Lá Vem a Nau Catrineta (45 e 46)

Abril 20, 2005

abril 20, 2005

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
com tricórnio de côr preta
D. José a comandar
D. Costa trata de ver
se corre tudo a preceito
D. Diogo vai escolher
os aliados de peito
D. Cunha juntou-se ao Pinho
dois em um, está bom de ver
p’ra contar o dinheirinho
que o baú vai receber
D. Luís limpa os canhões
D. Correia é enfermeiro
a Lurdinhas dá lições
a tudo que é marinheiro
D. Jaime é o despenseiro
D. Gago lê as estrelas
D Lino faz de pedreiro
D. Correia limpa as velas
D. Vieira é o tenente
mais querido da marinhagem
é ele que paga à gente
em cada mês de viagem
D. Pedro de pé à ré
transmite pr’à populaça
aquilo que D. José
ordena pois que se faça
D. Augusto é o papagaio
escolhido p’lo Capitão
D. Alberto é o lacaio
encarregue da prisão
A Dª Isabel de Lima
tem tarefa desgastante
escada abaixo, escada acima
que a cultura é importante
P’ra compôr o ramalhete
das flores do Capitão
só faltava o mandarete
quem é ele?…D. Lacão

É esta a tropa fandanga
que promete à Catrineta
que o discurso da tanga
já foi posto na gaveta
Com estes novos doutores
vai ser um sempre a aviar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Ia a Nau de vento em popa
e D. José almoçava
uma posta de garopa
que com azeite regava
O resto da sua gente
assava a bela sardinha
acompanhada igualmente
com a dita batatinha

Estava um dia assaz bonito
o sol brilhava feliz
o mar-chão muito quietito
quando falou D. Assis:
“Sobe à gávea ó vigia
vê se alguém quer perturbar
a quietude do dia
e o nosso almoço estragar”

“Nada vejo senhor meu
só um iate à distância
ali junto ao mar Egeu
não terá grande importância
Vejo dois homens deitados
a tisnar a pele ao sol
serão gregos abastados,
é gente com carcanhol”

“É só isso bom vigia
que avistas de certeza?
se assim é, porque é meio-dia
desce e vai sentar-te à mesa”
“Talvez o que vou dizer
ainda nosso almoço empate
sabeis quem vêm a ser
os marmelos do iate?”

“Mau Maria, mau maria!
-diz D. José chateado-
já tenho a garoupa fria,
posso almoçar descansado?
Diz lá depressa quem são
afinal esses marmelos
que estão a pôr em questão
a temperatura dos grelos”

“Não são dois, meu capitão
gregos há apenas um
o outro é D. Burrão
esse cabeça de atum”
“D. Burrão?! Que disparate!…
pode lá ser esse abrolho?
sofreste uma insolação
ou então já estás zarolho

Desce já, meu papa-açorda
sobe tu, meu bom Assis
agarra-te bem à corda
não vás quebrar o nariz
D. Costa, o dever chama
põe-me o rádio já em escuta
quero saber o que trama
esse filho da… cicuta”

E assim se passou o dia
D. Assis d’óculo na mão
espiava o que podia
informando o Capitão
D. Costa por sua vez
escutava e traduzia
de inglês p’ra português
tudo o que lá se dizia

Após horas de espianço
qual CIA ou KGB
D. Assis toma balanço
descendo p’lo póprio pé
D. Costa pára cansado
já nada há p’ra escutar
dobra as folhas com cuidado
está na hora do jantar

“-Meu Capitão bem amado
-diz D. Assis com olheiras-
podeis estar descansado
qual abade entre freiras
afinal o D. Burroso
só é o que sempre foi
um perú grande e vaidoso
pachorrento como um boi

Anda a fazer umas férias
com um helénico amigo
a mais as suas galdérias
e portanto não há perigo
Não vi nada de anormal
só pança estendida ao sol
um ou outro bacanal
por debaixo do lençol”

“No que à escuta diz respeito
-atalhou D. Costa então –
não há nada de suspeito
tudo normal, Capitão
entre risos e gemidos,
que é no que dão estas coisas,
e uns pratos bem servidos
nas mais finíssimas loiças”

