a ralé
e a solução que não via
nem ao longe nem ao pé

“Espera aí!… que fizeram
esses bravos de “quinhentos”?
não lutaram e venceram
mares, marés, vagas e ventos?
Ora…lembra-te lá Zé
onde estão os instrumentos
que compras-te àquele monhé
numa loja dos trezentos?

Ah!… estão aqui na sacola
onde mais podiam estar?
Vamos ver se o mestre-escola
era bom a ensinar
teso e duro, pele tisnada
porque era um homem do mar
cada frase uma asneirada
que me fazia corar

Ora aqui está o sextante
vamos medir a’ltitude
que leva o sol neste instante
e aí está a longitude
e a latitude o que dá?
vamos calcular agora
depois…cruzar… e aí está
onde andamos nesta hora

Alvíssaras! Boas Novas!
acabou o triste fado
ó marujos, eis as provas
que o Norte foi encontrado
e se não creis no que falo
esperai só mais um bocado
antes do cantar do galo
estará o Cabo alcançado”

“Mas de que Cabo falais?
Capitão nosso Senhor??…”
“Ora… desse que pensais
o tal Cabo Bojador
onde um tal Bartolomeu
homem de grande valor
em noite negra de breu
enfrentou o Adamastor!”

“Quem me chama? Quem vem lá?”
– disse uma voz cavernosa –
“Olha! O jajo ainda cá está!
Ó criatura odiosa!
Salta do leme marujo
que a história é velha e famosa
vais ver esse porco-sujo
a tremer perante a Rosa”

Tomando o leme de peito
aberto à confrontação
colocou a Nau à jeito
proa virada p’rá acção
“Podes começar a cena
ó monstro da perdição
a peça até é pequena
e eu conheço o guião”

“Mas quem fala? Quem és tu?
que a história diz conhecer?”
” Ó calhau de Belzebú
então não me estás a ver?
sou D. José, o da Rosa
já estás a perceber?
filho da Pátria ditosa
que um dia te fez tremer”

“Ah! então és da terrinha
de um tal D. João segundo
esse com o qual me entretinha
a meter as Naus no fundo?
mas por ele até nutria
um respeito mui profundo
de modo que certo dia
o deixei descobrir mundo

Agora pelo que sei
reina um tal D. Cenourinha
que já nem sequer é Rei
nem a consorte Raínha
e de ti, pantomineiro
fez Capitão da barquinha
tu és tanto marinheiro
como o salmão é taínha

Estavas à espera de quê?
meu marujinho da treta?
era certo, já se vê
que a coisa virasse preta
quem marinheiro se arroga
e nunca viu uma alheta
não comanda uma piroga
quanto mais a Catrineta

Rebobino aqui a fita
volto p’rá minha caverna
um “T zero” mais catita
que essa contrução moderna
largue o leme, homem de Deus
que a Nau que você governa
presa a esses dedos seus
terá perdição eterna”

Dito isto o Adamastor
chiou três vezes baixinho
mais três vezes em redor
da Nau rodou de mansinho
e voou pelo escarpado
deixando a falar sozinho
um D. José derrotado
pelo calhau bem velhinho

“Com que então o ser arcano
que acagaçava a marinha
é um velhote bacano
mais manso que uma galinha…”
– era esta a opinião
de toda aquela maltinha
que assistira ao sermão
toda muito caladinha-

“…Capitão, largai o leme
da nobre Nau Catrineta
não vêdes como ela geme?
por favor dê à soleta
I’inda não viu que é um nabo
um Bartolomeu da treta?
Se insiste em dobrar o Cabo
pode crer q’inda se espeta!”

maio 01, 2005

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
com tricórnio de côr preta
D. José a comandar
D. Costa trata de ver
se corre tudo a preceito
D. Diogo vai escolher
os aliados de peito
D. Cunha juntou-se ao Pinho
dois em um, está bom de ver
p’ra contar o dinheirinho
que o baú vai receber
D. Luís limpa os canhões
D. Correia é enfermeiro
a Lurdinhas dá lições
a tudo que é marinheiro
D. Jaime é o despenseiro
D. Gago lê as estrelas
D Lino faz de pedreiro
D. Correia limpa as velas
D. Vieira é o tenente
mais querido da marinhagem
é ele que paga à gente
em cada mês de viagem
D. Pedro de pé à ré
transmite pr’à populaça
aquilo que D. José
ordena pois que se faça
D. Augusto é o papagaio
escolhido p’lo Capitão
D. Alberto é o lacaio
encarregue da prisão
A Dª Isabel de Lima
tem tarefa desgastante
escada abaixo, escada acima
que a cultura é importante
P’ra compôr o ramalhete
das flores do Capitão
só faltava o mandarete
quem é ele?…D. Lacão

É esta a tropa fandanga
que promete à Catrineta
que o discurso da tanga
já foi posto na gaveta
Com estes novos doutores
vai ser um sempre a aviar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Andava a Nau navegando
com toda a calma do mundo
D. José ia apalpando
qual a distância do fundo
Porque a preocupação
que mais ocupava a mona
deste novo Capitão
era aguentar-se à tona

“Ó vigia, ó soldado
aí no cesto real
diz lá como vai o fado
no reino de Portugal…”
“Pelo que vejo, senhor
o país vai de carrinho
reza tudo com fervor
p’lo êxito do Mourinho…

…E até já dizem crer
que o espírito desta vez
que é santo, vai escolher
um papa que é português
Com dois Cardeais à unha
-diz o povinho em histeria-
nem que se meta uma cunha
à Santa Virgem Maria”

“Valha-me o Senhor Santíssimo
que o povo pirou por fim
como se os santos do Altíssimo
se corrompessem assim
Pois já perderam o tino
se pensam que Iavé
é igual ao Isaltino
ou ao Loureiro xé-xé!

E que mais vês tu marujo
do teu cestinho real?”
“vejo tudo muito sujo
no futebol nacional
da compra de prostitutas
para os quartos dos hoteis
às arbitragens corruptas
a troco de cinco reis

E clubes a comprar
jogos em local diferente
de onde deviam jogar
vale tudo minha gente
P’ranimar este bordel
tendo fé no que se diz
até o Penafiel
vai ter um estádio em Paris”

“Que se lixe o futebol
que com isso posso eu bem
quero é contas de outro rol
de S. Bento, de Belém…”
“Sobre isso meu Capitão
nada de novo no saco
ainda não há sim ou não
da parte de D. Cavaco

D. Santanás foi proscrito
D. Isaltino igualmente
é danado o pequenito
que o PPD pôs à frente
Já parece o Zé Stalin
a purga já levou dois
vamos lá ver qual o fim
deste filme de cowbois

“No castelo dos centristas
foi eleito D. Ribeiro
devagar, sem dar nas vistas
é o novo timoneiro
D. Telmo, tal como o santo
seu homónimo, coitadinho
ardeu perdido num canto
qual fogacho mijadinho

Há ainda a novidade
na Câmara da Capital
a esquerda desta cidade
deu à’liança um final
O Carrilho veio à tona
mas p’ra dizer a verdade
quem se ri é o Carmona
que vai ganhar à vontade”

“Salta daí marujinho
já tenho a cabeça à nora
vamos lá ao almocinho
porque já é uma hora
Vamos encher a barriga
que com ela aconchegada
pode ser que se consiga
resolver tanta embrulhada

Aqui p’ra nós amigão
que ninguém nos pode ouvir
tendo esta oposição
logo a seguir vou dormir
Os deuses nos acompanham
os postos estão garantidos
enquanto os gatos se arranham
nos sacos que estão metidos