Lá Vem a Nau Catrineta (23 a 27)

Outubro 27, 2004

outubro 30, 2004

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Rumava a Nau certo dia
Tejo abaixo até Belém
passando por Santa Iria
já perto de Sacavém
quando esta história se deu
e a qual passo a contar
tal e qual aconteceu
assim sem pôr nem tirar

Ia ao leme o capitão
D. Pedro de Santanás
com o sextante na mão
a ver se era capaz
de medir correctamente
a’ltura do astro rei
poder dizer finalmente
“até que enfim, acertei!”

Nas aulas de marear
fôra uma nódoa pegada
na arte de calcular
a’ltura que o sol levava
Cem vezes fôra a exame
e por cem vezes chumbara
sendo alvo do vexame
de todos com quem cursara

Tantava agora sozinho
sem ninguém em seu redor
com calma, devagarinho
sempre dando o seu melhor
Mas logo voltou a ver
que o seu cálculo falhara
e que não podia ser
verdade o que calculara

Fizera tudo certinho
como manda o manual
lera todo aquele livrinho
desde o início ao final
Só que aquilo que extraía
ao fazer a medição
é que em vez de Santa Iria
estava era perto de Olhão

“Que me valha S. Vicente
padroeiro da marinha
já fiz merda novamente
mas que triste sina a minha
mas porque é que não atino
com o raio da medição?
será obra do destino
será praga ou maldição?”

Ao drama de toda a cena
bem escondido num cantinho
junto à vela da mezena
assistia D. Paulinho
“Pobre do meu capitão
por todo o bem deste mundo
daixa-me dar-lhe uma mão
ou espeta a barca no fundo!”

“Senhor meu, não reparais?
trocasteis direita e esquerda
perdesteis os cardeais
por isso a conta deu merda!
O Oeste é à canhota
sendo que o Sul fica atrás
tomando o Norte por rota
é sempre assim que se faz!”

“Ai troquei os cardeais
sua bichola maluca?
por acaso vós pensais
que já estou xéxé da cuca?
sei bem onde fica o Norte
não fiquei desnorteado
tive foi a pouca sorte
do sextante estar marado!”

Temendo desmascarar
a desculpa esfarrapada
e do acto resultar
ver a barca escaqueirada
com um sorriso postiço
disse p’ró seu capitão:
“Então se calhar é isso…
deveis ter toda a razão!”

Vendo que D. Santanás
papara linha e anzol
qual raposinho sagáz
apontou então p’ró sol
“Ou é aquele mariola
que anda sempre a brincar
querendo lixar-lhe a carola
anda a mudar de lugar!”

Vós Senhor meu capitão
tendes um ar tão cansado
escutai minha opinião
ide dormir um bocado
podereis ter a certeza
e confiança também
que atracarei em beleza
a Nau chegando a Belém!”

“Acabasteis o sermão?
pois então ouvi agora
seu boiola quarentão
antes que vá borda-fora
ou que lhe ponha na mão
a esfregona e a vassoura
o balde, a pá e o sabão
e a tal cabeleira loura…

Como explicava a El-Rei
minha bichona cegueta
ter posto o Capitão Gay
ao leme da Catrineta?
mandava-me fuzilar
ou punha-me a pão e sopa
ao ver a Nau atracar
não de bordo, mas de pôpa!”

outubro 22, 2004

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Andava a Nau navegando
pelo Tejo, cá e lá
umas vezes bolinado
e outras ao ” Deus-dará”

há uma semana atrás
fora grande a’gitação
ninguém via Santanás
seu ilustre capitão

Pobre Nau desgovernada
navegava sem ter lei
murmurava a marujada:
“saberá disto El-Rei?”

Às tantas um marinheiro
sem poder aguentar mais
ver a Nau sem timoneiro
disse assim para os demais:

Chamemos lá D. Sarmento
o seu camareiro-mor
saberá esse jumento
onde pára o seu senhor?

Queremos que nos diga agora
tudo o que ele souber
se o homem foi “borda-fora”
ou se fugiu num escaler

Brada outro em ar gozado:
“Não deve ser coisa séria;
deve estar todo enrolado
na cama de uma galdéria!”

Outro ainda:” Nada disso…
não há fuga nem amores
está a endireitar o toutiço
escavacado nos Açores”!

E quando a turba opinava
meio a brincar meio a sério
eis que surgem na amurada
três valetes do império

D. Bagão fora de si
gesticulava furioso
e berrava aqui e ali
“gamaram o glorioso!”
“Já viram aquele artista
que não viu a bola entrar?…
levem-no já ao oculista
nem que seja eu a pagar!”

D. Paulinho que também
era adepto lampião
respondia: ” Muito bem!…
devia ir p’rá prisão!”
E só saía de lá
isso vos garanto eu
quando o Benfica, olálá!
fosse campeão europeu!

