História da Canção de Resistência (2)

Novembro 11, 2003

Novembro 11, 2003

História da Canção de Resistência

Francisco Fanhais, ou como para muitos ficou conhecido, do PADRE Fanhais.

Francisco Fanhais nasceu na Praia do Ribatejo a 17 de Maio de 1941.
Com dez anos vai para os seminários de Almada e Olivais, onde termina o curso de Teologia.
Em 1964 é ordenado padre e em 1969, como professor de Moral começa a interessar-se sobre a realidade à sua volta. As aulas eram no Barreiro, terra onde ele conhece José Afonso que o incentivará a cantar contra o regime.
Participa no programa de Televisão ” Zip-Zip” e grava o seu primeiro disco intitulado ” Cantilenas”.
Em 1970 grava e edita o seu disco ” Canções da Cidade Nova” , com arranjos de Thilo Krassman. As músicas deste disco são de sua autoria e as letras de consagrados poetas , como Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre e António Aleixo.
” Cantata de Paz” , com letra de Sophia e o famoso refrão ” Vemos, Ouvimos e Lemos, Não Podemos Ignorar”, torna-se um dos hinos de resistência ao regime derrubado em Abril de 74.
Deste disco fazem ainda parte outros temas, tais como ” Quadras do Poeta Aleixo”, “Porque” , ” Canto do Ceifeiro” e ” Canção da Cidade Nova”. Esta última canção ,com poema de Francisco Melro, é inspirada num tema bíblico. A música de Fanhais é uma música simples, mas eficaz , na senda dos “baladeiros”, movimento a que ficaram associados muitos dos cantores que usavam a canção para denunciar as injustiças.
José Afonso escreve uma ” Dedicatória” na contracapa do LP, que reza assim: ” Tu que cantas, Defronte ,De faces atentas, e Seguras, Faz do teu Canto, Uma funda, Nesse lugar, Entre outras mãos mais fortes, E mais duras, Te estenderei , A Minha mão fraterna. Canta Amigo”.
Este disco seria reeditado em CD, no ano de 1998 e o seu título seria alterado para ” Dedicatória” , com o manuscrito da dedicatória de José Afonso a servir de capa.
Em 1971 , Fanhais parte para França , porque estava proibido de cantar, de exercer o sacerdócio e de leccionar nas escolas oficiais. Torna-se militante da LUAR e só regressa a Portugal após o 25 de Abril de 74.
Em 1975 colabora nas campanhas de dinamização cultural do MFA, juntamente com José Afonso e outros cantores e participa na gravação do disco ” República”, gravado ao vivo por José Afonso, na Itália, disco esse que é uma das maiores raridades no panorama discográfico português.
Em 1984 vai viver para Alvito, no Baixo Alentejo e dedica-se ao ensino de Educação Musical em escolas oficiais.
Participa , como convidado, no disco “Ao Vivo no Coliseu” de José Afonso, onde faz coros na bonita canção ” Natal dos Simples”.
Em 1993 regressa ao palco para, conjuntamente com Manuel e Pedro Barroso, apresentar o espectáculo ” Encontro” , efectuados em Portugal e em França.
No dia 10 de Junho de 1995 é agraciado com a Ordem da Liberdade pelo Presidente da República, Mário Soares.
Continua a cantar, sempre que lhe pedem , em escolas e ,sobretudo, em Festas do 25 de Abril ou em homenagens a José Afonso.
Quando lhe perguntam pela vida responde que tem ” dois filhos, dois discos, muitas árvores e muitos amigos”.
Fanhais, tornou-se o expoente máximo dos católicos progressistas, que desde a célebre carta do bispo do Porto a Salazar em 1958, se vinham progressivamente demarcando do regime. Com Francisco Fanhais a postura oposicionista é clara e radical, e os discos Canções da Cidade Nova e Cantilena que grava em 1969 e 1970 são disso prova, representando trabalhos marcantes no movimento dos cantores de intervenção.
Para finalizar, aqui fica uma das cantigas dele, talvez a que “marca” efectivamente o autor.

CANTATA DA PAZ
Letra de Sophia de Mello Breyner Andresen
Música de Francisco Fanhais

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos ( Refrão )
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D’África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado

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