História da Canção de Resistência (1)

Outubro 17, 2003

Outubro 17, 2003

História da Canção de Resistência

Manuel Freire nasceu em Vagos ( Aveiro), no dia 25 de Abril de 1942.

Técnico de computadores, Manuel Freire nunca se profissionalizou na música.
O seu primeiro trabalho discográfico foi um EP com 4 temas, entre os quais o famoso “Livre” ( Não há machado que corte a raiz ao pensamento, porque é livre como o vento…).Editado em 1968, este disco contém ainda “Dedicatória” , “Pedro Soldado” e “Eles”.
O cantor começa a relacionar-se com outros da mesma área, tais como Adriano Correia de Oliveira, José Afonso ou Padre Fanhais.
Após uma participação no programa “Zip Zip” na RTP, em que interpreta uma canção com o poema de António Gedeão “Pedra Filosofal” , obtém um êxito quase imediato.
Começa a musicar poetas de grandes poetas portugueses e edita um álbum homónimo com 11 canções. Os poetas deste disco são Gedeão, José Gomes Ferreira, Fernando Assis Pacheco, Eduardo Olímpio, Sidónio Muralha e José Saramago.
As músicas são quase todas de Freire , à excepção de duas que são de M. Jorge Veloso. Com este disco ganha o Prémio da Casa da Imprensa e o Prémio Pozal Domingues. É neste LP que estão os temas ” Abaixo D. Quixote”, “A Menina Bexigosa”, ou “Poema da Malta das Naus”.
Como ele contou recentemente no programa de televisão “Miguel Ângelo Ao Vivo”, tinha um irmão que era oficial do Exército e lhe telefonou no dia 25 de Abril de 1974,dando-lhe os parabéns pelo aniversário e perguntando-lhe se tinha gostado da prenda. A prenda era a Revolução dos Cravos.

A seguir ao 25 de Abril de 74, Manuel Freire dedica-se aos recitais, um pouco por todo o país, actuando sobretudo em Associações Recreativas e Culturais , onde mantém um público fiel. A limpidez da sua voz , a pronúncia correcta e o facto das suas músicas serem acompanhadas por excelentes poemas contribuem para o seu reconhecimento público.
O último trabalho do autor é o CD ” As Canções Possíveis”, onde Manuel Freire canta poemas de José Saramago , numa edição da Editorial Caminho ( editora de Saramago ). Neste disco , com 12 canções, Manuel Freire é acompanhado por um grupo de músicos tocando violino, piano, contrabaixo, clarinete e violoncelo. Este álbum, recentemente editado, pertence à colecção Caminho de Abril ; que a editora lançou para comemorar os 25 anos do 25 de Abril.

Manuel Freire é um cantor que, ainda há pouco tempo, era convidado com frequência para sessões nas Universidades portuguesas. Hoje, a cultura estudantil está noutra onda…

Como já toda a gente conhece a Pedra Filosofal, “a cantiga por eccelência” do Manuel, escolhi uma outra menos(?) conhecida, intitulada: “Pequenos Deuses Caseiros”, poema da autoria de Sidónio Muralha e música de Manuel Freire.

Pequenos deuses caseiros
que brincais aos temporais,
passam-se os dias, semanas,
os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.

Pequenos deuses caseiros
cantai cantigas macias
tomai vossa morfina,
perdulai vossos dinheiros
derramai a vossa raiva
gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.

Erguei vossos castelos
elegei vossos senhores
espancai vossos criados,
violai vossas criadas,
e bebei,
o vinho dos traidores
servido em taças roubadas

Dormi em colchões de pena,
dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem,
alteai vossas janelas,
e trancai as vossas portas,
pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.

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