D. Sarmento que os seguia
não ligava ao futebol
pensava era no que diria
à turba esperando ao sol

Já trazia engatilhada
uma boa explicação
à plebe que aguardava
novas do seu capitão

Dobrado no varandim
da proa da nossa Nau
lá abriu a boca enfim
fazendo cara de mau

Calai lá a cloaca
com a merda do futebol
essa gentinha de caca
que não vale um caracol

Tudo artistas de primeira
do Pintinho ao Valentim
Cunhas, Veigas e Vieiras
nunca se viu trampa assim

Quem vomita a toda a hora
bostas ao metro e ao quilo
tem é que ser sem demora
internado num asilo

Deixai pois essa merdice
que não dá pão a ninguém
já me chega esta chatice
de a plebe ouvir também

Que se passa seus coirões ,
já visteis o chavascal?
digam lá quais as razões
de tamanho carnaval!

“Senhor camareiro-mor…
-diz um marujo de trás-
diga-nos lá por favor
onde está D. Santanás!”
Nunca mais ninguém o viu
anda a Nau sem Capitão
se não zarou nem caiu
por onde andará então?

Ó seus cabeças de nabo
já com a rama amarela
que vos carregue o diabo
e vos coza na panela
É então por causa disso
que armais este arraial?
seus miolos de chouriço
já podre e a cheirar mal!

Voltai lá p’ró trabalhinho
que o capitão desta Nau
não se pirou de fininho
nem está a afiar o pau

Ficai todos a saber
p’rácabar com o alvoroço:
está simplesmente a bater
a sesta depois do almoço!

outubro 16, 2004

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Navegava a Catrineta
por esses mares sem fim
rumo aos Açores do Pauleta
e à Madeira do Jardim

Não queriam perder de vista
essa batalha naval
entre a tropa Socratista
e a tropa do laranjal

Até ali na Madeira
nunca a rosa houvera achar
forma, feitio ou maneira
da Jardim-frota afundar

Nem dava para aquecer
mal o jogo começava
era ver a rosa a arder
e a frota que se afundava

Havia quem afirmasse
fosse qual fosse o bailinho
enquanto o Jardim bailasse
ganhava sempre o joguinho

Quando Alberto disparava
desfazia a rosa em pó
e a pobre só acertava
tiros em “H2o”

Ria o boçal desbragado
da inépcia da rosinha
pois com o jogo viciado
a vitória era certinha

Durante anos e anos
ensinara a sua gente
a gritar morte aos “cuban’s”
que moram no “Cont’nente”

De comunas a fascistas
Pides ou K.G.B’s
de poltrões a Socialistas
cada qual de sua vêz
tudo servira ao Bokassa
p’ra baralhar sua gente
que lhe acha muita graça
e bate as palmas contente

Tendo mais barcos à mão
quando dispõe sua frota
afundará sem perdão
quem entrar na sua rota

Na terra nas nove ilhas
que a pique emergem do mar
os laranjas e os rosinhas
outra luta vão travar

Joga do lado da rosa
um César bem confiante
numa vitória estrondosa
num jogo emocionante

Do lado da laranjinha
um senhor “de Cruz” chamado
joga esta partidinha
com um ar bem animado

Mas aqui, dizemos nós
ao contrário da Madeira
a roca com menos nós
fia dum’outra maneira

Em tempos de D. João
ou melhor, Mota Amaral
com mais ou menos canhão
era a laranja imperial

D. João Bosco reinava
tremendo a gente de cá
sempre que ele empunhava
a bandeira da F.L.A.

P’ra calar o dirigente
os laranjinhas de então
trouxeram-no p’ró continente
sentaram-no num cadeirão

Aceitando o rendez-vous
como que exorcisado
assim que sentou lá o cú
ficou quieto e calado

Mas se a laranja pensava
que pondo um outro a jogar
nada na terra mudava
e continuava a ganhar
não foi preciso esperar
muito tempo p’ra saber
que a teta estava a secar
e o leite a desaparecer

E a primeira derrota
aí estava num repente
afundada a sua frota
derrotada a sua gente

Arrastada e pesarosa
foi perguntar ao Jardim
como derrotar a rosa
fazê-la perder por fim

Seus nabos “cont’nentais”
“imbora” eu dançe o bailinho
por acaso vós “pinsais”
que eu sou o José Mourinho?

Porque não quero “cum’nistas”
nem rosas na ilha irmã
vou abrir-vos essas vistas
seus meninos da mamã

Arranjai um bom palhaço
que cante e saiba dançar
que toque caixa a compasso
e nas marchas possa entrar

Porque o povo, meus senhores
está-se a cagar p’ró discurso
gosta é de ver os doutores
a fazer figura de urso

outubro 09, 2004

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Seis dias idos de Outubro
mais uma bronca estalava
deixando esta Nau ao rubro
tal o caldo que entornava

Foi tamanha a confusão
na Nau de El-Rei instalada
que mais parecia o Bulhão
às cinco da madrugada

Mas que tinha acontecido
dentro da barca real?
o que é que teria havido
p’ra tão grande cagaçal?

Tinha sido D. Rebelo
a pôr um ponto final
na conversa de carmelo
em casa do Amaral

Logo a notícia correu
veloz que nem uma bala
toda a barcaça tremeu
ao vê-lo fazer a mala

Calaram o D. Marcelo!
já voltaram os censores
derrubemos seu castelo
às armas pois, meus senhores!

