Lá Vem a Nau Catrineta (32 a 35)

Janeiro 29, 2005

janeiro 29, 2005

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
conta os dias a ampulheta
para que possa zarpar
vestida de novas cores
se fará de novo ao mar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar

Estando a Nau a receber
já os retoques finais
chamou-se a turba a escolher
capitão e generais
foi dada ordem real
p’ró começo da contenda
e montou-se o arraial
cada qual com sua tenda

Fui esfaqueado por trás
morto na incubadora
berrava D. Santanás
com voz cava e sedutora
Dai-me outra oportunidade
prometo-vos prata e oiro
esmeraldas, rubis e jade
dar-vos-ei grande tesouro

Não escuteis D. Santanás
belo contador de petas
não é mais que um incapaz
é o grão-mestre das tretas
Escutai-me a mim, D. José
capitão da casa rosa
que vos promete bué
de vida alegre e faustosa

Eu é que sou o melhor
não escuteis esses trafulhas
votai Portas por favor
deixai-os com suas bulhas
comigo ao leme da Nau
voltaremos com certeza
a comer bom bacalhau
e iscas à portuguesa

Mas que diferença os define?
escutai-me a mim, D. Jerónimo
um seguidor de Estaline
e do índio meu homónimo
prometo dar-vos o oiro
pôr a prata em vossos braços
sacando-os ao tesoiro
dos galeões dos ricaços

Eu cá prometo ‘inda mais
olhai cá para o chavalo
prometo “pedra” geral
mas em dose de cavalo
livrar lésbicas e gays
o aborto nos Hospitais
cá com o Louçã podereis
casar homoxessuais

Sentado no seu banquinho
lata da esmola na mão
dizia assim um ceguinho
tocando acordeão

Pobre de ti barca bela
e a mais os teus marinheiros
quando tu doares a vela
a um destes timoneiros
após mais uma aventura
regressará tudo nú
pelas ruas da amargura
sem um tostão no baú

janeiro 22, 2005

Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar…
conta os dias a aumpulheta
para que possa zarpar
Dizem que em fins de Fevereiro
se fará de novo ao mar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar…

Primeiro foi D. Burroso
depois foi D. Santanás
a este par lastimoso
se deve o estado em que estás
Já mandaram vir ferreiros
calafates e pintores
entalhadores, tanoeiros
e outros reparadores

E também chegados são
mestres de obra com cartel
que afirmam com convicção
e sapiência a granel
Pôr-te de novo no mar
sem sinal de quebradura
prontinha a recomeçar
a tua nova aventura

Já toda a gente aclama
o capitão que será
D. José, assim se chama
o que te comandará
Que promete dia a dia
a quem o quiser escutar
sem medo nem cobardia
outro Bojador dobrar

E outras Índias descobrir
de pimentas e canelas
de novos rumos abrir
com a cruz de Cristo nas velas
Se for Capitão-Real
porá fim às tuas mágoas
qual nau de Gama ou Cabral
hás-de voar sobre as águas

Alegra-te ó Catrineta
Ó nau de El-Rei D. Sampaio
que hás-de ficar repleta
de oiro, barca de um raio
Só de pedras preciosas
encherás o teu porão
e a perfume de rosas
cheirarás até mais não

E virá o Cardeal
com ladaínha e incensos
e as damas de Portugal
a acenar com seus lenços
Pois nem El-Rei faltará
ao glorioso zarpar
e a lágrima lá estará
marota pronta a saltar

Olha os velhos do Restelo
que ousam interrogar
cobardes, há que dizê-lo
não são dignos de embarcar
Na demanda gloriosa
que não tarda a começar
a da irmandade rosa
com D. José a mandar

Ficarão sós a olhar
a ver a barca partir
com os marujos a cantar
e a plebe a aplaudir
exorcisando o agoiro
contra ventos e marés
para que a prata e o oiro
caiam do céu a seus pés

Já poetas se adiantam
a escrever novas glórias
com aqueles versos que cantam
as indómitas vitórias
nas demandas da mourama
nos mares do Adamastor
que nos trouxeram a fama
de ser povo sem temor

