Lá Vem a Nau Catrineta (20 a 22)

Setembro 27, 2004

setembro 25, 2004

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Andava a nau navegando
junto à barra de Leixões
suavemente embalando
o sono destes ladrões

Vai sonhando D. Bagão
qual a forma mais cuidada
de arranjar mais um milhão
pr’ó baú da piratada

A forma foi encontrada
passe-se à acção depressinha
a taxa diferenciada
vai render muita massinha

Mas quando tudo dormia
algo os sobressaltou
mesmo ao romper do dia
A Catrineta encalhou

Ó mãezinha! Que se passa?
-grita a voz de D. Paulinho-
que aconteceu à barcaça?
ai o meu rico barquinho!

Acudi-nos Capitão,
venha cá já depressinha
já há água no porão
já se inundou a cozinha!

-Achei, D. Paulo, achei!…
-Achou o quê, D. Bagão?!
Achei depois que sonhei
como gamar um milhão!…

Calem-se suas araras,
parou a cacafonia!
mas que belo par de jarras
me tocou na lotaria!

Assim com esta firmeza
no seu real vozeirão
surge sua realeza
Santanás, o Capitão

Quem conduzia esta Nau
quando ela bateu no fundo?
vou dar nesse carapau
um castido d’outro mundo!

Como ninguém se acusava
diz Santanás novamente:
o homem que a Nau guiava
que dê já um passo em frente

Como nem um avançou
o tal passo ordenado
D. Santanás imperou
ao marujo ali ao lado:

Quero o nome e a função
que cada um ocupava
quero a lista aqui na mão
quero saber quem lá estava

Mas… meu senhor é por isso
que esta Nau encalhou
essa lista de serviço
ainda ninguém a topou

E como ninguém sabia
onde era colocado
o barco foi à deriva
e acabou encalhado

D. Santanás furioso
perante esta afirmação
com aquele olhar charmoso
soltou esta exclamação:

Chamai lá a Seabrinha
esse belo bibelot
essa linda tiazinha
que este caldinho arranjou

E dei-lhe eu duzentos mil
do baú, que prejuízo
Ai Santanás estás senil
perdeste todo o juízo

Quando me veio falar
dessa informatização
eu devia ripostar:
faça o trabalhinho à mão

Mas que querem, sou assim
por um rabinho de saia
eu digo a tudo que sim
seja Seabra ou Soraya

Deveria estar lembrado
da Torloni, qual xereta
que me levou trinta mil
por uma peça de treta

Mas a veia Valentina
ficou p’ra sempre gravada
e dei com aquela menina
a queca mais onerada

Ó Capitão… por favor
já chega de divagar
dê lá ordens, meu senhor
porque a Nau está-se a afundar!

Ai está?… que afunde então!
que se afunde de uma vêz!
refazer listas à mão
só lá para o fim do mês

Querem ver o calafate
a trabalhar na vigia
ou o nosso alfaiate
tratando a cordoaria?

Se calhar quereis o ferreiro
de esfregona no porão
ou então o timoneiro
a apontar o canhão?

São as listas que cordenam
não há remédio nenhum
são elas que mais ordenam
o que fará cada um

E enquanto a Seabrinha
à mão, pé, ou cabeçada
não nos trouxer a listinha
ninguém pode fazer nada

Vâo-se entretendo a escoar
no porão e no convés
a água que está a entrar
e nos cobre já os pés

Quando a lista aparecer
temos que recuperar
pois não há tempo a perder
temos que nos apressar

Cada um fará dois turnos
seguidinhos de empreitada
matutinos e nocturnos
não recebendo mais nada

Que o tempo que se perdeu
aqui com a Nau encalhada
não o irei pagar eu
nem a Seabra, coitada

Ela tadinha só queria
dar um ar arzinho moderno
à ralé desta enxovia,
a esta Nau do Inferno

E até estou a pensar
se a esta bela Dona
não a poderei reformar
tipo Celeste Cardona

setembro 11, 2004

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Andava a Nau navegando
à bolina calmamente
a proa as águas sulcando
do mar-chão, suavemente

Mas a doce calmaria
que durava até então
foi quebrada com a histeria
de um berro, por D. Bagão

O homenzito coitado
ja chorava baba e ranho
estava tão descontrolado
que mais parecia o “dianho”

Perante tal burburinho
a um marujo agarrado
eis que surge D. Paulinho
com um ar preocupado

Que se passa D. Bagão?
porque estais tão exaltado?
e porque tendes na mão
um papel amarrotado?

E os mais de cem ouvidos
lá iam esperando em vão
pois só saíam grunhidos
da boca de B. Bagão

Quando já era esperada
a macacua fulminante
eis que vem descendo a escada
Santanás, o Comandante

Estais ligado a alguma ficha?…
o que se está a passar?
mais pareceis uma rabicha
ou bicha de rabear!

Bicha?… isso é comigo?
diz D. Paulinho corado…
Ninguém está a falar consigo…
diz Santanás já irado

Não borre mais a pintura
mantenha a boca calada
não notais que essa postura
é gozo p’rá marujada?