E logo ali assaltaram
o armeiro real
trazendo o que encontraram
desde a pistola ao punhal

Puseram olhares fatais
gritaram todos ao monte:
matai os novos Cabrais
Viva a Maria da Fonte!

D.Santanás ao escutar
o granel que se instalava
acordou a resmungar
sem saber que se passava

Que raio de cagarim
vem a ser este afinal?
quem ousa acordar assim
o Capitão General?

Comenta um seu acessor
um beto mal encarado:
sabei que há bronca, senhor
e D. Gomes é culpado

Agarrou no seu punhal
p’ra esgrimir com D. Rebelo,
que é espadachim real…
fiou sem couro e cabelo

D. Santanás percebendo
o que se estava passando
tratou logo de correr
para a ponte de comando

E com a tal voz de santinho
que todo o mundo enganava
pigarreando fininho,
disse à plebe que escutava:

Marujos da Catrineta
juro-vos eu, meus senhores
que quem inventou a treta
do regresso dos censores
não mais fez do que enganar-vos
e ao manobrar-vos assim
o que fez foi de vós parvos
para atingir outro fim

E ao falar apontava
para um canto do porão
D. Rebelo rebolava
a rir no meio do chão

Falando com os seus botões
dizia assim bem baixinho:
caíram que nem morcões
qual rato vendo o toucinho

Vão dar cabo do canastro
ao triste do Capitão
vão pendurá-lo no mastro
a trinta metros do chão

O mais que pode ao descer
é voltar a ter Lisboa
porque assim que El-Rei morrer
só eu é que agarro a coroa

Vede lá como ganhei
em beleza esta batalha
não tarda serei o rei
de toda esta escumalha

outubro 02, 2004

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Andava a nau navegando
p’rós lados do mar da palha
navegava bolinando
p’ra descanso da canalha

Estavam a recuperar
de uma semana inteirinha
mortinhos a trabalhar
por causa da Seabrinha

Não é que aquela remela
amiga do Capitão
com ar de corça ou gazela
os fez refazer à mão

As escalas de trabalho
mais as listas e não só
deixando tudo encravado
em estado de meter dó?

Ele foi a Nau encalhada
em perigo de naufragar
mas Seabra castigada
por Santanás?… Nem pensar!

Podia lá Valentino
o charmoso Capitão
ter com a dama um desatino
ou cravar-lhe um chapadão!

O lema deste boboca
no que respeita à mulher
É que: numa dama não se toca
nem com uma flôr sequer

Assim travou a ralé
que quiz mesmo nessa hora
prender a tia p’lo pé
a atirá-la borda-fora

Satisfariam além do mais
suas nobres intenções
como amigos dos animais
davam papa aos tubarões

Enquanto calavam fundo
toda a raiva que sentiam
eis que não parando o mundo
outros factos se seguiam

Com sua voz de falsete
irrompia D. Bagão
seguido de um mandarete
berrando p’lo Capitão

Santanás atarantado
por todo aquele burburinho
estando na proa sentado
ficou de pé num instantinho

Mas que tem este fulano?
que tendes vós D. Bagão?
disse a bruxa que este ano
o Benfica é campeão?

É que a mim essa maluca
disse-me à pouco em segredo
que só dia de São Nunca
numa manhã muito cedo!

Não falo de futebóis
ó Senhor meu Capitão
falo é de mais carcanhóis
p’ró tesouro, pois então!

Fala, fala Bagãozinho
ninguém é melhor que tu
a arranjar pilinzinho
p’ra reforçar o baú

Tens pinta de mafarrico
e um jeitão dos diabos
p’ra dar dinheiro ao mais rico
fanando os mais desgraçados

Apostei ainda há bocado
que quando fores p’ró eternum
nomear-te-à o diabo
tesoureiro do Inferno!

Vá de rectro Capitão!!!
ainda sou bem novinho
já me quereis ver num caixão
para o Inferno a caminho?

É que por falar em massas
sabei que fui inventar
mais duas leis do caraças
para o tesouro aumentar

Atirai lá isso então
explicai-me aqui e agora
que engendrasteis D. Bagão
deitai tudo cá p’ra fora!

Pois bem, então cá vai
a primeira é uma taxa
se alguém doente cai
apertamos-lhe a tarraxa

Se ninguém pode fugir
à tosse ou constipação
vai pagar mais sem tugir
no preço da medicação

Vai ser sempre a facturar
ao senhor e à senhora
a isto vamos chamar
de taxa moderadora

A outra lei que inventei
para sacar mais dinheirinho
adivinha?… pois sabei
vai cair sobre o carrinho

Como o bom do português
nunca o deixa na garagem
vai já comer outra vez
com uma nova portagem

As SCUD ainda estavam
sem portagem, pois então?
sem pagar por lá rolavam
automóvel, camião…

Mas aqui o D. Bagão
vai-lhes dar o tratamento
ora vá… estendei a mão
fazei lá o pagamento

Com a massa arrecadada
garanto eu sem favores
pagamos de uma assentada
a mais uns trinta acessores