“E perdemos nós o dia
e um almoço que era um gôzo
porque o parvo do vigia
descobriu o D. Burroso
Lá se foi a garoupinha
as batatas e os grelinho
e mais a vossa sardinha
bem regada com tintinho

Ó cozinheiro da Nau
amanhã p’ró almocinho
vais preparar bacalhau
asa branca bem grossinho
volta a cozer os grelinhos
e as batatinhas ao lado
e p’ra fechar uns copinhos
de um tintol bem encorpado

abril 09, 2005

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
com tricórnio de côr preta
D. José a comandar
D. Costa trata de ver
se corre tudo a preceito
D. Diogo vai escolher
os aliados de peito
D. Cunha juntou-se ao Pinho
dois em um, está bom de ver
p’ra contar o dinheirinho
que o baú vai receber
D. Luís limpa os canhões
D. Correia é enfermeiro
a Lurdinhas dá lições
a tudo que é marinheiro
D. Jaime é o despenseiro
D. Gago lê as estrelas
D Lino faz de pedreiro
D. Correia limpa as velas
D. Vieira é o tenente
mais querido da marinhagem
é ele que paga à gente
em cada mês de viagem
D. Pedro de pé à ré
transmite pr’à populaça
aquilo que D. José
ordena pois que se faça
D. Augusto é o papagaio
escolhido p’lo Capitão
D. Alberto é o lacaio
encarregue da prisão
A Dª Isabel de Lima
tem tarefa desgastante
escada abaixo, escada acima
que a cultura é importante
P’ra compôr o ramalhete
das flores do Capitão
só faltava o mandarete
quem é ele?…D. Lacão

É esta a tropa fandanga
que promete à Catrineta
que o discurso da tanga
já foi posto na gaveta
Com estes novos doutores
vai ser um sempre a aviar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Andava a Nau bolinando
junto à Cova do Vapor
a tarde estava acabando
já o sol se estava a pôr
“Ó santíssima acalmia!”
-exclamava D. José-
nem uma agulha bulia
desde a pôpa até à ré

“E como se chama então
este deleitoso estado?”
-perguntou o Capitão
ao marujo ali ao lado
” A este estado dolente
de calmaria bacana
chamam-lhe lá p’ró Oriente
o estado de Nirvana”

“Qual Nirvana, que pensais?
isto aqui é Ocidente
temos dos Orientais
uma cultura diferente
Cá não chamamos Nirvana
na rua, vilória ou praça
desde o Coura ao Guadiana
chamamos “estado de graça”

“Se o dizeis, Capitão meu
vós sois mais inteligente
só sei que está limpo o céu
e o vento mal se sente
A marujada está piana
a populaça calada
passou mais uma semana
sem acontecer mais nada…

A malta está mais contente
a tanga virou roupão
pobre é certo, mas diferente
da parra do pai Adão
Cobre o tronco, e a cintura
sem esquecer coxas e cú
dá p’ra esquecer a’margura
da gente se sentir nú

E com aquelas promessas
que o meu capitão fez
não tarda pedimos “meças”
a qualquer lord inglês
Hão-de andar os marinheiros
sem sequer olhar a custos
com fatinhos domingueiros
fabricados no Augustus!”

“Que é lá isso afinal?
calma lá, seu tagarelas
que eu não sou o Pai Natal
nem o bruxo de Odivelas
os duendes da magia
ou as varas de condão
são filhos da fantasia
ou da mais pura ilusão…

Pés na terra com firmeza
embora o sonho subsista
tenho ambição, com certeza
mas quero ser realista
Se durante este mandato
não gastarmos quais camelos
talvez compremos um fato
na feira de Carcavelos

E olaré! marinheiro
vai dar muito trabalhinho
para o baú ter dinheiro
p’ra compra do tal fatinho
Não restou nada no saco
não há dinheiro p’rá sopa
para o pão e p’ró tabaco
quanto mais p’ra comprar roupa”

Anúncios