Mas ó poetas, cautela
terá sempre o mesmo fim
p’ra não perder a chancela
só pode acabar assim:
“…Lá vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar…”

janeiro 15, 2005

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar…

Ancorada a Nau ao porto
até meios de Fevereiro
nos arredores do estaleiro
sentado no seu banquinho
assentou praça um ceguinho
com a guitarra na mão
entoando uma canção
da fazer chorar um morto

A gente que labutava
na nobre barca real
de El-Rei de Portugal
pararam p’ra ouvir o fado
que o ceguinho desgraçado
entoava em tom dolente
e com letra tão pungente
que todo o mundo chorava

Mas o que dizia o cego
nos seus versos afinal?
dizia que Portugal
era um reino desgraçado
que fora amaldiçoado
por alguma bruxa tonta
estava um reino “faz de conta”
com todos os bens no prego

Tinha chegado a tal estado
de pobreza franciscana
que ainda esta semana
houvera quem alvitrasse
que a velhada se preparasse
p’ra bulir mais cinco aninhos
toca a mexer os rabinhos
até cairem p’ró lado

E enquanto o povo se amola
por não saber que enfiar
na panela do jantar
pois já está a marcar passo
anda aí gente do Paço
em mergulhos tropicais
e passeatas orientais
com cem marmanjos na cola

Vejam ao que isto chegou
filhos de uma cabra velha
sou cego mas não azelha
que não sinta a vilania
hei-de ver chegar o dia
em que tereis de saldar
tudo o que estais a roubar
a quem em vós confiou

Ouvi ó gentes do mar
calafates e ferreiros
marujos e cozinheiros
deitai fora as ferramentas
ou dai com elas nas ventas
dos donos da Catrineta
senhores de muita palheta
que vos querem enganar

Se vos vierem perguntar
quem quereis p’ra Capitão
respondam todos que não
que para vós tanto faz
Sócrtates ou Santanás
o boby ou o tareco
ou qualquer outro boneco
que eles queiram arvorar

janeiro 02, 2005

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar…

( Aqui, o Velho do Restelo interrompe o Zecatelhado)

Estava a Nau já no estaleiro
prontinha a ser reparada
depois de ser escavacada
primeiro por D. Burrão
esse “Cherne” capitão
que ao ver o rabo a arder
sem saber mais que fazer
deu à sola p’ró estrangeiro

Depois p’ra mal dos pecados
da ralé da Catrineta
um novo mestre da treta
foi armado capitão
sendo bronco até mais não
pior que um tijolo burro
este pedante casmurro
desfez o resto em bocados

Mas aqui amigos meus
a culpa vai para El-Rei
eu nunca perceberei
que raio lhe deu na cuca
pôs toda a ralé maluca
ao dar a um incompetente
os destinos da sua gente
foi pois de bradar aos céus!

Santanás, o Brilhantinas
foi rei momo em Portugal
vivemos em Carnaval
quatro meses de virada
nem no Brasil a tourada
chega a um tal aparato
agora é pagar o pato
destas pestes cabotinas

Foi deitar dinheiro ao vento
foi gastar à vara larga
a crise vai ser amarga
vamos chorar baba e ranho
e vai ser de tal tamanho
que vamos ter que importar
uns baldes tipo-alguidar
p’ra caber toda lá dentro

Ó gentes da Catrineta
ó povinho desgraçado
será sina? será fado?
será má sorte, condão?
aturas cada aldrabão
que sem pejo nem vergonha
te vende a sua peçonha
e tu compras, qual cegueta!

Não te deixes enganar
pela canalha outra vêz
são sempre os mesmos, não vês,
a dar-te a banha da cobra?
não conheces já de sobra
os malditos vendilhões
que te prometem milhões
mas nada têm p’ra dar?

( Fim do discurso do Velho do Restelo – Recomeça o Zecatelhado )

… Depois de tudo o que ouvi
que mais posso acrescentar?
nada mais há p’ra lembrar
a não ser a poesia
que o poeta certo dia
num poema rematou:
NÃO SEI POR ONDE VOU
MAS SEI QUE NÃO VOU POR AÍ!