Lá Vem a Nau Catrineta (36 a 39)

Fevereiro 26, 2005

fevereiro 26, 2005

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
conta os dias a ampulheta
para que possa zarpar
vestida de novas cores
se fará de novo ao mar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Era certa a previsão
a turba quiz afinal
D. José, p’ra Capitão
da sua barca real
Da boca da populaça
lá vem o velho ditado
Vale mais cair em graça
do que parecer engraçado

Apesar da rasteirice
do jogo sujo e nojento
e da vil ordinarice
ao arrôto mais sebento
Do populismo barato
e da falsa beatice
dos arraiais de aparato
e da mais pura cretinice

O povo que não é burro
viu o que a casa gastava
a coisa cheirava a esturro
e a mentira imperava
Vai daí sem mais demora
Disse BASTA a Santanás
pegue a troxa e vá-se embora
leve D. Paulinho atrás

Mas havia outra questão
que também transparecia
era mostrar a razão
que a El-Rei assitia
quando lhe deu na veneta
e ordenou a Santanás
que encostasse a Catrineta
e fizesse marcha atrás

Quão bonita foi a festa
voltou a sorrir o povo
se a sorte lhe foi funesta
nascia agora de novo
Uma esperança maior
colocava com doçura
na nau de El-Rei seu senhor
que ia de novo à ventura

Na praça junto a uma esquina
sentado no seu banquinho
agarrado à concertina
cantava assim um ceguinho:

Ó povo da Catrineta
mas quem te entende afinal?
quando te dá na corneta
armas cada vendaval
Já deitaste a rosa fora
e a laranja escolheste
vês qual foi o preço agora
da merda que então fizeste?

Agora toma cautela
vê se aprendeste a lição
não caias mais na esparrela
de escolher um Capitão
Da casa da laranjeira
seja qual fôr o escolhido
repetindo a brincadeira
estás outra vez bem f…..!

fevereiro 19, 2005

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
conta os dias a ampulheta
para que possa zarpar
vestida de novas cores
se fará de novo ao mar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Dando crédito à sondagem
todos criam que a ralé
com uma larga vantagem
escolheria D. José
assim mandaria o povo
que a sua barca real
se fizesse ao mar de novo
em nome de Portugal

Perante a fé côr de rosa
que em todo o porto imperava
de uma vitória estrondosa
que já ninguém duvidava
D. José extasiado
olhos pregados no mar
sonha aventura acordado
não vendo hora de zarpar

E já se vê Capitão
ordenando aos seus tenentes
e a toda a tripulação
de marinheiros valentes:
“Vamos a isto cambada
rizem velas, ferrem panos
e nem que seja à chapada
vou navegar quatro anos
Findos os quais quero ter
o baú a abarrotar
oiro e prata hei-de trazer
num tesoiro de encantar

Não sou outro Santanás
nem tão pouco outro Burrão
e muito menos Paulinho
o tal sub-capitão
Que passado duas léguas
logo a rabiar ficavam
como duas ratas cegas
sem saber por onde andavam

Eu D. José vos garanto
que sei onde fica o Norte
debaixo do meu comando
haveremos de ter sorte
Tenho olhos de falcão
e nariz de perdigueiro
topo e cheiro um galeão
a léguas se traz dinheiro”

Era pois este o sermão
que trazia engatilhado
o futuro Capitão
da barca do nosso fado
Mas embora não pensasse
ainda havia um senão
e se a ralé obrigasse
a haver sub-capitão?

Quem escolheria afinal?
o avôzinho ou o neto?
D. Jerónimo Cunhal
ou o D. Anacleto?
A hipótese era remota
mas podia acontecer
p’ra descalçar essa bota
que iria ele fazer?

Era melhor não pensar
depois logo se veria
algo se iria arranjar
se falhasse a maioria
Tem lá calma D. José
e não penses nisso agora
tu és um homem de fé
não te borres nesta hora

Já esqueceste o companheiro
que naquele dado momento
comprou alguém sem dinheiro
e aprovou o orçamento?
Com um queijo aflamengado
a ética que se lixe
viu o orçamento aprovado
com uma simples sanduíche

Portanto se não tiveres
maioria absoluta
repete o que fez Guterres
não vires a cara à luta
Quem sabe se na Madeira
não haverá um sacana
que repita a brincadeira
a troco de uma banana?

fevereiro 12, 2005

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
conta os dias a ampulheta
para que possa zarpar
vestida de novas cores
se fará de novo ao mar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Redobrou a animação
às portas do Carnaval
ó patego olha o balão
sobe ao céu de Portugal
Quem vai ser o Capitão
da nossa barquinha amada?
é grande a agitação
pula a gente extasiada

De D. José a Louçã
de Portas a D. Jerónimo
de Santanás, o galã
à Pereira e seu homónimo
cheios de alma e fulgor
lá vão percorrendo a feira
com um sorriso sedutor
desde o Algarve à Madeira

Mas como agem então
estes cromos afinal
que querem deitar a mão
à nobre barca real?
Desfilam entre bandeiras
e o ribombar dos tambores
dizem graçolas foleiras
p’ra seduzir eleitores

Chegam a todas as ruas
a vielas e travessas
trazendo mundos e luas
nas mãos cheias de promessas
Mas numa visão mais lata
o que é que vemos em suma?
uma mão cheia de nada
outra de coisa nenhuma

Mas que haja festa afinal
e morra a tristeza vil
seja sempre Carnaval
viva o primeiro de Abril
siga o corso minha gente
que a malta quer é festança
andar alegre e contente
caminhar como quem dança

O pior é o depois
quando a festa terminar
quando um daqueles dois
em capitão se arvorar
será dia de finados
e de rabinho pró ar
dos foguetes rebentados
muita cana há prá’panhar
Mas tereis que ter cautela
porque esta gente é maluca
tendes que estar à tabela
ou pôr um olho na nuca

Quando as festas terminarem
vais valer menos que nada
quando já não precisarem
de ti servindo de escada
se te apanham no terreiro
espetam-te sem hesitar
uma cana no traseiro
qual foguete p’ra estoirar

fevereiro 05, 2005

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
conta os dias a ampulheta
para que possa zarpar
vestida de novas cores
se fará de novo ao mar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Fez-se a turba encaminhar
para a praça engalanada
prontinha a ouvir cantar
um fadinho à desgarrada
à esquerda do guitarrista
o D. José da rosinha
à direita o outro artista
D. Santanás laranjinha

Treinados os vocalizos
com os gasganetes bem quentes
foram feitos os avisos
aos dois artistas presentes
Cada um diz duas quadras
e a seguir cala o pio
são as regras estipuladas
p’ra cantar ao desafio

Pediu-se ainda maneiras
decôro e elevação
nada de bocas foleiras
essas trampas é que não
após a aceitação
de um e de outro lado
foi dado início à sessão
silêncio, canta-se o fado

E a populaça escutava
o cantar destes fadistas
e a guitarra acompanhava
com doçura os dois artistas
Quando… ó espanto dos espantos
ainda os acordes soavam
ouviram-se em alguns cantos
vozes de uns que protestavam

Ó D. José, por favor
essa letra é bué velha
todos a sabem de cor
inda’temos na orelha
já D. António a cantou
já conhecemos o fado
que você plagiou
por isso esteja calado

Quanto a vós, D. Santanás
que estais aqui a fazer?
nem de cantar sois capaz
que havemos mais de dizer?
Deveis meter-vos na alheta
do que cantais ninguém gosta
sois um fadista da treta
e o que cantais vira bosta