E a turba amontoada
ria à farta de fininho,
de seguida à gargalhada
com a frase de D. Paulinho

Vermelho como um pimento
vendo como era gozado
rápido como um pé-de-vento
retirou-se envergonhado

Fechai lá essas bocarras
acabou-se a reinação
a hora não está p’ra farras
acudamos ao Bagão

Um pouco mais compostinho
do axaque que tivera
aprumou-se o homenzinho
vendo toda a gente à espera

Meu senhor D. Santanás
nosso ilustre capitão
adivinhe se é capaz
o que tenho aqui na mão?

Em qual delas homenzinho?
aquilo que estou a ver…
na direita um papelinho
e na esquerda um fecho eclair

Um fecho?!… ai! não me diga!…
tal foi a raiva, que acho
que se me encheu a bexiga
e mijei calças abaixo!

Perante esta calinada
proferida por D. Bagão
a turba descontrolada
rebolou a rir no chão

Tomai tino pequenote
medi bem o que dizeis
quanto mais abris “o pote”
mais andais vós aos papeis

Ora por exclusão de partes
é então o papelinho
por engenhos e por artes
a origem do “caldinho”

É isso, meu Capitão
então não é que a cambada
de labregos que aí estão
ficou bem mais que “passada”?

Ousaram reivindicar
cinco por cento de aumento!
Pois bem, vou ripostar:
só vos dou meio por cento!

Dinheiro neste batel,
o que resta no baú
nem chega para o papel
com que limpamos o ..!

Protesto, meu Capitão!…
(grita o marujo Carvalho)
meio por cento é que não
isso é gozar com o trabalho

Despeça senhor e já
essa tola de chicharro
meio por cento nem dá
para comprar um cigarro!

CALADOS!…p’ra começar
vamos lá baixar a bola
e aquele que protestar
leva um soco na carola!

Mas que bandalheira é esta?
não sou eu o Capitão?
decreto o fim desta festa
acabou-se a discussão

Pois se achais que não é bom
o meio por cento, então…
digo-vos alto e de bom som
não levais nem um tostão!

E mais, para terminar
acaba aqui o sarilho
vós marujos quereis fumar?
arranjem barbas de milho

setembro 04, 2004

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Andando a Nau navegando
junto à Figueira da Foz
eis que o vigia alertando
faz ouvir a sua voz

“Aí está ele! Barco à vista,
a dois qulómetros à proa,
deve ser o abortista
que falavam em Lisboa!”

“Chamai já o capitão,
chamai também D.Paulinho
e ainda o capelão
que venham cá num instantinho!”

Instalou-se o pandemónio
com toda a gente a bradar
contra a barca do demónio
que iriam enfrentar

Trajando a puro rigor
de cavaleiro cruzado
qual “Geraldo Sem Pavor”
espada de gume aguçado

Surge D. Paulo gritando:
“Lembrai-vos de Aljubarrota!!!
do que é que estais esperando?
manobrem cortando a rota!”

Apontem já os canhões
preparem a abordagem
ganhem força de leões
aspirem toda a coragem

Se a história desta nação
é de heróis povoada
se se quebrar o facão
vão-se a eles à chapada

“…Alto e pára o baile aí!
que raio de coisa é esta?
mas que é que se passa aqui?
quem me interrompeu a sesta?…”

Toda a turba se virou
ali mesmo nesse instante
p’ráquele que assim falou,
Santanás, O Comandante

“…Querem ver que fiz asneira?!…
pensei que estáveis na praia
à sombra duma palmeira
com um rabinho de saia!”

Ai D. Paulo, D. Paulinho
valha-me Santa Maria!
qual foi agora o “caldinho”
que desteis à maioria?

Qual “caldinho”, Capitão?
estou a falar do aborto
não fez a coligação
um acordo? ou já está morto?

Aborto?… ora deixe ver…
isso foi com D. Burrão
vou já tratar de saber
o que acordaram então

Vai…vai tratar de saber?!!!
mas então vós não sabeis?
o acordo é p’ra valer
não p’ró cesto dos papéis!

Acalmai-vos lá primeiro
não entreis logo ao ataque
pareceis o Nuno Rogeiro
quando fala do Iraque

Ora bem, pois leio aqui
que o que foi acordado
pelo Burrão e por si
com a benção do papado

Foi que nisto do aborto
não ia haver mais referendo
cumpra-se então o acordo
está resolvido! Estais vendo?

Sois um senhor, Santanás
meu honrado Capitão
mas agora o que se faz
ao barco da maldição?

Ficam ao largo a boiar
vereis então que é possível
que partam vendo a acabar
a água e o combustível

Bela ideia Capitão
deixá-los lá a secar!
e para a oposição
que ireis argumentar?

Lançarei a confusão
e a raiva sobre você,
cumpro acordos do Burrão
e “…eu, depois…logo se vê!

Resolvo tudo num instante
com este passo de lesma
imitando o de gigante…
FICARÁ TUDO NA MESMA!